Obituário: Pelé, o embaixador que era Rei

Pelé (Edson Arantes Do Nascimento) é apresentado como Embaixador da Boa Vontade das Nações Unidas por Maurice Strong em coletiva de imprensa em 1992.
ONU/Milton Grant
Pelé (Edson Arantes Do Nascimento) é apresentado como Embaixador da Boa Vontade das Nações Unidas por Maurice Strong em coletiva de imprensa em 1992.

Obituário: Pelé, o embaixador que era Rei

Assuntos da ONU

Considerado o Atleta do Século, Pelé foi convidado pela ONU para assumir o posto de embaixador da Boa Vontade da Conferência Rio 92 sobre meio ambiente; ele também atuou com a organização para apoiar os direitos das crianças em várias partes do mundo.

Pelé nasceu Edson Arantes do Nascimento em Minas Gerais, no sudeste do Brasil.

A data: 23 de outubro de 1940. Filho e sobrinho de jogador de futebol, foi ganhando intimidade com a bola já dentro de casa. Mas não demorou muito para que as ruas e esquinas da cidade de Três Corações começassem a testemunhar o talento do menino prodígio, conhecido até então como o filho do ‘seu’ Dondinho e da dona Celeste.

A forma de tratar a bola e ser tratado por ela logo chamou a atenção dos vizinhos, parentes e dos olheiros do esporte. Aos 13 anos, Pelé já estava nos quadros juvenis do Clube Atlético de Bauru.

Embaixador da Boa Vontade da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), Pele (segurando crianças) do Brasil, é saudado por crianças enquanto se dirige para o Plenário no Rio de Janeiro, Brasil. (junho de 1992)
ONU/Joe B. Sills
Embaixador da Boa Vontade da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), Pele (segurando crianças) do Brasil, é saudado por crianças enquanto se dirige para o Plenário no Rio de Janeiro, Brasil. (junho de 1992)

Inteligência e leis da física

O primeiro treinador profissional foi Valdemar de Brito, que levou Pelé ao Santos e a partir dali a bola foi rolando em passes mágicos no pé do atleta até a consagração em estádios internacionais.

O jornalista e autor dos livros “Biografia das Copas” e “1970 o Brasil é tri”, Thiago Uberreich, afirma que Pelé revolucionou o esporte.

“O surgimento de Pelé muda os paradigmas dos conceitos do futebol. Pelé desafiava as leis da física no futebol. Ele com uma compleição física praticamente perfeita, com uma inteligência poucas vezes vista num jogador de futebol, e muita habilidade, ele revoluciona.”

O grande salto de Pelé para o mundo, ocorre aqui em 1958, os gols do adolescente de 17 anos levaram o Brasil a sua primeira vitória em Copas do Mundo. Foi na Suécia, o país anfitrião. Quatro anos depois, o Brasil conseguia o bicampeonato na Copa do Chile, onde Pelé se lesionou e ficou fora da partida final.

E novamente, em 1970, um Pelé com 30 anos, levaria o Brasil à terceira vitória em Copa do Mundo do México. Numa seleção que era considerada um time de ouro com Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto, Rivellino e tantos outros

Ali, Pelé já tinha marcado mil gols, um feito incrível para um jogador de futebol naquele momento.

Para Thiago Uberreich, o talento incomparável do atleta fez com que ele se tornasse o “maior embaixador que o Brasil já teve”.

Como o rei Pelé “nunca mais” - Thiago Uberreich

Homenagens em vida

“Olha, o que é possível falar sobre o rei Pelé já que durante toda a vida dele se falou muito, ele recebeu muitas homenagens. E ele sempre dizia que todas as homenagens que ele queria receber, eram homenagens em vida. E ele sempre teve todas as homenagens possíveis. Mas eu cito aqui, nesta reflexão sobre o que representou o Pelé para o Brasil e para o mundo do futebol: o Pelé foi o maior embaixador que o Brasil já teve. E por meio do futebol, ele tornou o Brasil conhecido, quando surgiu em 1958 na Copa do Mundo, quando o Brasil conquistou pela primeira vez o mundial.”

Papa, rainha e Cosmos

Na vida pessoal, o Edson era apaixonado pela família. Com a primeira mulher, Rosemeri Cholbi, ele teve três filhos. O divórcio ocorreu em 1978. Pelé só foi se casar de novo em 1994 com a cantora evangélica, Assíria Nascimento, com quem teve dois filhos: os gêmeos Celeste e Joshua. Após 13 anos de vida em comum, eles se divorciaram. Pelé se casou pela terceira vez, em 2016, com Marcia Aoki. Fora desses casamentos, ele teve duas filhas: Flávia e Sandra, a primogênita que teve que ser reconhecida na Justiça.

O jogador recebeu inúmeros reconhecimentos por onde passou: desde os torcedores mais humildes em estádios remotos até chefes de Estado e governo como a Rainha Elizabeth II, vários papas e mais recentemente de astros do futebol como Lionel Messi e Kylian Mbappé.

[Da esquerda para a direita] ao redor de uma bola de futebol estão o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, o astro do futebol brasileiro Pelé e o presidente da FIFA, Joseph Blatter, em uma coletiva de imprensa anunciando sua decisão de ingressar em um r…
ONU/Eskinder Debebe
[Da esquerda para a direita] ao redor de uma bola de futebol estão o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, o astro do futebol brasileiro Pelé e o presidente da FIFA, Joseph Blatter, em uma coletiva de imprensa anunciando sua decisão de ingressar em um relacionamento cooperativo com a FIFA para promover as Nações Unidas

Pujança, elegância e inspiração

O astro da Seleção Francesa de Futebol, Kylian Mbappé, diz nesse vídeo que Pelé tinha como jogador uma qualidade de definição nos gramados, uma pujança, uma elegância que o lançou ao redor do mundo são muito agradáveis de ver, nos vídeos aos quais ele assistiu da época do Pelé, e que tanto o inspiraram e o continuam inspirando.”

Fora de casa, Pelé marcou outro gol de placa ao levar o futebol para os Estados Unidos quando foi contratado pelo Cosmos de Nova Iorque, em 1975, e depois de sair do Santos, onde ficou de 1956 a 1974.

Além de promover o esporte pelo mundo, Pelé também foi um grande defensor de causas sociais, desde o acesso à água potável para todos passando pelo meio ambiente e o direito das crianças em algumas parcerias com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, e com governos nacionais.

No início dos anos 1990, Pelé foi convidado para ser embaixador da Boa Vontade da ONU para a Conferência Rio 92 sobre meio ambiente, no Rio de Janeiro.

Nesta entrevista, de 1991, os jornalistas perguntaram o que ele faria para ajudar a Amazônia. Pelé disse que era uma boa pergunta porque 95% dos brasileiros pensavam que a Rio 92 resolveria os problemas do Brasil na área do meio ambiente, mas que na realidade, o evento não era sobre a Amazônia, mas sim sobre todas as pessoas no mundo.

Gosto por cantar

Muitos, nos Estados Unidos, atribuem a Pelé o título de embaixador do futebol, onde o esporte é conhecido como soccer.

E apesar de ser tão reverenciado, a família conta que em casa, Pelé sempre foi “pé no chão”, emotivo e chorava mais que os filhos quando tinha que disciplinar qualquer um deles.

Gostava de compor e cantar. Participou de uma faixa do álbum de Assíria e se arriscou em voos solos.

Nessa entrevista à ONU News, o filho Joshua Nascimento conta que o pai, mostrava a ele os CDs entusiasmado com a própria performance musical, que o filho acredita não era o seu maior talento, como conta nessa conversa ao lado da mãe e cantora Assíria Lemos, ex-mulher de Pelé.

Outra paixão que dava certo

ON: E outra coisa que ele gosta de fazer é cantar, compor e cantar, né?

AL: É ele gosta de cantar também...

JN: Essa aí eu nunca entendi...

ON: Por que você nunca entendeu, Joshua?

JN: Porque eu ficava pensando, poxa, não é que ele não era bom, mas não era o melhor, mas fazer o quê? Foi uma outra paixão que ele achou e viu que dava certo...

ON: Você chegou a aconselhar contra gravar um disco, uma faixa?

JN: Não, não. Só tinha música dele que ele colocava e eu ficava enjoado de ouvir.

Ele perguntava: já ouviu essa música, Joshua? E aí eu dizia: já pai, já ouvi todo o seu CD umas 10 vezes... (risos)

AL: Ele se empolgou em gravar porque fiz dois CDs com ele um em espanhol e outro em português e ele gostou da experiência e depois disso ele começou a gravar. (risos)

Pelé em livro de Thiago Uberreich, autor do livro “1970: O Brasil é Tri”

Igual a Pelé, jamais...

E o Atleta do Século, designado com esse título em 1999, pelo Comitê Olímpico Internacional tinha muitos talentos e inúmeros recordes. Para Thiago Uberreich, podem aparecer vários craques: Messi, Neymar, Mbappé, mas igual a Pelé, não haverá ninguém. Jamais.

“Então, a gente tem que lembrar que o Pelé simplesmente é um dos maiores brasileiros, se não o maior brasileiro de todos os tempos. Ele levou o nome do Brasil aos quatro cantos do planeta, encantou as plateias de todo o planeta, e deixou um legado que até hoje não foi superado por ninguém. E veja: o Pelé parou de jogar em outubro de 1977, ou seja, já faz tempo, e até agora ninguém apareceu para se igualar a Pelé. Você tem grandes jogadores: Maradona, Messi, Ronaldo, Neymar. Mas como o Pelé, eu acredito que nunca mais.”

A lenda do futebol brasileiro Pelé assina seu nome nas costas de uma camiseta masculina, após o lançamento da Aliança FIFA-UNICEF para Crianças na sede da ONU. (novembro de 2001)
© Unicef/Susan Markisz
A lenda do futebol brasileiro Pelé assina seu nome nas costas de uma camiseta masculina, após o lançamento da Aliança FIFA-UNICEF para Crianças na sede da ONU. (novembro de 2001)

Uma forma patriota de poder representar o Brasil

Eu perguntei ao filho Joshua Nascimento como ele gostaria que o pai e o Pelé fossem lembrados.

JN: Essa é pergunta é muito boa. Eu acho que ser lembrado como uma pessoa que ele é e sempre foi. Super humilde, carismático, sempre de uma forma patriota, de poder representar o Brasil tão bem como ele representou na história, na carreira e de ter sido o maior jogador de futebol, um dos maiores atletas do mundo. Eu acho que é assim que eu gostaria que ele fosse lembrado.

Uma pessoa bem solidária

ON: E o seu pai?

JN: E o meu pai, então, eu acho que mais o lado humano. Uma pessoa carismática, uma pessoa humilde, a pessoa super generosa, que procura dar muito de si e não querer nada para ele, uma pessoa bem solidária. Acho que é assim que eu gostaria.

O astro do futebol Pelé (3º à direita) e outras autoridades brasileiras são presenteados com a bandeira das Nações Unidas pelo ex-secretário-geral da ONU Boutros Boutros-Ghali (3º à esquerda) na cerimônia de abertura da Conferência sobre Meio Ambiente e …
ONU/M. Tzovaras
O astro do futebol Pelé (3º à direita) e outras autoridades brasileiras são presenteados com a bandeira das Nações Unidas pelo ex-secretário-geral da ONU Boutros Boutros-Ghali (3º à esquerda) na cerimônia de abertura da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. (junho de 1992).

Nunca desistir

Uma pessoa que quando você conhece, pessoalmente, você fica encantado porque ele é igual a você, não tem nada de diferente, ele só foi super humano como todos nós, só foi super bom no que fez no futebol.

E é com essa a mensagem desse eterno otimista e recordista, que terminamos essa reportagem com apenas alguns fragmentos da história de Pelé, o Rei...


DA ONU NEWS em Nova York com mixagem de Pauline Batista e Carlos Macías, Monica Grayley.

Créditos e Agradecimentos:
“Aqui estarei” gravada por Assíria Lemos e Pelé cortesia de Assíria Lemos, albúm “Novo Tempo” (Som Livre, 2003). 
 “Esperança” gravada por Pelé, PeléVEVO (YouTube, 2016)
“Brasil x Suécia - Final da Copa de 1958” (YouTube, 2012)
“Pelé e a Musiquinha do ABC – 1997” (YouTube, 2022)
“Entrevistas Thiago Uberreich”, autor do livro “1970: O Brasil é Tri”, YouTube ONU News (YouTube, 2022)
“Pelé - Mbappé : la rencontre au sommet”, Le Parisien, Le Parisien YouTube (YouTube, 2019)
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