“As pandemias de HIV e Covid-19 são pandemias de desigualdades” 
BR

10 junho 2021

A Assembleia Geral encerra sua Quinta Reunião de Alto Nível sobre HIV-Aids, neste 10 de junho, com adoção de uma nova declaração política sobre o tema; em entrevista à ONU News, diretora e representante do Unaids no Brasil destaca progresso e necessidade de combater diferenças entre países e populações com mais e menos recursos.  

A Quinta Reunião de Alto Nível sobre HIV-Aids, na Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, termina esta quinta-feira, com a adoção de uma nova Declaração Política sobre o tema. 

Em entrevista à ONU News, a diretora e representante do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, Unaids, no Brasil realçou a importância da nova declaração e falou sobre os pontos em comum entre esta luta e o combate à Covid-19. 

Claudia Velasquez citou o novo relatório da agência, publicado dias antes da Reunião de Alto Nível, que mostra que o mundo pode eliminar a Aids de uma vez por todas, mas alerta para o perigo das desigualdades. 

Homem sendo testado em centro de centro de saúde na Côte d’Ivoire. Disponibilidade de testes permitiu baixar número de novas infeções
Unicef/Frank Dejongh
Homem sendo testado em centro de centro de saúde na Côte d’Ivoire. Disponibilidade de testes permitiu baixar número de novas infeções

ONU News (ON): Quais são as grandes conclusões dos novos dados que a Unaids apresentou antes do evento? 

Claudia Velasquez (CV): Quarenta anos depois do primeiro caso de Aids ter sido registrado, pela primeira vez, a pandemia de HIV ainda ameaça o mundo. A pandemia de Covid-19 ameaçou ainda mais o progresso feito para acabar com a Aids. 

O novo relatório mostra que houve uma queda de 19% em mortes relacionadas à Aids na América Latina desde 2010. E também que 77% das novas infecções por HIV estão concentradas nas populações-chave, que são as pessoas trans, pessoas que usam drogas injetáveis, profissionais do sexo, seus e suas clientes, homens gay e outros homens que fazem sexo com homens.  

O relatório reforçou que vivemos uma conexão de duas pandemias, ambas impulsionadas por desigualdades. Estamos atrasados na resposta à pandemia da Aids e também da Covid-19. Por isso, este não é o momento para nos afastarmos da resposta ao HIV. Mesmo 40 anos depois do primeiro caso, a pandemia de HIV continua a ameaçar o mundo e, infelizmente, a pandemia de Covid-19 fez com que houvesse um atraso ainda maior em relação aos progressos feitos para acabar com a Aids. 

Com o HIV, aprendemos a importância de construir comunidades resistentes a pandemia, que é a chave para evitar futuras crises sanitárias. Também vimos que as pandemias podem arruinar economias rapidamente. Investir para minimizar o impacto das pandemias pode evitar choques econômicos. A ciência tem feito grandes progressos na resposta ao HIV, mas podemos fazer essa resposta acontecer de uma melhor forma e mais rapidamente. A Covid-19 mostrou que a ciência pode avançar rapidamente se tivermos vontade política e envolvimento de todas as pessoas. 

Estratégia global contra a Aids pretende abordar as desigualdades que aumentam as infecções e mortes por HIV
OIM Arménia
Estratégia global contra a Aids pretende abordar as desigualdades que aumentam as infecções e mortes por HIV

ON: Neste contexto, qual é o principal apelo do Unaids? 

CV: O apelo é que precisamos agir, urgentemente, contra o HIV e a Covid-19 de forma conjunta e simultânea. As pandemias de HIV e Covid-19 são pandemias de desigualdades. Assim como as desigualdades impulsionam o HIV, também impulsionam a Covid-19. 

Essas desigualdades na resposta ao HIV evidenciam a lacuna entre as pessoas ricas e as pessoas pobres. O relatório mostra que houve um bom progresso para algumas comunidades em alguns locais, enquanto grandes lacunas permanecem para outras. 

Onde um bom progresso foi feito, as pessoas que vivem com HIV têm uma vida longa e saudável, mas onde as desigualdades são grandes um progresso limitado foi alcançado contra o HIV.  

Temos de fechar as lacunas entre aqueles que estão tendo sucesso e aqueles que não estão. As pessoas que têm acesso a serviços de saúde estão florescendo, enquanto as que não têm acesso estão morrendo, de doenças relacionadas à Aids e à Covid-19. 

Com o HIV, aprendemos a urgência de preparar as comunidades para serem resilientes à pandemia, que é a chave para evitar futuras crises de saúde. Por isso é importante apoiar as comunidades. Comunidades resilientes a pandemias são aquelas capazes de galvanizar todas as comunidades, médicos, ativistas, líderes comunitários e líderes governamentais, e garantir que as pessoas marginalizadas têm poder e acesso.  

Uma parteira prepara remédios para um bebê HIV-positivo de duas semanas em Uganda.
Unicef/Jimmy Adriko
Uma parteira prepara remédios para um bebê HIV-positivo de duas semanas em Uganda.

Por outro lado, onde a resiliência não foi construída testemunhamos danos enormes causados pelo HIV e pela Covid-19. Grupos sociais que são afetados pelo HIV, incluindo populações chave, são a espinha dorsal da resposta ao HIV. A resposta à pandemia de Covid-19 destacou a importância das comunidades estarem envolvidas no processo de lidar com ambientes difíceis e em rápida mudança e para prestar aos grupos sociais afetados serviços essenciais, tais como testes de Covid-19, vacinação, prevenção, teste e tratamento de HIV e outros serviços sociais e de saúde. 

Comunidades de pessoas que vivem com HIV, organizações de mulheres e populações-chave enfrentaram as principais desigualdades e deficiências de serviços.  

ON: Qual é o objetivo da declaração política aprovada essa semana?  

CV: O objetivo é que os 193 Estados-membros entrem em consenso para orientar a resposta ao HIV no mundo e possamos colocar a resposta à Aids de volta aos trilhos.  

É fundamental que os países adotem uma declaração para pensar políticas públicas para o HIV, não só no sentido médico, mas também social. 

Além da urgência de sistemas de saúde integrados, precisamos que esses serviços sejam baseados na não-discriminação para que pessoas não sejam afastadas de políticas de saúde e medicamentos que salvam vidas. 

Mulher recebe medicamento para HIV para seu recém-nascido
Unicef/Frank Dejongh
Mulher recebe medicamento para HIV para seu recém-nascido

A resposta ao HIV precisa ser justa, equitativa e igualitária, para que ninguém fique para trás e todas as pessoas tenham acesso a uma vida saudável e com seus direitos respeitados.  

O progresso para acabar com a epidemia de Aids como uma ameaça à saúde pública, como parte da Agenda do Desenvolvimento Sustentável 2030, tem sido muito desigual e os objetivos globais adotados na Declaração Política de 2016 sobre o fim da Aids não foram atingidos. As metas globais para 2020, acordadas na Declaração Política de 2016 sobre HIV-Aids, não foram atingidas.  

A declaração política deve ser ousada e ambiciosa. Com pouco tempo restante, ela deve dar ao mundo a liderança necessária para definir o curso dos anos finais da resposta ao HIV. 

Ao ser ousada, a Declaração Política também deve garantir que ninguém fique para trás. Por isso, deve apoiar fortemente temas que algumas pessoas podem achar desconfortáveis, como educação sexual abrangente, direitos sexuais e reprodutivos e direitos humanos de todas as pessoas, incluindo populações-chave, que muitas vezes são marginalizadas e criminalizadas por sua identidade de gênero, orientação sexual, meios de sobrevivência, dependências, ou simplesmente por viverem com HIV. 

 

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