90% da população da Síria está vivendo na pobreza
BR

9 março 2022

Relatório da Comissão de Inquérito da ONU mostra que níveis de sofrimento atingiram novo patamar com escalada da violência, colapso da economia e desastre humanitário; conflito começou há 11 anos e crise na Ucrânia criará impactos para a segurança alimentar.  

O nível de sofrimento da população da Síria atingiu um novo patamar, com a escalada recente da violência, o colapso da economia e a piora da crise humanitária. Esta é a conclusão do relatório da Comissão de Inquérito da ONU sobre a Síria, divulgado esta quarta-feira.  

 

Após 11 anos de conflito no país, cerca de 90% da população está vivendo na pobreza. A publicação destaca que a “Síria está indo para um novo abismo, com mais bombardeios e ações militares e também mais abduções e assassinatos em zonas de conflito”.  

 

Insegurança alimentar  

Presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, Paulo Sérgio Pinheiro.
ONU/Jean-Marc Ferré
Presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, Paulo Sérgio Pinheiro.

 

O presidente da Comissão de Inquérito, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, explicou, em entrevista à ONU News, que o conflito na Ucrânia terá impactos para os sírios. 

 

“A questão da Ucrânia é realmente muito preocupante porquê o trigo é importado diretamente da Ucrânia. O outro fator são as 7 milhões de pessoas internamente deslocadas. Só na região noroeste, temos mais de 2 milhões de deslocados internos, sendo que metade vive em campos, em uma situação muito precária.” 

 

A rotina de mulheres, crianças e homens continua ainda mais difícil e perigosa. O documento afirma que 12 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar e um número sem precedentes de 14,6 milhões de civis dependem de assistência humanitária.  

 

A violência para a obtenção de dinheiro aumentou ainda mais com a “situação econômica desesperadora”. A Comissão de Inquérito nota sequestros para pedidos de resgate, extorsões e apreensão de propriedades que são confiscadas ou de plantaçõs, para vender as colheitas.  

 

O documento atribui essas violações a forças do governo sírio e grupos armados, tentando controlar territórios e tendo como alvo as minorias.  

 

Pior seca 

Bebê de um mês com sua família em Adra, após escaparem da violência em Ghouta, Síria.
Foto: © UNICEF/Omar Sanadiki
Bebê de um mês com sua família em Adra, após escaparem da violência em Ghouta, Síria.

 

No campo climático, a Síria está enfrentando a pior seca em décadas. Com a inflação a 140%, o preço das commodities mais básicas já está fora de controle. 

 

Paulo Sérgio Pinheiro declarou ainda que possíveis sanções “poderão causar o impedimento da ajuda humanitária, com impactos arrasadores para todos, excepto para as elites econômicas e políticas”.  

 

O relatório aborda também a discriminação baseada em gênero e a violência contra meninas e mulheres. Muitas deslocadas internas estão sem documentos e menores são forçadas a se casarem, enquanto meninos são enviados para o trabalho infantil ou recrutados para o conflito.  

 

Civis assassinados em acampamento 

Crianças em acampamento para deslocados na Síria.
Foto: © UNOCHA
Crianças em acampamento para deslocados na Síria.

 

O documento nota ainda aumento dos bombardeios entre Exército Nacional Sírio, que tem o apoio turco, e Forças Democráticas Sírias no noroeste do país. Na região noroeste, em Idlib e Alepo, áreas residenciais são alvo de ataques indiscriminados pelas forças pró-governamentais.  

 

Outro integrante da Comissão de Inquérito, Hanny Megally, declarou que “uma noiva foi assassinada no casamento, junto com suas quatro irmãs; um campo de deslocados para viúvas e suas crianças também foi alvo de ataque e menores de idade sofrem com a violência quando caminham para a escola.  

 

A Comissão de Inquérito também recomenda aos Estados Unidos para realizarem uma investigação independente e imparcial sobre incidentes envolvendo civis durante ações da aliança liderada pelos norte-americanos entre 2018 e 2019. 

 

Sobre os acampamentos de Al Hol e Al Roj, noroeste do país, o relatório menciona condições cruéis e desumanas dos locais que abrigam 60 mil pessoas, sendo 40 mil crianças.  

 

As tensões nos acampamentos são cada vez maiores, incluindo atos como assassinatos e violência em larga escala. Somente no ano passado, mais de 90 pessoas foram mortas em Al Hol.  

 

 

 

 

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