Perspectiva Global Reportagens Humanas

No Camboja, chefe da ONU alerta sobre perigos do ódio e da perseguição

Secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que preservar a memória das pessoas que sofreram e morreram durante o governo do Khmer Vermelho ajuda a garantir que tais atrocidades nunca se repitam
Nick Sells
Secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que preservar a memória das pessoas que sofreram e morreram durante o governo do Khmer Vermelho ajuda a garantir que tais atrocidades nunca se repitam

No Camboja, chefe da ONU alerta sobre perigos do ódio e da perseguição

Direitos humanos

António Guterres visitou o Museu do Genocídio Tuol Sleng, em Phnom Penh, neste domingo; local abrigou um centro de interrogatório e detenção durante o regime, que durou de 1975 a 1979.

Em visita ao Camboja, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que preservar a memória das pessoas que sofreram e morreram durante o governo do Khmer Vermelho ajuda a garantir que tais atrocidades nunca se repitam.

O chefe das Nações Unidas esteve no Museu do Genocídio Tuol Sleng, na capital do país, Phnom Penh, neste domingo. O local abrigou um centro de interrogatório e detenção durante o regime, que durou de 1975 a 1979.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, vê documentos mantidos pelos Arquivos do Museu do Genocídio Tuol Sleng em Phnom Penh, Camboja
Nick Sells
O secretário-geral da ONU, António Guterres, vê documentos mantidos pelos Arquivos do Museu do Genocídio Tuol Sleng em Phnom Penh, Camboja

Um lembrete essencial

Estima-se que até 18 mil pessoas de todo o Camboja foram trazidas para a instalação, localizada em uma antiga escola secundária no coração da capital. Apenas alguns sobreviveram.

Guterres afirmou que Tuol Sleng é um “lembrete essencial”. Ele adicionou que os tijolos e telhas manchados de sangue são um aviso do que acontece “quando o ódio corre solto”, com pessoas perseguidas e os direitos humanos são negados.

Trabalho forçado e execuções

O secretário-geral da ONU esteve no museu para prestar homenagem a todas as vítimas e sobreviventes da brutalidade do Khmer Vermelho em todo o Camboja. O regime seguiu uma ideologia radical de diferentes crenças e políticas comunistas. Religião, tradições e relações familiares eram proibidas.

As pessoas foram forçadas a deixar as grandes cidades para trabalhar em comunas agrícolas no campo. Instituições como escolas, templos, indústrias e fábricas foram destruídas e intelectuais, profissionais e monges foram mortos.

No geral, acredita-se que quase dois milhões de pessoas, aproximadamente um quarto da população, tenham morrido durante esses anos de trabalho forçado, fome, tortura e execução.

Tweet URL

Fotografado, interrogado e morto

Pessoas trazidas para Tuol Sleng foram fotografadas e muitas foram torturadas para extrair confissões falsas de que eram agentes secretos do governo dos Estados Unidos.

Os prisioneiros foram detidos, interrogados e mortos, ou levados para outro local nos arredores da capital chamado Choeung Ek, um dos muitos “campos de extermínio” onde foram realizadas execuções em massa.

A maioria dos quartos em Tuol Sleng foi mantida nas condições de quando o Khmer Vermelho foi expulso pelas tropas invasoras vietnamitas.

O secretário-geral da ONU afirmou que o sofrimento que ocorreu dentro desses locais é horrível e chocante. Guterres adicionou que as histórias de sobrevivência e resiliência são comoventes e inspiradoras.

Conscientização sobre atrocidades

Guterres agradeceu ao museu pelo trabalho para aumentar a conscientização sobre as atrocidades cometidas sob o Khmer Vermelho, como parte dos esforços para garantir que elas nunca mais aconteçam.

Ele lembrou que as Câmaras Extraordinárias do Tribunal do Camboja responsabilizaram os líderes do regime por esses crimes e deram voz às vítimas e sobreviventes.

Segundo o líder das Nações Unidas, essas vozes “são mais importantes do que nunca, em um momento em que discursos de ódio, abuso, discriminação e assédio estão aumentando em todos os cantos do mundo.

O chefe da ONU enfatizou que preservar a memória daqueles que sofreram e morreram em Tuol Sleng ajudará a evitar que as atrocidades se repitam.

Defesa a inclusão e a dignidade

Ele contou que prometeu contar a história de um dos sobreviventes para suas netas e pedirá que elas também transmitam aos seus. Para o líder das Nações Unidas, isso é essencial para que a memória do que aconteceu “nunca se perca”.

Guterres adicionou que aprendendo a reconhecer os primeiros sinais de alerta de genocídio e outros crimes de atrocidade, e honrando os valores de inclusão e dignidade, será possível “lançar as bases para um futuro em que tais horrores nunca mais possam acontecer”.

O secretário-geral esteve no Camboja para discursar na última reunião entre a ONU e a Associação das Nações do Sudeste Asiático, realizada na última sexta-feira na capital. Ele seguirá para Bali para participar da cúpula do G20, que começa na terça-feira.