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Conselho de Segurança discute aumento de casos de violência sexual em conflito BR

Uma pintura de um artista iraquiano retrata uma mulher com olhos arregalados de medo e lágrimas, enquanto uma grande mão cobre sua boca, contra um fundo azul escuro.
Reprodução Reprodução de obra de um artista iraquiano da exposição Violência Sexual em Conflito na ONU

Conselho de Segurança discute aumento de casos de violência sexual em conflito

Direitos humanos

Enviada do secretário-geral diz que não se pode esperar que sobreviventes denunciem os crimes; Prêmio Nobel da Paz Nadia Murad pede justiça para as vítimas; cerca de 2,8 mil mulheres e crianças vivem em cativeiro e escravidão sexual depois dos atos do Isil cometidos em 2014.

O Conselho de Segurança realizou uma sessão nesta quarta-feira sobre o tema Mulheres, Paz e Segurança. O foco é a prestação de contas como meio de prevenção pelo fim dos ciclos de violência sexual em conflito.  O mundo fechou o ano passado com 800 notificações a mais que em 2020. 

A sessão analisou o relatório da ONU que lista a República Democrática do Congo no topo de crimes deste tipo em 2021. Foram 1.016 casos registrados do total de  3.293 incidentes em nível global. E 97% dessas vítimas são mulheres e meninas.

Ambiente  

Os participantes debateram a necessidade de se promover um ambiente protetor que “iniba a violência sexual em primeira instância e permita que relatos e respostas sejam processados de forma segura”.

A representante especial do secretário-geral sobre Violência Sexual em Conflitos, Pramila Patten, enumerou formas de desigualdade baseadas em questões de etnia, filiação política, idade, deficiência, orientação sexual identidade de gênero, rendimento e situação migratória que aumentam o risco das vítimas.

A Sra. Pramila Patten, Representante Especial do Secretário-Geral sobre Violência Sexual em Conflitos, discursa em um pódio durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU em Nova York.
Foto ONU/Manuel Elias Representante especial do secretário-geral da ONU sobre Violência Sexual em Conflito, Pramila Patten.

 

Patten conta que se juntam a estes fatores “os históricos desequilíbrios  estruturais e sistêmicos de oportunidades”. Para ela, a real escala desses incidentes é desconhecida com vítimas silenciadas por trauma, dor, desespero aliados ao estigma e à insegurança.

Ela destacou a relação entre o silêncio individual e o silêncio oficial, que vem das autoridades: “não se pode esperar que os sobreviventes denunciem o que o próprio Estado nega”.

Vergonha

Patten lembra que quando os autores ficam impunes, os sobreviventes andam com medo, “carregando o fardo do ostracismo e da vergonha”. Ao pedir que se melhore o ambiente de proteção, ela disse que a medida permita dar uma resposta segura e eficiente.

Ela ressaltou que vítimas de países como Ucrânia, Afeganistão, Mianmar ou Etiópia, na região de Tigray, requerem mais do que resoluções sobre mulher paz e segurança.

Sobre a pandemia, o informe destaca que a crise “silenciou as armas, mas no período foi observado um “aumento da militarização, incluindo uma epidemia de golpes, que atrasou os direitos das mulheres.”

Jornalistas

O relatório menciona novas crises se multiplicaram, num cenário de guerras entrincheiradas que avançam, exacerbando o desafio de contrair ou em alguns casos “encerrar o espaço cívico, manifestado em represálias crescentes contra mulheres defensoras de direitos humanos, ativistas e jornalistas.”

Uma mulher está sentada em uma mesa de exame médico com as mãos entrelaçadas.
OMS Mundo fechou o ano passado com mais 800 casos de violência sexual em conflito

 

Para Patten, a falha em reconhecer e investigar atrocidades do passado é o sinal mais seguro de que as violações seguirão.

Em nível global, o relatório aponta que a ilegalidade e a impunidade equivalem a uma espécie de “licença para estuprar”. A recomendação é que seja reforçada a ação penal.

Pramila Patten destacou que enquanto a impunidade normaliza a violência, a justiça reforça as normas globais.

Nadia Murad

A ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Nadia Murad, ativista e sobrevivente das ações do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, Isil ou Daesh, na comunidade yazidi. Ela disse que as vítimas esperam que o Conselho aja com a mesma coragem demonstrada por elas “que não requerem piedade, mas justiça”.

 

Nadia Murad, Embaixadora da Boa Vontade do Unodc , ouve atentamente durante um painel de discussão sobre sua luta contra o Estado Islâmico em novembro de 2017.
Foto: ONU/Manuel Elias Prêmio Nobel da Paz 2018, Nadia Murad pediu justiça para as vítimas de violência sexual em conflitos no mundo

 

Para Nadia Murad, a prestação de contas é essencial para a prevenção, e tem que incluir serviços de apoio a sobreviventes e a promoção da equidade de gênero em nível global.

A ativista também mencionou a situação da Ucrânia dizendo que “sempre que irrompe um conflito armado em qualquer lugar do mundo, seguem-se o estupro e a brutalidade”.

Para Murad, a violência sexual não é um efeito colateral do conflito, mas “tática de guerra tão antiga quanto o tempo” e deve estar clara para todos.”.  O grupo capturou mais de 6 mil mulheres e crianças yazidis, vendeu e estuprou algumas delas e até 2,8 mil vítimas  ainda vivem em cativeiro e escravidão sexual nas mãos do grupo.

 

Três jovens estão sentados em bancos de madeira dentro de um prédio em Yambio, Sudão do Sul.
ONU/Nektarios Markogiannis Participantes debateram a necessidade de se promover um ambiente protetor