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Relatório aponta Moçambique como um dos 22 focos de fome no mundo

Brigadas médicas móveis prestam serviços de saúde essenciais às pessoas deslocadas em Cabo Delgado, Moçambique (Arquivo)
Unicef/Ricardo Franco
Brigadas médicas móveis prestam serviços de saúde essenciais às pessoas deslocadas em Cabo Delgado, Moçambique (Arquivo)

Relatório aponta Moçambique como um dos 22 focos de fome no mundo

Ajuda humanitária

Estima-se que 773 mil moçambicanos devem enfrentar níveis agudos de insegurança alimentar de outubro de 2024 a março de 2025; razões incluem a violência na província de Cabo Delgado e maior probabilidade de tempestades tropicais, ciclones e inundações com a chegada do fenômeno La Niña.

A insegurança alimentar aguda deverá aumentar tanto em magnitude como em gravidade em 22 países e territórios, de acordo com um novo relatório das Nações Unidas, divulgado nesta quinta-feira.

O levantamento destaca os Territórios Palestinos, Sudão, Sudão do Sul, Haiti e Mali como os locais sob o nível de alerta mais elevado. O conflito é a principal causa da fome em todas estas áreas.

Impacto da violência em Moçambique

A publicação, desenvolvida pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, e pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA, coloca Moçambique, juntamente com Chade, Líbano, Mianmar, Nigéria, Síria e Iêmen, na lista de países de alta preocupação.

O relatório afirma que em Moçambique a situação de insegurança alimentar aguda deve piorar devido ao conflito na província de Cabo Delgado e eventos climáticos extremos induzidos pelo fenômeno La Niña, que estão agravando perdas agrícolas.

Estima-se que 773 mil pessoas devem enfrentar níveis agudos de insegurança alimentar, de outubro de 2024 a março de 2025.

Aumento de tempestades ciclones e inundações

A situação de paz e segurança em Cabo Delgado deteriorou-se no primeiro semestre de 2024, após a retirada da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral em Moçambique.

A escalada, caracterizada por aumento e disseminação geográfica da violência, deixou mais de 160 mil deslocados de janeiro a julho de 2024, o que representa um aumento de 140% em comparação com o mesmo período do ano passado.

Além disso, o evento La Niña aumenta a probabilidade de tempestades tropicais, ciclones e inundações mais frequentes de novembro a abril, o que deve impactar negativamente os meios de subsistência em todo o país.

 Em Angola afectada pela seca, pequenos lagos estão sendo partilhados por famílias e animais, aumentando a ameaça sanitária de doenças transmitidas pela água (arquivo)
Unicef/Carlos César
Em Angola afectada pela seca, pequenos lagos estão sendo partilhados por famílias e animais, aumentando a ameaça sanitária de doenças transmitidas pela água (arquivo)

Procupação com seca em Angola

O levantamento da FAO e do PMA indica que apesar da falta de dados recentes, a situação de segurança alimentar em Angola é preocupante e requer monitoramento.

As províncias do sul e do leste foram afetadas por uma seca induzida pelo fenômeno El Niño. Os baixos estoques de alimentos e a falta de oportunidades de trabalho na agricultura diminuíram significativamente o poder de compra das famílias.

A inflação no país tem aumentado de forma constante, atingindo 31,1% em julho.

Soluções precoces, específicas e diplomáticas

O diretor geral da FAO, Qu Dongyu, disse que a situação nos cinco principais focos de fome é catastrófica.  Segudo ele, “as pessoas enfrentam uma situação de extrema falta de alimentos e fome sem precedentes, impulsionada pela escalada de conflitos, crises climáticas e choques econômicos”.

Para a diretora executiva do PMA, Cindy McCain, “chegou a hora dos líderes mundiais intensificarem e trabalharem para alcançar as milhões de pessoas em risco de fome”. De acordo com ela, isso significa fornecer soluções diplomáticas para os conflitos e usar a influência para permitir que os profissionais humanitários trabalhem com segurança.

O relatório sublinha que é essencial tomar medidas precoces e específicas para evitar uma maior deterioração da crise e evitar mortes em massa relacionadas à fome.

A FAO e o PMA apelam aos líderes mundiais para que priorizem a resolução de conflitos, o apoio econômico e as medidas de adaptação climática para proteger as populações mais vulneráveis ​​à beira da fome.