Guterres espera que todos os países apaguem “incêndio global” em cinco frentes
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21 janeiro 2022

Secretário-geral da ONU apresenta prioridades para 2022 soando “cinco alarmes”: crise financeira global, pandemia de Covid-19, ação climática, falta de leis no espaço cibernético, paz e segurança; maior número de conflitos no mundo desde 1945.  

O secretário-geral das Nações Unidas apresentou nesta sexta-feira, em Nova Iorque, a sua lista de prioridades para 2022. Falando aos Estados-membros na Assembleia Geral, António Guterres mencionou vários desafios atuais, como pandemia de Covid-19, alta da inflação, crise climática e aumento das desigualdades. 

O chefe da ONU afirmou que no centro de todos esses problemas, estão “falhas da governança global”. Ele declarou que muitas estruturas multilaterais estão desatualizadas e não servem mais o seu propósito.  

Cinco alarmes  

António Guterres declarou que começa o ano soando cinco alarmes: Covid-19, situação financeira global, ação climática, falta de leis no espaço cibernético, paz e segurança.  

Segundo ele, para enfrentar este “incêndio global” de cinco frentes, é preciso a mobilização completa de todos os países. O secretário-geral indicou como o mundo deve agir para reverter a situação. 

Primeiro, Guterres destacou o que deve ser feito para ganhar a batalha da Covid-19, alertando que uma próxima variante poderá ser ainda pior. Por isso ressaltou que acabar com a circulação do vírus tem de estar no topo da agenda de todos os governos.  

O secretário-geral criticou os países que impõe restrições “desproporcionais que prejudicam nações em desenvolvimento”, no que chamou de “apartheid de viagens”. 

Senso comum sobre vacinas  

Produção de vacina contra a Covid-19 na Índia.
Foto: © UNICEF/ Dhiraj Singh
Produção de vacina contra a Covid-19 na Índia.

António Guterres pediu que as ações sejam baseadas “na ciência e no senso comum” e lembrou que a “ciência é clara: as vacinas funcionam e salvam vidas”. Ele revelou que as farmacêuticas estão produzindo 1,5 bilhão de doses por mês, mas a distribuição continua desigual de forma “escandalosa”. O chefe da ONU pediu para que todos os países e fabricantes priorizem a distribuição via mecanismo Covax e criem condições para a produção local de testes, vacinas e tratamentos contra o coronavírus.  

O segundo “incêndio” que o secretário-geral quer que seja apagado está ligado à crise financeira global. Segundo ele, o sistema está “moralmente falido”, pois “favorece os ricos e pune os fracos”. 

Guterres citou como exemplo a África Subsaariana, onde o crescimento econômico per capita nos próximos cinco anos poderá ser 75% menor do que no resto do mundo. O receio é que sem ação imediata, a “inflação recorde e as extorsivas taxas de juros poderão levar a uma onda de inadimplência em 2022”, com péssimas consequências aos mais pobres e vulneráveis.  

O secretário-geral da ONU defende uma reforma do sistema financeiro global, que apoie os países em desenvolvimento por meio de um processo transparente e inclusivo. Ele sugere uma “séria revisão os mecanismos globais de governança financeira”, indo além do Produto Interno Bruto, mas tratando também da vulnerabilidade, do clima e dos riscos de investimentos.  

Emergência contra crise climática  

Refugiados em Minawao, no nordeste dos Camarões, plantam árvores em uma região que foi desmatada devido às mudanças climáticas e à atividade humana
© Acnur/Xavier Bourgois
Refugiados em Minawao, no nordeste dos Camarões, plantam árvores em uma região que foi desmatada devido às mudanças climáticas e à atividade humana

António Guterres pede ainda um sistema de impostos mais justos e combate aos fluxos financeiros ilícitios, que tiram somente da África, todos os anos, US$ 88 bilhões.  

O terceiro ponto do secretário-geral da ONU é que o mundo entre em “modo de emergência contra a crise climática”. Segundo ele, o planeta já foi aquecido a 1,2 grau e as consequências têm sido arrasadoras. Em 2020, por exemplo, eventos extremos do clima obrigaram 30 milhões de pessoas a abandonarem suas casas, ou três vezes mais do que o total de civis deslocados por guerras ou violência.  

António Guterres quer uma redução de 45% nas emissões globais de gases até 2030, para que o mundo possa alcançar a “neutralidade de carbono” até meados do século.  

Porém, o secretário-geral citou estimativas atuais que preveem que as emissões globais aumentarão 14% nesta década. Para ele, isso será uma “catástrofe”  que requer uma “avalanche de ação”.  

O secretário-geral fez um apelo para a criação de coalizões que forneçam apoio financeiro e técnico para países que precisam de assistência. Guterres quer também o reforço das Contribuições Nacionalmente Determinadas, até que todos os países consigam reduzir emissões em 45% nos próximos oito anos. Ele pediu o fim da produção de carvão e o fim do aumento da exploração de gás e petróleo. 

O chefe da ONU afirmou ser o momento para um “investimento sem precedentes em energias renováveis, triplicando para US$ 5 trilhões até 2030”.  

Humanidade no centro da tecnologia  

As novas tecnologias, a chamada quarta revolução industrial é outra ameaça que para Guterres terá impactos muito significativos, “especialmente no mercado de trabalho”.
ITU/D. Procofieff
As novas tecnologias, a chamada quarta revolução industrial é outra ameaça que para Guterres terá impactos muito significativos, “especialmente no mercado de trabalho”.

Segundo Guterres, as crises atuais estão minando os “direitos humanos” e a instabilidade social. No discurso aos Estados-membros, o chefe da ONU destacou que a quarta área de crise é onde praticamente “não existe governança global” exigindo do mundo um “modo de emergência para colocar a humanidade no centro da tecnologia”.  

Ele afirmou que o “crescente caos digital está beneficiando as forças mais destrutivas e negando oportunidades a pessoas comuns”, citando como exemplo países com fraca conexão de internet e um total de 2,9 bilhões de pessoas que não têm acesso à rede e continuam sem a rede.  

Segundo o secretário-geral, informações pessoais estão sendo exploradas para controlar, manipular, violar os direitos humanos e minar as instituições democráticas.  

Para tratar dessas questões, António Guterres está propondo um Pacto Digital Global, como parte da Conferência do Futuro em 2023. A ideia é unir governos, setor privado e sociedade civil, para que concordem com princípios essenciais para a cooperação digital global.  

Fim do extremismo e do racismo  

Protesto em Londres em apoio ao "Black Lives Matter" em junho de 2020
Unsplash/James Eades
Protesto em Londres em apoio ao "Black Lives Matter" em junho de 2020

O quinto ponto do secretário-geral das Nações Unidas é a paz, num momento em que o mundo enfrenta o maior número de conflitos violentos desde 1945. Guterres citou o “retorno de golpes militares e o aumento da impunidade”, além do volume de armas nucleares que ultrapassa 13 mil. O nível é o mais alto em décadas.  

Guterres lamentou também a alta do “populismo, da supremacia branca e de outras formas extremas de racismo e de extremismo, que envenenam a coesão social” e causam um retrocesso nos direitos humanos.  

Ele citou ainda a ameaça constante do terrorismo e lembrou que as forças de paz das Nações Unidas estarão sempre prontas para proteger os civis dos conflitos. A prevenção dos conflitos está “no coração da Nova Agenda para a Paz” proposta pelo chefe da ONU.  

Guterres garantiu que não medirá esforços para mobilizar a comunidade internacional para o alcance da paz. Ele mencionou suas propostas para vários países, como o Afeganistão, onde é preciso “injetar dinheiro para evitar um colapso econômico e garantir que os direitos humanos, especialmente de meninas e mulheres” sejam respeitados.  

Ele afirmou que a ONU continuará perseverando nos esforços para prevenir conflitos, proteger civis e consolidar a paz, seja no Iraque, em Moçambique, na Somália ou na Venezuela.  

Por fim, o secretário-geral das Nações Unidas afirmou que as respostas que forem dadas às cinco emergências por ele mencionadas “determinarão o futuro das pessoas e do planeta pelas próximas décadas”. António Guterres disse estar confiante de que 2022 possa ser o ano “para um caminho novo, mais esperançoso e igualitário”.  

 

 

 

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