Encontrar sírios desaparecidos “seria um grande passo para quebrar o muro de silêncio”

Entrevista de Paulo Sérgio Pinheiro à ONU News
ONU News
Entrevista de Paulo Sérgio Pinheiro à ONU News

Encontrar sírios desaparecidos “seria um grande passo para quebrar o muro de silêncio”

Paz e segurança

Especialista brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro disse à Assembleia Geral que é hora de agir em favor de famílias com o direito de saber o destino de entes queridos desaparecidos na guerra; chefe da Comissão Internacional de Inquérito considera a questão “uma das maiores tragédias” do conflito.

O presidente da Comissão Internacional de Inquérito sobre a Síria defende a criação de um mecanismo para conhecer o paradeiro de dezenas de milhares de cidadãos desaparecidos durante o conflito armado, que segue para o 12º ano.

Em entrevista exclusiva à ONU News, em Nova Iorque, Paulo Sérgio Pinheiro enfatizou que as famílias do país em conflito têm o direito de saber o destino de seus entes queridos. Para ele, a questão é uma das maiores tragédias da guerra na Síria.

Diálogo

“Dentro das mulheres que vão ficar percorrendo as prisões, as delegacias de polícia para saber onde estão os seus entes queridos e membros da sua família. E no exterior há várias entidades coletando esse número. Então, o que não falta é informação, mas o que está faltando é uma coordenação para articular todas as informações que se sabe para um dia poder ter um diálogo com as autoridades da Síria. Isso vai acontecer um dia. Não hoje, mas um dia, como aconteceu nos outros países.”

Pinheiro citou um recente relatório do secretário-geral das Nações Unidas sobre a questão, defendendo que se constitua um órgão internacional para esclarecer o destino e o paradeiro dos desaparecidos, além de apoiar suas famílias.

Na Assembleia Geral, o especialista pediu que o foco das discussões não seja mais na necessidade ou não de criar tal mecanismo. Ele disse haver experiências como  Bolívia, Argentina, Colômbia e Kuwait onde o mecanismo funcionou depois das situações de instabilidade e estimulou segurança.

“Houve muitas pesquisas. Os refugiados querem voltar. Quem é que não quer voltar para Síria? Eu adoraria voltar para a Síria se eu fosse sírio. Eles não teriam uma dúvida, mesmo com suas casas e cidades destruídas. O país é deles e querem voltar, mas principal objeção é o medo em relação ao que pode acontecer.”

Em um campo para pessoas deslocadas pelo conflito no noroeste da Síria, crianças se refrescam das altas temperaturas do verão na traseira de um caminhão transformado em uma piscina temporária.
© Unocha/Ali Haj Suleiman
Em um campo para pessoas deslocadas pelo conflito no noroeste da Síria, crianças se refrescam das altas temperaturas do verão na traseira de um caminhão transformado em uma piscina temporária.

Prisão

Pinheiro diz acreditar que um novo mecanismo possa fornecer apoio urgente às famílias que procuram entes queridos desaparecidos, principalmente mulheres que estão na vanguarda da defesa da verdade sobre seus parentes. Muitas vezes estas correm o risco de prisão, assédio ou extorsão.

A expectativa é que a iniciativa possa coordenar e consolidar todas as reivindicações para deixar claro quantas pessoas estão faltando, esclarecer essa situação com meios inovadores e interceder junto às partes para o acesso a todos os locais de detenção.

Pinheiro considera que nisso pode ser feito por associações de famílias e a sociedade civil sírias. A comissão diz conter informações recolhidas ao longo dos 11 anos com o consentimento fornecido pelas fontes.

Uma criança fica do lado de fora de sua casa improvisada em um assentamento informal na cidade de Raqqa, nordeste da Síria.
© Unicef/Delil Souleiman

Apoio humanitário significativo

Pinheiro apelou à Assembleia Geral que chegou o momento de agir para famílias com o direito de saber o destino de seus entes queridos e precisam de ajuda.

Ele destacou ainda que seria um apoio humanitário significativo dos Estados-membros que ajudará a enfrentar o sofrimento causado pelo flagelo dos sírios desaparecidos.   

O pedido feito às autoridades sírios e a outras partes do conflito que haja acesso imediato de monitores independentes a todos locais de detenção.