Entrevista: Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal (Parte 2)

23 junho 2021

Neste Destaque ONU News, acompanhe a segunda parte da entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa. Presidente de Portugal conversou com Eleutério Guevane sobre sua relação e a do país com Angola, Brasil Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Ele também falou sobre a projeção da língua portuguesa no mundo e o pós-pandemia em Portugal. Rebelo de Sousa esteve em Nova Iorque, na semana passada, para participar da cerimônia de eleição de António Guterres para um segundo mandato à frente da ONU, que começará em janeiro de 2022. 

ON: Vamos então fazer esse trajeto para o Sul, a começar mesmo pela relação que tem com países próximos, os lusófonos. Comecemos com o Brasil.

MRS: Uma parte da minha família vive no Brasil. Eu tenho um filho a viver há muito tempo no Brasil, já lá tinha vivido outra vez. Os meus pais viveram no Brasil. O meu avô viveu no Brasil. Eu tenho uma neta brasileira. E os meus netos portugueses viveram no Brasil. Portanto, tenho uma família dividida, mas unida pelo Atlântico Sul. E às vezes que fui ao Brasil são incontáveis desde os anos 60. O Brasil é uma potência, é uma potência. Mas o Brasil tem um papel fundamental no Mercosul. E Portugal tem feito tudo para o entendimento no acordo entre a União Europeia e o Mercosul. E, por outro lado, pensar no Brasil é pensar no peso das comunidades portuguesas que estão ali ao lado nos outros países de língua espanhola, castelhana. Não de língua portuguesa, mas enfim o Brasil tem um relevo, uma importância econômica, social, cultural e política e também diplomática crucial da cooperação.

 

ON: E neste momento de recuperação, como é que esta conexão pode-se fortalecer?

MRS: É uma conexão que nunca rompeu. Nunca rompeu, porque nós temos uma comunidade brasileira fortíssima em Portugal. É uma comunidade portuguesa, com se imagina, fortíssima no Brasil. Portanto, nunca rompeu, esteve sempre em ligação. Houve à certa altura uma interrupção de voos. Houve esse intervalo de voos, que foi terrível. Sofremos imenso de parte a parte, mas foi possível depois restabelecer. E nunca parou a cooperação em todos os níveis. Eu vou ao Brasil no final de julho para inaugurar o reconstruído Museu da Língua Portuguesa que ardeu em São Paulo.

 

ON: O que significará isso para si?

MRS: Isso significa, para mim, que conheci o antigo museu, significa reviver laços familiares e reviver uma sociedade que conheço há 60 anos. Há 60 anos. Portanto, esta é a vantagem: ter uma memória muito longa e muito viva.

 

ON: E para língua?

MRS: A língua é beneficiada. É uma realidade se não tiver essas não é falada da mesma maneira não é escrita da mesma maneira. E é sentida de várias maneiras, embora no essencial, tem um sentido em comum. Isso aplica-se no Brasil, aplica-se em Moçambique ou a Angola. Moçambique é minha segunda pátria. E, no entanto, não tenho lá família. Tenho família em Angola, tenho família no Brasil, mas vivi tão intensamente em Moçambique, noutros tempos, e tenho vários alunos espalhados por essas várias cidades e países irmãos, colegas e amigos. Realmente, Moçambique está sempre no nosso pensamento. E, por exemplo, quando Moçambique consegue sucessos, como aconteceu em termos de uma resolução de problemas que tinham existido durante anos, em termos de integração constitucional e de vivência política, foi uma grande alegria para todos.

 

ON: Mas há o desafio de Cabo Delgado?

MRS: Lá está Portugal. Lá estamos nós. Na sequência de uma cooperação antiga, com 60 portugueses na formação e no apoio às Forças Armadas moçambicanas. 

Secretário-geral da ONU, António Guterres, com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa
ONU News
Secretário-geral da ONU, António Guterres, com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa

 

ON: E quais os próximos passos?

MRS: E mais, Portugal está a liderar o processo da ponte no quadro da União Europeia. Nomeadamente agora durante a presidência portuguesa. Mas antes da presidência portuguesa criando condições para haver uma sensibilidade europeia em termos de apoio a Moçambique no quadro, obviamente, de um relacionamento sempre atento àquilo que é a área em que se insere Moçambique. Não só na vontade soberana de Moçambique, mas depois também aquela do conjunto de Estados e sociedades africanos que têm uma palavra a dizer no quadro da organização que funciona naquela região. E portanto, nesse sentido, Portugal vibra com o que se passa em Moçambique. Vibra desde há anos com o que se passou em Cabo Delgado, e está sempre como costuma dizer o presidente Nyusi, sempre nesta relação frontalidade com Moçambique.Depois vamos para Angola onde vamos ter a cimeira (da Cplp). Tenho família, tenho primos distantes fisicamente. A forma como Portugal esteve desde logo na posse do Presidente João Lourenço. Depois da visita que eu tive a ocasião de fazer e ele teve ocasião de fazer a Portugal: a forma fraternal como nos temos relacionado, angolanos e portugueses.A presença tal como em Moçambique, também em Angola, também na economia, no mundo financeiro, na sociedade, nas relações culturais, na língua, no intercâmbio entre universidades e escolas e em formas de entendimento entre as pessoas constante. Se passarmos para a Guiné-Bissau, onde lá estive como eu disse, e antes da Guiné-Bissau estive em Cabo Verde, que tinha a presidência da Cplp. E aí cá está o presidente da República Cabo-Verdiana que há alguém que estudou na mesma faculdade e eu conheço desde aluno e depois colega, muito antes de ser presidente. Mas o mesmo se passa também com tanta gente em Moçambique, em Angola e na Guiné-Bissau.

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal
ONU News/Daniela Gross
Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal

 

ON: E Timor-Leste, onde Portugal foi fundamental para restauração da independência?

MRS: Quanto a Timor-Leste, visitar o país é um dos meus objetivos próximos. Portugal foi fundamental. Teve a pandemia antes razões como uma série de eleições que houve em Timor-Leste. Queria muito que o presidente timorense viesse para Portugal. Mas sabe que foi o empenhamento português, o empenhamento do presidente Jorge Sampaio e foi o empenhamento do primeiro-ministro António Guterres que foi crucial, nomeadamente no diálogo com a administração norte-americana. Foi o empenhamento da nossa diplomacia, mesmo no quadro difícil de relacionamento com Indonésia. E se o presidente timorense não vier, vou eu lá. Logo que a pandemia realmente desapareça de cena e seja possível uma viagem tão longa, talvez no começo do ano que vem ou durante o ano que vem. Timor-Leste é uma prioridade, porque é uma presença na Ásia-Pacífico num contexto muito especial, diferente do contexto euro-africano ou euro-africano-americano. E depois, recebemos mais recentemente como membro da Cplp a Guiné-Equatorial. Só esperamos que a Guiné-Equatorial possa cumprir aquela promessa muitas vezes assumida que é de tomar uma decisão crucial quanto à pena de morte, para se integrar, efetivamente e cabalmente, no espírito fundador da Cplp.

 

ON: Vamos agora terminar esta entrevista, gostava de continuar por mais uma hora se fosse possível, com uma reflexão.

MRS: Temos ainda São Tomé e Príncipe. Bom, São Tomé ainda hoje prometi: vai haver eleições e irei à posse do presidente são-tomense. Mas por lá passei e vou passar agora no regresso da cimeira angolana.

Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, Portugal.
Câmara Municipal de Lisboa
Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, Portugal.

 

ON: Pois agora vamos ao português e à sua sobrevivência. Falou da importância da Ásia-Pacífico para a presença da língua portuguesa no globo. Durante estes anos, com os desafios que o mundo tem estado a enfrentar, não houve receio de que o português se perdesse em algum momento? O que é que os membros da Cplp podem fazer para fortalecer a presença do idioma?

MRS: Chego ao Senegal e encontro milhares de jovens senegaleses a falarem português. Encontro a multiplicação do português na América Latina onde mais fácil, mesmo em países de língua espanhola. Na China, o que há de alunos chineses, e não falo da presença na Ásia, de Macau ou de Goa. E o que há de alunos chineses a quererem falar e estudar português. Quero dizer, portanto, na Ásia-Pacífico encontramos essa realidade, porque sabem da importância do português no Hemisfério Sul. Sabem da importância do português. Não é por causa de Portugal. Hoje a língua portuguesa deve aquilo que é, larguíssimamente, ao papel fundamental dos grandes países com povos mais numerosos, mais jovens, mais virados para o futuro e ainda do que o povo português, que são aqueles que eu encontrei. Brasil, Angola, Moçambique e os outros irmãos em África, Timor-Leste mesmo, são eles que estão a liderar a língua portuguesa. E nós sem ficarmos propriamente velhinho, apesar da minha idade tenho alguma juventude de espírito, queremos acompanhar esse avanço para o futuro. Procuro. Mas eu muitas vezes digo em Portugal: atenção nós somos aqui 10 milhões fora do território físico há centenas que não são portugueses, mas falam português e vão ter o papel essencial da projeção e estão a ter um papel universal da língua portuguesa. E é o meu amigo, por exemplo.
O meu amigo e os seus irmãos de pátria, a minha segunda pátria, e outras pátrias do continente que temos uma mesma língua. Verdadeiramente os líderes mais jovens serão porventura os mais eficazes de projeção da língua portuguesa.

 

ON: Vai voltar agora para Portugal. Então Portugal vai mesmo abrir para a reconstrução depois da pandemia? é a última questão.

MRS: Já começou. Já recebemos da presidente da Comissão Europeia a aprovação lá do plano de recuperação e de residência. Quer dizer que a partir de agosto começaremos um percurso difícil. Vai demorar anos. E não é apenas a operação pontual do rendimento, é de abertura de vias do futuro. E essa reconstrução económica e social, estamos a falar do final de 2021, 22, 23, 24, 25, 26 é um grande desafio para Portugal e para a sociedade portuguesa.

 

ON: Algo mais para encerrar a conversa?

MRS:Cá estaremos, se tudo correr bem e, se houver essa oportunidade, cá estaremos em setembro a verificar como o secretário-geral António Guterres começou em força aquilo que será um grande mandato.

ON: Parabéns a Portugal por nomeá-lo a este cargo.

MRS: Para todos nós. É nosso. É o secretário-geral do mundo todo, mas especialmente lusófono.

ON: Muito obrigado Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, o convidado neste Destaque ONU News Especial.

 

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