Para Guterres, “Paquistão está à beira de um desastre de saúde pública”

Crianças refugiadas afegãs brincam perto de uma bomba de abastecimento de água na aldeia de refugiados de Kheshgi, no distrito de Nowshera, Paquistão
© Acnur/Qaiser Khan Afridi
Crianças refugiadas afegãs brincam perto de uma bomba de abastecimento de água na aldeia de refugiados de Kheshgi, no distrito de Nowshera, Paquistão

Para Guterres, “Paquistão está à beira de um desastre de saúde pública”

Clima e Meio Ambiente

Secretário-geral falou na Assembleia Geral sobre as inundações no país asiático; muitas áreas do sul continuam alagadas e aproximação do inverno preocupa; ONU coopera com governo paquistanês para organizar Conferência de Doadores.

O secretário-geral das Nações Unidas discursou, nesta sexta-feira, em uma sessão da Assembleia Geral sobre as recentes inundações no Paquistão. As enchentes atingiram 33 milhões de pessoas e mataram mais 1,7 mil, deixando um terço do território embaixo d’água.

António Guterres disse que o país não produz nem 1% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas mesmo assim paga um enorme preço pelas mudanças climáticas provocadas por mãos humanas.

Ele relembrou a visita que fez, no mês passado, ao Paquistão, onde viu “um nível de carnificina climática além da imaginação”. Na ocasião, Guterres afirmou que as águas das inundações cobriram uma massa de terra equivalente a três vezes a área total de seu próprio país, Portugal.

António Guterres discursa na abertura do debate geral da 77ª sessão da Assembleia Geral da ONU
ONU/Cia Pak
Guterres disse que o país não produz nem 1% das emissões globais de gases de efeito estufa e mesmo assim paga um enorme preço

Chegada do inverno

Apesar de as chuvas terem parado e os alagamentos diminuído, muitas áreas do sul continuam inundadas, e a preocupação agora é com a chegada do frio. “Muitos não têm abrigo quando o inverno se aproxima”, disse ele.

Para Guterres, “o Paquistão está à beira de um desastre de saúde pública”, alertando para ameaças de cólera, malária e dengue que podem acabar com “muito mais vidas do que as inundações”.

Foram cerca de 1,5 mil instalações de saúde arrasadas, 2 milhões de casas danificadas ou destruídas e mais de 2 milhões de famílias que perderam tudo.

Cheias inundaram a província do Baluchistão, no Paquistão
ONU News/Shirin Yaseen
Cheias inundaram a província do Baluchistão, no Paquistão

Aumento da fome e desnutrição

O secretário-geral destacou ainda a crise alimentar e o risco para o futuro, chamando atenção para a destruição de plantações e gado.

Segundo ele, a fome severa, a desnutrição entre crianças e mulheres grávidas lactantes e o número de alunos fora da escola estão aumentando. Além disso, mais de 15 milhões de pessoas podem ser lançadas na pobreza.

Ele acrescentou que, para os mais vulneráveis, os efeitos das inundações serão sentidos não apenas por dias ou meses, mas pelos próximos anos.

Famílias sobrevivem sem abrigo depois de se mudarem para um local mais seguro quando a água da enchente atingiu vilarejos na província do Baluchistão, no Paquistão
© Unicef/A. Sami Malik
Famílias sobrevivem sem abrigo depois de se mudarem para um local mais seguro quando a água da enchente atingiu vilarejos na província do Baluchistão, no Paquistão

Apoio das Nações Unidas

Guterres afirmou que a ONU está atuando com o governo do Paquistão para realizar uma Conferência de Doadores com o objetivo de fornecer para reabilitação e reconstrução.

O chefe da ONU apelou por apoio aos países, instituições financeiras internacionais e outras organizações internacionais, setor privado e à sociedade civil.

Ele lembrou que um Plano de Resposta às Inundações do Paquistão já foi lançado. O documento foi revisado e agora são pedidos US$ 816 milhões, um aumento de US$ 656 milhões em relação ao apelo inicial, para responder as necessidades mais urgentes até maio próximo.

Entretanto, o secretário-geral disse que “isso não é nada em comparação com o que é necessário em todas as frentes, incluindo alimentos, água, saneamento e apoio à saúde”.

Emissões globais devem diminuir em 45% até 2030 para evitar a catástrofe climática
WMO/Leonor Hernandez
Emissões globais devem diminuir em 45% até 2030 para evitar a catástrofe climática

Responsabilidade do G20

Guterres ressaltou que a questão central continua sendo a crise climática, lembrando que 80% das emissões que impulsionam esse tipo de destruição são dos países do G20.

À medida que se aproxima a Conferência do Clima da ONU, COP27, em novembro, ele disse que o mundo está retrocedendo com “as emissões de gases de efeito estufa, que estão aumentando junto com as calamidades climáticas”.

Ele enfatizou que a COP 27 deve ser o lugar para reverter essas tendências, tomar ações sérias sobre perdas e danos e para um financiamento de adaptação e resiliência.

Segundo ele, os países mais ricos têm a responsabilidade moral de ajudar lugares como o Paquistão a se recuperar, adaptar e construir resiliência a desastres sobrecarregados pela crise climática.

Guterres e o primeiro-ministro Shehbaz Sharif com Perwin, um bebê nascido em Usta Muhammad, Baluchistão. Com apenas algumas semanas de vida, Perwin e sua mãe foram deslocados pelas enchentes devastadoras que atingiram o Paquistão
ONU/Eskinder Debebe
Guterres e o primeiro-ministro Shehbaz Sharif com Perwin, um bebê nascido em Usta Muhammad, Baluchistão. Com apenas algumas semanas de vida, Perwin e sua mãe foram deslocados pelas enchentes devastadoras que atingiram o Paquistão

Teste decisivo de solidariedade

Na sessão, o presidente da Assembleia Geral da ONU, Csaba Korosi, destacou a importância do tempo. Para ele, o preço que se paga pelos atrasos aumentam a cada dia. E acrescentou que hoje o mundo enfrenta um “teste decisivo de solidariedade” sobre como os Estados-membros reagem à situação do Paquistão.

Em Genebra, a Agência de Refugiados da ONU, Acnur, informou que espera ajudar mais de 650 mil refugiados e membros de comunidades anfitriãs afetadas pelas inundações do Paquistão.

Também nesta sexta-feira, o porta-voz da agência, Matthew Saltmarsh, disse a jornalistas em Genebra que o país enfrenta “um desafio colossal” para responder ao desastre climático.

Ele afirmou que é necessário mais apoio “para o país e seu povo, que generosamente acolheram refugiados afegãos por mais de quatro décadas”.

O Acnur busca fundos adicionais para atender às necessidades imediatas e auxiliar nos processos de recuperação precoce.