Cinco lições da pandemia sobre como inserir gênero na resposta a crises
BR

24 junho 2022

A Covid-19 aprofundou o trio de crises correlatas que ameaçam mulheres e meninas no mundo; altas taxas de violência de gênero, grandes perdas de emprego e um aumento incontrolado de cuidados não pagos.

Pelo menos sete em 10 mulheres afirmam que sofrer abusos de um parceiro íntimo está cada vez mais comum, desde o início da pandemia.

Existem 19,7 milhões a menos de trabalhos pagos em todo o globo para as mulheres, comparados a 10,2 milhões a menos que para os homens.

Uma pesquisa realizada em 16 países mostra que as mulheres se dedicaram 29% a mais que os homens ao cuidado com as crianças, semanalmente, em 2020.

Estes riscos, associados a desastres climáticos mais frequentes e ao conflito geopolítico estão revertendo ganhos na igualdade de gênero, que foram conquistados a duras penas.

Para evitar um retrocesso e assegurar um futuro mais paritário será preciso mais ação de governos. Com base num bando de dados global de quase 5 mil medidas de resposta a Covid-19, a ONU Mulheres e o Programa da ONU para o Desenvolvimento, Pnud, lançaram um novo relatório. As entrevistas foram realizadas em 226 países e territórios.

O documento lista prioridades para colocar a questão do gênero no centro da recuperação e das preparações para enfrentar futuras crises.

Para ambas as agências da ONU, existem cinco lições que não podem ser ignoradas.

Veja aqui as cinco lições que não podemos ignorar:

Ativistas participam de marcha contra a violência de gênero no Equador
© UN Women/Johis Alarcon
Ativistas participam de marcha contra a violência de gênero no Equador

 

1. Apoie movimentos feministas e organizações sobre direitos das mulheres

Os movimentos feministas e as organizações de mulheres desempenham papéis importantes como defensores, fiscais e provedores de serviços durante crises de todos os tipos.

No primeiro ano da pandemia, e apesar das restrições dos governos, as mulheres organizaram mais de 7 mil manifestações em 139 países e territórios. Pelo menos um terço dessas demonstrações exigiam ações contra a violência de gênero.

Os alertas soados pelas feministas sobre a “pandemia paralela” da violência contra mulheres e meninas se transformou em resultados concretos de políticas. O estudo das agências da ONU concluiu que países com movimentos feministas mais fortes antes da pandemia adotaram, em média, três medidas a mais de resposta durante a violência que aqueles onde os movimentos de mulheres eram fracos, independentemente da renda da nação em questão.

Nas Ilhas Fiji, por exemplo, ativistas de organizações de mulheres passaram décadas trabalhando para levar serviços aos sobreviventes, advogando por melhores legislações e por maior sensibilidade de policiais e outros atores. Tudo isso deu a base para uma das respostas mais abrangentes da violência contra mulheres e meninas que qualquer outros países durante a pandemia.

Apoiar os movimentos feministas é fundamental para assegurar que as vozes das mulheres serão ouvidas, e que suas necessidades serão atendidas durante e após a pandemia.

 

Mulher segura criança em Vijaynagar, na Índia.
© UNICEF/Prashanth Vishwanathan
Mulher segura criança em Vijaynagar, na Índia.

2.Aumente a representação das mulheres e sua liderança

Processos democráticos têm gerado defensores de igualdade de gênero e outros atores progressistas com entradas para formar respostas nacionais a pandemia. O relatório mostra que qualquer que seja a renda de um país, aquelas nações com democracias mais fortes e com maior representação de mulheres nos Parlamentos adotaram um número maior de medidas que levaram em conta a questão do gênero, que em nações em esses recursos.

Embora poucos países tenham tomado providências sobre o trabalho não pago de cuidados de pessoas da família, todas as nações com uma maior parte de mulheres em parlamentos tiveram, em média, uma medida a mais que os países com baixa participação de políticas, independentemente do valor do Produto Interno Bruto, PIB.

O México alcançou a paridade de gênero em ambas as casas do Parlamento em 2018. Em dois anos, a Câmara de Deputados aprovou uma iniciativa promovida por parlamentares feministas que tornava o cuidado um direito constitucional e criava o Sistema Nacional de Cuidado (a iniciativa ainda tem que ser ratificada pelo Senado).

Mesmo assim, as mulheres foram largamente excluídas de forças-tarefas de emergência durante a pandemia. Em 130 países e territórios, apenas 24% da força de Covid 19 eram mulheres. O progresso significativo sobre igualdade de gênero dependerá do aumento de representação das mulheres em espaços de decisão, tanto em tempos de crise como em outros momentos.

 

Mulheres participantes de um programa de subsistência de segurança alimentar selecionam berinjelas recém-colhidas em Cox's Bazar, em Bangladesh.
© WFP/Sayed Asif Mahmud
Mulheres participantes de um programa de subsistência de segurança alimentar selecionam berinjelas recém-colhidas em Cox's Bazar, em Bangladesh.

3. Investir agora para aumentar a resiliência a futuros choques

Uma resposta bem-sucedida começa antes de uma crise, jamais depois.

Para enfrentar de forma eficiente a emergência de Covid-19, a existência de uma infraestrutura foi fundamental. Países como serviços públicos robustos e com sistemas de proteção social baseada em gênero puderam contar com estas estruturas para levar o apoio de forma mais rápida e efetiva.

Em grande parte, esta é uma questão de recursos. Desde mitigar impactos econômicos até apoiar sobreviventes da violência, muitos países n Norte Global conseguiram adaptar os sistemas existentes ao contexto da pandemia. Outros países improvisaram os variados graus de sucesso. Nações de renda baixa na África e na Ásia, por exemplo, quase sempre sofreram para responder a crise devido a restrições fiscais.

Mas apesar dessas barreiras, pelo menos 15 países incluindo Brasil, Bangladesh e Libéria aumentaram programas de proteção sociais a trabalhadores informais com provisões especiais para mulheres na economia informal.

Mas a ameaça da austeridade sufocando o progresso prossegue. Investimentos em larga escala em níveis nacional e global serão críticos para apoiar a recuperação e construir a resiliência para o futuro.

Sobrevivente de violência doméstica com seu bebê.
Foto: UNDP.
Sobrevivente de violência doméstica com seu bebê.

 

4.Incentivar tecnologias digitais para igualdade de gênero

Num mundo cada vez mais online, as ferramentas digitais concentram o grande potencial para ativistas e governos. Durante a Covid-19, tais tecnologias sustentaram o ativismo feministas na internet ao mesmo tempo em que facilitavam polícias inovadores e um rápido apoio, alcançando grupos de mulheres geralmente deixadas para trás em “tempos normais”.

Mais de 100 países incluindo Japão, Sri Lanka e Uganda utilizaram ferramentas digitais para adaptar linhas de telefone e apoio psicossocial a sobreviventes de violência. Várias nações também conseguiram aumentar a cobertura e acelerar medidas de proteção social por causa das tecnologias digitais. Em Togo, por exemplo, um programa de transferência digital de dinheiro para trabalhadores informais alcançou 30 mil beneficiados em apenas dois dias após o lançamento. Até 2021, as mulheres totalizavam 63% dos mais de 800 recipientes do programa.

Da mesma forma, a persistência dos fossos de gênero no acesso à infraestrutura financeira e digital continuam a excluir as mulheres, especialmente aquelas de grupos marginalizados. E acabar com essas diferenças, no acesso digital, será fundamental para assegurar que as mulheres não serão deixadas para trás durante crises financeiras.

Mulheres e crianças deslocadas no nordeste da Nigéria
© Ocha/Christina Powell
Mulheres e crianças deslocadas no nordeste da Nigéria

 

5. Fortalecer os dados e as provas sobre a questão do gênero durante e após crises

Dados em tempo real foram críticos para construir as medidas que consideram o gênero e para rastrear o que realmente funcionou nas respostas dos governos.

A pandemia acelerou inovações na coleta de dados, como o uso pela ONU Mulheres de fontes não tradicionais de dados, que foram viabilizadas pelas parcerias com governos, operadores de telefonia celular e pelas empresas de pesquisa de mercado para conduzir avaliações rápidas sobre gênero.

Os dados obtidos através dessas avaliações são usados para defender a necessidade de mais recursos para apoiar as mulheres e meninas na Geórgia, na Indonésia e na Ucrânia.

Os planos de recuperação da crise que respondam efetivamente as necessidades de mulheres e meninas dependem da habilidade dos governos para identificar quais são as demandas. Expandir a coleta e uso de dados abrangentes sobre gênero tem de ser uma prioridade na pressão para se alcançar políticas e estruturas paritárias.

 

 

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