Perspectiva Global Reportagens Humanas

Acnur: 114 milhões de deslocados é sintoma da “extrema desordem mundial”

O alto comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi
ONU/Eskinder Debebe
O alto comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi

Acnur: 114 milhões de deslocados é sintoma da “extrema desordem mundial”

Migrantes e refugiados

O alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi, ressaltou que conflitos brutais continuam sendo o principal motivo dos deslocamentos forçados; em apresentação anual para o Conselho de Segurança, ele pediu mais união do órgão para lidar com um quebra-cabeças cada vez maior de guerras. 

O alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi, fez sua apresentação anual no Conselho de Segurança nesta terça-feira pedindo que o órgão pare de agir com “desunião e negligência”. 

Ele destacou que os números mais recentes da sua agência, o Acnur, indicam 114 milhões de refugiados e pessoas deslocadas em todo o mundo. 

Exceção virando regra

Para Grandi, este é “certamente um sintoma tangível, mas por vezes negligenciado, da atual extrema desordem mundial.”

Ele lembrou que o deslocamento forçado é também uma consequência da incapacidade de manter a paz e a segurança e que “conflitos brutais continuam sendo o seu principal motor”. 

De acordo com o chefe do Acnur, as últimas três semanas forneceram “provas devastadoras de que desconsiderar as regras básicas da guerra, o direito humanitário internacional, está se tornando cada vez mais a norma e não a exceção”. 

Uma barca sai de um cais em Renk, no estado do Alto Nilo, no Sudão do Sul, transportando centenas de repatriados do Sudão do Sul que fugiram do conflito no Sudão
Acnur/Samuel Otieno
Uma barca sai de um cais em Renk, no estado do Alto Nilo, no Sudão do Sul, transportando centenas de repatriados do Sudão do Sul que fugiram do conflito no Sudão

Solução justa para o conflito Israel-Palestina

Comentando a atual crise no Oriente Médio, ele afirmou que “não haverá paz na região e no mundo sem uma solução justa para o conflito Israel-Palestina, incluindo o fim da ocupação israelense”.

Segundo o alto comissário, “neste momento a prioridade é levar ajuda a Gaza”. Ele afirmou que “os palestinos não querem sair de Gaza, eles querem que a ajuda chegue a Gaza e essa deveria ser a prioridade.”

Fillipo Grandi ressaltou que o conflito em Gaza é a mais recente e talvez a maior peça do “perigoso quebra-cabeça de guerras” que está se formando rapidamente ao nosso redor. 

Bombardeios continuam em Gaza
OMS
Bombardeios continuam em Gaza

Quebra-cabeça de guerras

Como exemplos ele citou violações impunes no Sudão, instabilidade política no Sahel, violência contra mulheres na República Democrática do Congo, tensões que fizeram mais de 100 mil pessoas fugirem para a Armênia, criminalidade de gangues na América Latina e as 11 milhões de pessoas deslocadas na Ucrânia.

O alto comissário alertou para o fato de que cada nova crise “empurra as anteriores para um perigoso esquecimento.”

Além disso, ele afirmou que a resposta a cada uma dessas crises requer a “voz forte e unida” do Conselho de Segurança, carregando a autoridade conferida pela Carta da ONU. No entanto, Grandi lamentou que o mundo não escuta mais essa voz, de tão mergulhado que o órgão está em “rivalidades e divisões”.

Passos corajosos e necessários

Neste contexto, ele ressaltou que está sendo pedido aos humanitários que “juntem os cacos e ajudem mais pessoas em mais lugares” e que continuem por mais tempo enquanto “pouco capital político é gasto para fazer a paz”.

O chefe do Acnur disse que as escolhas que os quinze membros do Conselho fizerem, ou deixarem de fazer, marcarão a todos nós e às gerações vindouras.

Ele pediu aos países presentes “passos corajosos e necessários” para tirar o mundo do abismo.