Nova pandemia pode ser causada por superbactérias em águas sem tratamento, alerta Pnuma
BR

10 abril 2022

Agência da ONU para Meio Ambiente informa que população global consumiu 34,8 bilhões de antibióticos, por dia, em 2015; 80% de medicamentos foram jogados na natureza; exposição humana pode ser agravada por eventos climáticos severos e aumento dos lençóis freáticos.

A exposição desavisada de pessoas à água contaminada com antibióticos pode multiplicar patógenos resistentes a medicamentos e potencialmente gerar uma outra pandemia.

Um relatório do Programa Mundial do Meio Ambiente, Pnuma, chama a atenção global sobre a ameaça da resistência antimicrobiana. Isso ocorre quando antibióticos são jogados no meio ambiente através de banheiros ou defecação a céu aberto.

No Iêmen, pessoas enfrentam escassez de água à medida que poços secam e fontes são contaminadas
UNDP Yemen
No Iêmen, pessoas enfrentam escassez de água à medida que poços secam e fontes são contaminadas

Substâncias ativas

O relatório estima que somente em 2015 foram consumidas 34,8 bilhões de doses diárias de antibióticos.

Até 90% desses medicamentos foram parar no meio ambiente como substâncias ativas.

Num mundo com 80% das águas residuais não tratadas, o perigo é superbactérias possam escapar da medicina moderna e desencadear uma pandemia.

Mesmo nos países desenvolvidos, as instalações de tratamento são muitas vezes incapazes de filtrar bactérias perigosas.

Saneamento

O relatório menciona cinco grandes fontes do tipo de micro-organismos.  A primeira é o saneamento precário, os esgotos e águas residuais. A situação é agravada pela defecação a céu aberto e pelo uso excessivo de antibióticos para tratar a diarreia.

As outras razões de preocupação incluem efluentes da fabricação de produtos farmacêuticos, resíduos de estabelecimentos de saúde, uso de antimicrobianos e o esterco na produção agrícola

Por último, estão os resíduos gerados pelo processamento de animais.

Há ainda uma relação desta ameaça com as mudanças climáticas: a alta de temperaturas é associada a infecções resistentes a antimicrobianos.

OMS: situação ilustra como o mundo está ficando sem opções para combater as chamadas super bactérias.
Banco Mundial/Simone D. McCourtie
OMS: situação ilustra como o mundo está ficando sem opções para combater as chamadas super bactérias.

Disseminação

O relatório fala em várias doenças sensíveis ao clima, às alterações nas condições ambientais e na temperatura.

A situação pode levar a um aumento da propagação de enfermidades bacterianas, virais, parasitárias, fúngicas e transmitidas por vetores.

Em 2019, as infecções resistentes a antibióticos causaram a morte de quase 5 milhões de pessoas.

O informe alerta que, sem ação imediata, essas infecções podem levar causar ao dobro desse total, anualmente, até 2050.

Efeito

Pelo relatório, uma eventual pandemia “com efeito catastrófico” pode ser causada pelo desenvolvimento e alastramento da resistência antimicrobiana.

O principal propósito dos antimicrobianos é matar ou inibir o crescimento de patógenos. São antibióticos, fungicidas, agentes antivirais, parasiticidas e alguns desinfetantes, antissépticos e produtos naturais.

Em caso de resistência antimicrobiana, bactérias, vírus, parasitas e fungos evoluem e ficam imunes a tais medicamentos. Quanto mais micróbios expostos a produtos farmacêuticos, maior é a probabilidade de adaptação a eles.

Para a chefe da Divisão Marinha e de Água Doce do Pnuma, Letícia Carvalho, os antibióticos e outras drogas salvam vidas, mas seu destino ambiental no curso das águas é importante.

É preciso cautela no uso do tipo de remédios “para evitar a resistência antimicrobiana que representa riscos sociais, ambientais e financeiros para empresas e a sociedade”.

A OMS lembra que, em 2016, cerca de 10,4 milhões de pessoas foram infectadas com a bactéria e 1,8 milhão perderam a vida.
Fundo Global/John Rae
A OMS lembra que, em 2016, cerca de 10,4 milhões de pessoas foram infectadas com a bactéria e 1,8 milhão perderam a vida.

Poluição

O relatório recomenda um tratamento aprimorado de águas residuais e uso mais direcionado de antibióticos para travar a ameaça global. Muitas vezes, esses medicamentos são usados sem necessidade.

Outras medidas incluem melhorar os dados e o monitoramento dos remédios antimicrobianos e a forma como eles são descartados, a governação ambiental e os planos de ação para limitar a liberação de antimicrobianos.

Níveis elevados de patógenos resistentes a antibióticos foram encontrados em países de baixa e média rendas. O fenômeno foi associado a áreas com infraestrutura deficiente de águas residuais e de gerenciamento de resíduos, além da fabricação de produtos farmacêuticos.

Eventos climáticos severos e o aumento dos lençóis freáticos podem fazer com que as águas residuais e os esgotos sobrecarreguem as estações de tratamento. O tipo de episódios pode permitir que esgotos com micróbios resistentes a antimicrobianos contaminem as comunidades vizinhas.

O relatório ressalta que mesmo com a diminuição das atividades na pandemia, a crise da Covid-19 é um alerta para que melhore a compreensão e a atuação em todas as áreas de preparação e prevenção de doenças infecciosas, incluindo suas dimensões ambientais.

 

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