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Especialistas da ONU apontam abandono de promessas no Afeganistão

As casas se alinham em uma colina nos limites da cidade de Cabul
UN News / David Mottershead
As casas se alinham em uma colina nos limites da cidade de Cabul

Especialistas da ONU apontam abandono de promessas no Afeganistão

Direitos humanos

Políticas implementadas por autoridades de facto no país causam “rompimento contínuo, sistemático e chocante com uma infinidade de direitos humanos”; piores impactos são sentidos por mulheres e meninas, que sofrem com perseguição e segregação. 

Especialistas de direitos humanos da ONU emitiram uma declaração apontando “a diferença entre promessas e práticas das autoridades de facto do Afeganistão”, que tomaram o poder dois anos atrás.

A nota afirma que as políticas impostas pelo regime Talibã supostamente “reformado” resultaram em “rompimento contínuo, sistemático e chocante com uma infinidade de direitos humanos, incluindo os direitos à educação, trabalho e liberdade de expressão.”

O alto comissário de Direitos Humanos das Nações Unidas, Volker Turk, disse que a comunidade internacional não pode esquecer do povo do Afeganistão, que além de "enfrentar limitações severas dos direitos humanos, está passando por uma situação humanitária e econômica terrível."

Segregação, marginalização e perseguição

A declaração cita relatos consistentes e confiáveis ​​de execuções sumárias e atos equivalentes a desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias generalizadas, tortura e maus-tratos.

As mais atingidas são mulheres e meninas, minorias étnicas, religiosas e outras, pessoas com deficiência, deslocados, a comunidade Lgbtq+, defensores dos direitos humanos e outros atores da sociedade civil, como jornalistas, artistas, educadores e ex-funcionários do governo.

Os especialistas da ONU afirmam que apesar de garantias das autoridades talibãs de que quaisquer restrições, particularmente em termos de acesso à educação, seriam temporárias, os fatos no terreno demonstraram “um sistema acelerado, organizado e abrangente de segregação, marginalização e perseguição.”

Um grupo de mulheres e seus filhos caminham em Daikundi no remoto centro do Afeganistão
Unicef/Mark Naftalin
Um grupo de mulheres e seus filhos caminham em Daikundi no remoto centro do Afeganistão

“Apartheid de gênero”

A nota aponta que em comparação com o ano passado, o Talibã implementou um sistema de discriminação com “a intenção de submeter mulheres e meninas a uma dominação total tão flagrante, que as práticas coletivas constituem perseguição de gênero, um crime contra a humanidade, e exigiram uma discussão sobre codificação do apartheid de gênero”.

Em dezembro, as autoridades de fato do Talibã proibiram as mulheres de trabalhar em organizações não governamentais, ONGs, e em abril de trabalhar na ONU.

Os especialistas das Nações Unidas concluem que as promessas de um governo mais inclusivo não se concretizaram. Dentre os fatores alarmantes estão a violação da anistia para ex-governantes e militares e o não cumprimento das diretrizes para acabar com a tortura e os maus-tratos nos centros de detenção.

As autoridades de facto introduziram ainda o uso de punições “cruéis e indignas, como apedrejamento, açoitamento e enterro sob um muro, em violação das normas internacionais de direitos humanos.”

Compromisso da comunidade internacional

O grupo de relatores especiais pede que as autoridades permitam as mulheres e meninas gozem de todos os direitos humanos, “incluindo liberdade de movimento e participação na vida política e pública.”

Eles pedem também a reabertura imediata de escolas e universidades para meninas e mulheres, o fim das represálias contra ex-funcionários do governo e de segurança e das detenções arbitrárias, dentre outras medidas para reverter o quadro de violações e abusos. 

Os relatores também pedem mais compromisso da comunidade internacional com o povo do Afeganistão. Dentre as iniciativas propostas está a “concessão de status de refúgio a todas as mulheres e meninas afegãs com base em violações de direitos humanos.”

Outra contribuição considerada importante é o apoio a mecanismos de investigação e responsabilização por violações de direitos humanos para evitar sua recorrência e combater a impunidade.

*Os especialistas fazem parte dos Procedimentos Especiais do Conselho de Direitos Humanos. Os peritos são independentes e trabalham de forma voluntária. Eles não são funcionários da ONU e não recebem salário por seu trabalho.