Sem comida nem financiamento, entrega de alimentos Etiópia está quase parando
BR

14 janeiro 2022

Diretor-regional do PMA fala em situação de escolha sobre quem recebe comida ou continua com fome; em apenas quatro meses, mais 6 milhões de pessoas precisaram começar a receber assistência humanitária; ataques aéreos já mataram pelo menos 108 civis este ano no país, alerta o Escritório da ONU para os Direitos Humanos.  

A escalada do conflito no norte da Etiópia tem impedido, há um mês, que os comboios do Programa Mundial de Alimentos, PMA, cheguem a Mekelle.  

Os estoques de comida fortificada para crianças desnutridas estão quase acabando e os últimos estoques de cereais, leguminosas e óleo serão distribuídos na próxima semana na capital de Tigray, a nordeste.   

Sem comida nem combustível  

Criança é avaliada em local de distribuição de comida em Tigray, norte da Etiópia.
Foto: © WFP/Claire Nevill
Criança é avaliada em local de distribuição de comida em Tigray, norte da Etiópia.

O diretor regional do PMA para o Leste da África, Michael Dunford, declarou, nesta sexta-feira, que a agência está “precisando escolher quem fica com fome para evitar que uma outra pessoa vire faminta”.  

Ele fez um apelo a todos os lados em conflito, para garantia de corredores humanitários seguros, por todas as rotas, pelo norte da Etiópia. Os suprimentos humanitários não estão sendo enviados com a rapidez e o volume necessários. Sem comida nem combustível, o PMA conseguiu apenas alcançar 20% da população necessitada em Tigray. 

Dundford acrescentou que o norte da Etiópia está “à beira de um desastre humanitário”. A região enfrenta conflito há mais de um ano e 9,4 milhões de pessoas precisam receber assistência alimentar. Há quatro meses, eram 2,7 milhões de civis nesta situação. 

O PMA explica que o grande aumento está ligado ao fato da distribuição de comida estar em um dos níveis mais baixos de sempre.  

Financiamento urgente  

A agência pretende distribuir alimentos para 2,1 milhões de pessoas em Tigray. Destas,  650 mil vivem em Amhara e 534 mil em Afar. Mas se não receber fundos, o PMA poderá ficar sem comida e suprimentos de nutrição para milhões de pessoas no próximo mês e por isso requer US$ 337 milhões de forma emergencial.  

Em nota separada, o Escritório de Direitos Humanos da ONU confirmou que continua recebendo relatos de destruição e bombardeios na região de Tigray. Segundo a porta-voz da alta comissária para Direitos Humanos, ataques aéreos já mataram pelo menos 108 pessoas e deixaram 75 civis feridos desde que o ano começou.  

Trabalhadores mortos por drone  

Em Genebra, Liz Throssell explicou, nesta sexta-feira, que os ataques teriam sido realizados pela força aérea da Etiópia. Na quarta-feira, por exemplo, um senhor de 72 anos morreu, vítima de uma ofensiva aérea.  

No dia anterior, um instituto de treinamento vocacional foi atingido, resultando na morte de três homens e deixando 21 pessoas feridas. A maioria delas eram mulheres.  

A semana já havia começado com violência em Tigray: no dia 10, 17 civis morreram e 21 ficaram feridos após um ataque áereo com um drone atingir um moinho de farinha, onde os trabalhadores estavam moendo os grãos.  

Possíveis crimes de guerra  

Mais de 9,4 milhões precisam de assistência alimentar no norte da Etiópia
Ocha//Saviano Abreu
Mais de 9,4 milhões precisam de assistência alimentar no norte da Etiópia

A porta-voz do Escritório de Direitos Humanos da ONU revela que o ataque aéreo mais fatal até agora foi o que atingiu o acampamento para deslocados internos de Dedebit, matando 59 e ferindo 27 pessoas.  

Liz Throssell fez um apelo para que as autoridades da Etiópia e aliados garantam a proteção dos civis, segundo a lei internacional. A porta-voz lembra que os lados em conflito devem fazer todo o possível para verificar que os alvos de ataques são objetivos militares e suspender as operações quando ficar aparente que o alvo não é militar.  

Throssell destaca que não respeitar os princípios da distinção e da proporcionalidade podem ser considerados crimes de guerra. O Escritório de Direitos Humanos também está preocupado com detenções arbitrárias em meio ao estado de emergência na Etiópia.  

Apesar de várias pessoas do alto-escalão terem sido libertadas recentemente, Liz Throssell explica que existem centenas de pessoas detidas em péssimas condições e sem data marcada para irem à tribunal.  

 

 

 

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