Madagascar: seca severa poderá causar a primeira situação de fome por mudança climática
BR

22 outubro 2021

Mais de 1 milhão de pessoas no sul do país africano estão com dificuldades para ter o suficiente para comer; Programa Mundial de Alimentos destaca que famílias de áreas rurais estão tomando medidas desesperadas para sobreviver, comendo gafanhotos e folhas de cacto. 

Mais de 1 milhão de pessoas no sul do Madagascar estão batalhando para conseguir o suficiente para comer. O país africano poderá ter a primeira situação de fome causada pela mudança climática, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos, PMA. 

O Madagascar é a quarta maior ilha do mundo e tem um ecossistema único, com plantas e animais que não são encontrados em mais nenhuma outra parte do planeta. Geralmente, a temporada de secas vai de maio a outubro, e a de chuvas começa em novembro.  

Rotina interrompida  

Secas em Madagáscar colocam o país africano entre aqueles onde há mais fome.
Foto: © UNICEF/Safidy Andriananten
Secas em Madagáscar colocam o país africano entre aqueles onde há mais fome.

Mas a mudança climática vem alterando este ciclo, afetando pequenos agricultores e seus vizinhos. Quem confirma é a porta-voz do PMA na capital do país, Antananarivo.  

Alice Rahmoun foi entrevistada pela ONU News e declarou: “É claro que há menos chuva, então quando acontecem as primeiras chuvas, eles ficam com esperança e plantam algumas sementes. Mas um pouquinho de chuva não é uma temporada de chuvas apropriada.” 

Segundo a representante do PMA, é possível afirmar que “os impactos da mudança climática são cada vez mais fortes...as colheitas falham constantemente, e as pessoas não têm o que colher nem nada para renovar seus estoques de alimentos.” 

Impactos que variam  

Uma mãe espera receber comida para seu filho em área do sul de Madagascar afetada pela seca.
PMA/Fenoarisoa Ralaiharinony
Uma mãe espera receber comida para seu filho em área do sul de Madagascar afetada pela seca.

Alice Rahmoun esteve recentemente no Madagascar, onde PMA e parceiros estão apoiando centenas de milhares de pessoas. Ela explica que o impacto da seca varia de lugar para lugar. Enquanto algumas comunidades não tem uma temporada apropriada de chuvas há 3 anos, a situação é bem pior em zonas a 100 km de distância.  

A especialista lembra de ter visto vilarejos com campos completamente secos e tomateiros “totalmente amarelados ou até mesmo marrons” devido à falta de água.  

Sobrevivendo à base de gafanhotos  

Praga dos gafanhotos do deserto continuará aumentando o risco de danos às pastagens e às plantações
© FAO/Haji Dirir
Praga dos gafanhotos do deserto continuará aumentando o risco de danos às pastagens e às plantações

“Em algumas áreas as pessoas até conseguem plantar alguma coisa, mas não é nada fácil, então estão tentando plantar batata doce. Mas em outras regiões, absolutamente nada está crescendo agora, então as pessoas estão comendo gafanhotos para sobreviver, comendo frutas e folhas de cactos”, afirma Rahmoun.  

A representante do PMA explica que as folhas de cacto geralmente servem para o gado e não são para consumo humano. A situação é ainda pior porque segundo ela, “até os cactos estão morrendo com a seca”.  

Famílias não estão aguentando  

O peso desta situação para as famílias é muito perturbador. Alice Rahmoun declara que “as pessoas já começaram a desenvolver mecanismos para sobreviver. Estão vendendo o próprio gado para ter dinheiro para comprar comida, sendo que deveriam poder obter comida da sua própria produção agrícola. 

Terrenos e até casas estão sendo vendidas. Há famílias que tiraram seus filhos das escolas, numa “estratégia para conseguir atividades rentáveis onde as crianças possam estar envolvidas”, explica a especialista do PMA.  

Fornecimento de assistência vital  

Esta mulher em Madagascar caminha até 14 km por dia para encontrar água potável.
Unicef/Safidy Andrianantenain
Esta mulher em Madagascar caminha até 14 km por dia para encontrar água potável.

O PMA está colaborando com parceiros humanitários e com o governo do Madagascar para fornecer dois tipos de resposta à crise. Cerca de 700 mil pessoas estão recebendo ajuda alimentar, incluindo suplementos para prevenir a desnutrição. 

“A segunda resposta é mais de longo prazo, com o objetivo de permitir que as comunidades estejam bem preparadas para responder aos choques climáticos”, afirma Rahmoun.  

O PMA auxilia com canais de irrigação, reflorestamento e pequenos seguros para ajudar os agricultores quando perdem uma colheita, por exemplo.  

A agência da ONU também espera apoiar 1 milhão de pessoas até abril e para isso, busca US$ 70 milhões para financiar suas operações. “Estamos também envolvendo mais parceiros para encontrar e financiar soluções para que as comunidades se adaptem aos desafios causados pela mudança climática.” 

COP-26: Priorizar a adaptação  

Daqui a uma semana, os líderes mundiais estarão reunidos em Glasgow, na Escócia, para a COP-26, a Conferência da ONU sobre Mudança Climática. Segundo o secretário-geral António Guterres, esta poderá ser a última chance de “mudar a corrente” para alinhar o planeta.  

A representante do PMA explica que a agência pretende usar a conferência para mudar o foco de resposta à crise para gestão de riscos. Segundo Alice Rahmoun, os países precisam estar preparados para os choques climáticos, e devem agir em conjunto para reduzir os impactos severos às pessoas mais vulneráveis, incluindo os moradores do sul de Madagáscar. 

“A COP-26 é uma oportunidade de pedir aos governos e aos doadores para priorizarem o financiamento relacionado a programas de adaptação climática, e para ajudar os países a controlarem melhor os riscos, até mesmo em Madagascar, pois se nada for feito, a fome aumentará de forma exponencial nos próximos anos devido à mudança climática. E não apenas em Madagascar, mas em outros países”, afirma Alice Rahmoun.  

  

 

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