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Refugiados rohingya enfrentam fome e perda de esperança após cortes na ajuda humanitária

Há mais de cinco anos, centenas de milhares de rohingya fugiram de suas casas em Mianmar, após uma campanha militar de perseguição. Quase um milhão vive no campo de Cox's Bazar, do outro lado da fronteira, no vizinho Bangladesh. 
Unsplash/Ajay Karpur
Há mais de cinco anos, centenas de milhares de rohingya fugiram de suas casas em Mianmar, após uma campanha militar de perseguição. Quase um milhão vive no campo de Cox's Bazar, do outro lado da fronteira, no vizinho Bangladesh. 

Refugiados rohingya enfrentam fome e perda de esperança após cortes na ajuda humanitária

Migrantes e refugiados

Impactos são vistos nos campos de Cox's Bazar após segunda diminuição em vales alimentares em três meses; valor atual é de cerca de US$ 0,27 por dia; agência da ONU para refugiados alerta para falta de financiamento ao plano de reposta, que afeta principalmente vida de mulheres e crianças.

Em um centro de distribuição de alimentos em Cox's Bazar, onde vivem cerca de 1 milhão de refugiados, houve reduções nos vales-alimentação. Desde março, o valor tem caído e no mês passado, o vale representava o equivalente a US$ 0,27 por dia.

Segundo o Escritório da ONU para Refugiados, Ancur, a redução do auxílio agravou a vulnerabilidade dos refugiados, que já vivem em condições extremamente superlotadas e perigosas nos campos do sul de Bangladesh. A maioria deles fugiu da violência em Mianmar há quase seis anos.

O campo de refugiados de Kutupalong em Cox's Bazar, Bangladesh, é um dos maiores do mundo e hospeda centenas de milhares de rohingyas que fugiram da violência em Mianmar.
Ocha/Vincent Tremeau
O campo de refugiados de Kutupalong em Cox's Bazar, Bangladesh, é um dos maiores do mundo e hospeda centenas de milhares de rohingyas que fugiram da violência em Mianmar.

Falta de financiamento

A assistência alimentar fornecida pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA, tem sido a única fonte confiável para atender a necessidades básicas de alimentos e nutrição, mas com a redução dos financiamentos, essa ajuda está sob pressão severa.

Enfrentando a falta de financiamento, o PMA teve que fazer escolhas difíceis para manter a assistência alimentar até o final do ano, resultando em cortes nos vouchers alimentares para os residentes do acampamento.

O Acnur avalia que a redução nas porções de alimentos tem impactado negativamente as famílias rohingyas, que já vivem em situação precária nos campos. 

Assistência aos refugiados rohingya

Segundo o Escritório da ONU, a falta de alimentos tem levado a um aumento nos casos de desnutrição, especialmente entre mulheres e crianças. 

Além disso, a falta de oportunidades de emprego e de renda legal tem levado a medidas desesperadas para sobreviver, como casamento infantil, trabalho infantil e jornadas perigosas em embarcações.

Para o Acnur, é crucial que a comunidade internacional forneça mais apoio para garantir assistência vital aos refugiados rohingyas e invista nas comunidades locais. 

Refugiados da minoria Rohingya na fronteira entre Myanmar e Bangladesh.
Unicef/Brown.
Refugiados da minoria Rohingya na fronteira entre Myanmar e Bangladesh.

A ONU alerta que não é apenas o PMA que está sentindo o impacto do declínio dos níveis de financiamento de doadores internacionais. O plano de resposta humanitária para 2023 para os rohingya foi financiamento apenas em 25%. 

O Acnur afirma que os impactos desses cortes são particularmente graves para mulheres e crianças, que representam mais de 75% da população refugiada e enfrentam maiores riscos de abuso, exploração e violência de gênero.

A ONU ainda avalia que no longo prazo, será necessário investir em educação, treinamento profissional e oportunidades de subsistência para permitir que os refugiados se tornem autossuficientes e possam reconstruir suas vidas quando puderem retornar voluntariamente e com segurança a Mianmar.

Oportunidades de subsistência

A longo prazo, o representante do Acnur em Bangladesh, Johannes van der Klaauw, disse que a única maneira de evitar que a situação humanitária nos campos se deteriore ainda mais é investindo em educação, treinamento de habilidades e oportunidades de subsistência.

Para ele, isso permitiria que os refugiados se tornassem autossuficientes e satisfizessem parcialmente suas necessidades básicas por seus próprios meios. 

Além disso, ele avalia que isso poderia contribuir na preparação para reconstruir suas vidas quando puderem retornar voluntariamente e com segurança a Mianmar.

Sem essas oportunidades, refugiados rohingya veem os últimos cortes na alimentação como um sinal não apenas de mais fome, mas de menos esperança.