Uma em cada cinco pessoas sofre com violência e assédio no emprego

A violência e o assédio no trabalho afetaram mais de uma em cada cinco pessoas
© Unsplash/Heike Trautmann
A violência e o assédio no trabalho afetaram mais de uma em cada cinco pessoas

Uma em cada cinco pessoas sofre com violência e assédio no emprego

Direitos humanos

Organização Internacional do Trabalho lança primeira pesquisa global sobre o tema; objetivo é trazer uma melhor compreensão e conscientização sobre a questão ligada a fatores econômicos, sociais e culturais.

Cerca de 23% das pessoas empregadas já sofreram algum tipo de violência e assédio no local de trabalho, seja físico, psicológico ou sexual. É o que mostra a primeira análise sobre o tema realizada pela Organização Internacional do Trabalho, OIT, com o apoio da Lloyd's Register Foundation, LRF, e o Instituto Gallup.

A pesquisa global indica o tamanho do problema e suas diferentes formas. Também analisa motivos que impedem as pessoas de falar sobre suas experiências, incluindo vergonha, culpa ou falta de confiança nas instituições. Em alguns casos, a violência e o assédio são tidos como “normais”.

A pandemia de Covid-19 destacou ainda mais o problema, com muitas formas de violência e assédio relacionados ao trabalho sendo relatadas
OIT
A pandemia de Covid-19 destacou ainda mais o problema, com muitas formas de violência e assédio relacionados ao trabalho sendo relatadas

Vítimas têm dificuldade de falar sobre o assunto

Segundo a OIT, a violência e o assédio no trabalho são difíceis de medir. O relatório revela que apenas metade das vítimas relatou suas experiências a outra pessoa, e muitas vezes somente depois de terem sofrido mais de uma forma de violência e assédio.

Dentre as maiores razões para não falar estariam “perda de tempo” e “medo por sua reputação”. As mulheres são mais propensas a compartilhar suas experiências do que os homens, 60,7% em comparação com 50,1%.

Globalmente, 17,9% dos trabalhadores disseram ter sofrido violência psicológica e assédio em sua vida profissional, e 8,5% sofreram violência física e assédio. Dos entrevistados, 6,3% relataram violência e assédio sexual, com as mulheres sendo particularmente expostas.

Violência e assédio sexual atinge mais as mulheres

Entre os grupos com maior probabilidade de serem afetados por diferentes tipos de violência e assédio estão jovens, trabalhadores migrantes e mulheres e homens assalariados.

As jovens são duas vezes mais propensas que os jovens de enfrentar violência e assédio sexual, e as mulheres migrantes têm quase o dobro mais chance do que as mulheres não migrantes a denunciar.

Mais de três em cada cinco vítimas contaram ter sofrido violência e assédio no trabalho, várias vezes e, para a maioria, o incidente mais recente ocorreu nos últimos cinco anos.

A diretora-geral adjunta de Governança, Direitos e Diálogo da OIT, Manuela Tomei, destaca que “a violência psicológica e o assédio são prevalentes em todos os países e as mulheres estão particularmente expostas à violência e assédio sexual”. Para ela, o relatório ressalta a enorme tarefa de acabar com a violência e o assédio no mundo do trabalho.

Convenção exige medidas dos governos para proteger os trabalhadores da violência e do assédio, especialmente às mulheres.
OIT/ © Crozet / Pouteau
Convenção exige medidas dos governos para proteger os trabalhadores da violência e do assédio, especialmente às mulheres.

Normas para diminuir a incidência do problema

A representante disse esperar que mais ações sejam tomadas para ratificar e implementar a Convenção 190 da OIT. O documento, junto com a Recomendação 206 são as primeiras normas internacionais de trabalho que fornecem uma estrutura comum para prevenir, remediar e eliminar a violência e o assédio no mundo do trabalho, incluindo gênero violência e assédio.

A Convenção inclui o reconhecimento específico, pela primeira vez no direito internacional, do direito de todos a um mundo de trabalho livre de violência e assédio, e estabelece a obrigação de respeitar, promover e concretizar isso.

O sócio da Gallup, Andrew Rzepa, afirma que “por muito tempo, empresas e organizações não souberam ou não quiseram lidar com a violência e o assédio no local de trabalho”. Segundo ele, estes dados fornecem uma linha de base que pode ser usado para rastrear o progresso necessário.

Já a diretora de Evidências e Insights da Lloyd's Register Foundation, Sarah Cumber lembra que “para enfrentar desafios globais de segurança tão difíceis e enraizados como a violência e o assédio no trabalho, é fundamental ter bons dados para entender a extensão do problema e identificar aqueles que correm maior risco.

As recomendações do relatório:

  • Coleta regular de dados sólidos sobre violência e assédio no trabalho, nos níveis nacional, regional e global, para informar leis e mecanismos de prevenção e remediação, políticas e programas, além de pesquisa e defesa.
  • Ampliar e atualizar os mecanismos para prevenir e gerir de forma eficaz a violência e o assédio no mundo do trabalho, através de sistemas de inspeção e políticas e programas de segurança e saúde nesses ambientes.
  • Aumentar a conscientização para a violência e o assédio no trabalho, nas suas diferentes manifestações, com uma visão sobre mudança de percepções, estigmas, atitudes e comportamentos que podem perpetuar a violência e o assédio, como os baseados na discriminação.
  • Melhorar a capacidade das instituições em todos os níveis para fornecer prevenção, remediação e apoio eficazes, para construir a confiança das pessoas na justiça e garantir que as vítimas sejam apoiadas.

 

O estudo foi baseado em entrevistas realizadas em 2021 com quase 75 mil indivíduos empregados com 15 anos ou mais em 121 países e territórios.