Entrevista: África em momento de colocar cultura na equação do desenvolvimento    BR

Conselheira especial do secretário-geral para África, Cristina Duarte
ONU News
Conselheira especial do secretário-geral para África, Cristina Duarte

Entrevista: África em momento de colocar cultura na equação do desenvolvimento   

Assuntos da ONU

Conselheira especial do secretário-geral para África, Cristina Duarte concedeu uma entrevista sobre o Dia da África. O capital humano, a recuperação pós-pandemia e o fosso digital são abordados com a subsecretária-geral que também defende ser um momento de transformação de roturas da pandemia em oportunidades. 

A celebração do Dia de África, neste 25 de maio, foi o tema que iniciou a conversa. 

ONU News: Este ano temos o lema “A arte, a cultura, o património: Alavancas para construir a África que nós Queremos”. Como este tema se junta ao momento da recuperação da pandemia? 

Cristina Duarte (CD): Eu tenho vindo a dizer que o tema da União Africana para 2021 não podia ser melhor. Eu costumo dizer que é o melhor tema, no momento certo e no espaço certo.  

As Nações Unidas estimam que somente 2% de imunizantes chegaram ao continente africano
Unicef/Ismail Taxta
As Nações Unidas estimam que somente 2% de imunizantes chegaram ao continente africano

Porque é que eu digo isto? Eu venho defendendo esta ideia desde que lançamos o African Dialogue Series: O Covid-19 colocou nas nossas mesas, nas nossas secretárias e nas nossas mentes roturas. Eu acredito que nós africanos temos que processar essas rupturas, essencialmente como oportunidades. Oportunidades de que talvez a Covid-19 e as rupturas, leia-se oportunidades, está a dar uma oportunidade para uma mudança de paradigma. 

E que mudança de paradigma é esta? É trazer a cultura para a equação do desenvolvimento. Eu acredito que, nos últimos 20 anos, antes das crises, África cresceu de forma persistente entre 3% e 4% e às vezes até mais às vezes. Às vezes até 4 e 4,5%. Um forte crescimento económico. Mas esse crescimento económico não gerou um desenvolvimento inclusivo. Então temos que perguntar o que é que faltou nesta equação?  

E uma das coisas, eu acredito, e é um ponto de vista muito pessoal tenho que admitir, é a cultura. E temos que perguntar o que é cultura? Eu aqui estou a ligar ao tema da União Africana. Quando discutimos cultura e desenvolvimento, o conceito de cultura tem que ir para além das demonstrações artísticas. Para além da pintura, para além da dança, da música.... Tem que ser cultura no sentido da nossa alma. Eu tenho dito no sentido do sentimento de pertença a uma comunidade. Eu acho que isso é que é cultura: o sentimento de pertença a uma comunidade com direitos e obrigações.  

Lema do Dia de África este ano é “A arte, a cultura, o património: Alavancas para construir a África que nós Queremos”
Rémi SCHAPMAN @WIA Initiative
Lema do Dia de África este ano é “A arte, a cultura, o património: Alavancas para construir a África que nós Queremos”

E nós exercendo, ou fazendo uso da nossa cidadania, da nossa consciência social, estamos prontos, sim, para exigir os direitos. Mas estamos mais prontos para cumprirmos as nossas obrigações. Porque só assim é que este sentimento de pertença a uma comunidade coloca-nos numa posição, como africanos, de exercer níveis superiores de apropriação. Aquilo que o inglês diz ownership.  

Sem níveis superiores de ownership, que nos permitam tomar nas nossas mãos o nosso destino e o nosso desenvolvimento, não sei se a gente será capaz de fazer este recovery better. E é exatamente nestes termos que eu entendo o tema da União Africana para 2021.   

É um apelo Artes, Culturas e Património: Alavancas para Construir a África que nós Queremos. E eu acrescentaria, que nós merecemos. E é assim que eu vejo. 

ON: Neste momento em que um grande debate está em torno de vacinas, as Nações Unidas estimam que somente 2% de imunizantes chegaram ao continente africano, como é que está a cooperação com a ONU pode ajudar a acelerar o acesso a estes meios para o desenvolvimento que se pretende juntamente com a valorização de artes, de culturas e atividades que se estão a desenvolver neste âmbito? 

CD: A pergunta é extremamente pertinente e está tudo relacionado. Deixe-me usar esta oportunidade para reconhecer, de forma muito clara, que o sistema da ONU tem claramente liderado e está a apoiado África nesta luta pelo acesso às vacinas do Covid-19.  Eu acho que isto reconhecimento é justo. Que o sistema das Nações Unidas no terreno, as equipes-país, o esforço de articulação que as várias agências têm estado a fazer diariamente para aumentar a eficiência dos resultados. 

O que as agências a nível das várias capitais têm tentado fazer para apoiar África, no que diz respeito ao acesso as vacinas, eu penso que tem que ser aqui reconhecido. Mas a verdade é que apesar de todo este esforço, nós estamos a assistir foram de forma um bocado dolorosa, diga-se passagem, aquilo que em inglês tem se chamado de vaccine divide. E é claro que vaccine divide é uma realidade que está aí. Mas se nós pararmos, vamos ver que é só mais um divide numa cadeia. 

Escolas de todo o mundo, como esta no Uganda, tiveram de fechar durante pandemia
Unicef/Jimmy Adriko
Escolas de todo o mundo, como esta no Uganda, tiveram de fechar durante pandemia

Olha o digital divide. Quando o Covid-19, como eu costumo dizer, aterrou em África, em que se teve que tomar todas aquelas medidas de confinamento, é que o digital divide veio à tona. Enquanto outros continentes e outras regiões do mundo rapidamente conseguiram encontrar soluções digitais para compensar o confinamento, a África confirmou mesmo.  

Centenas de milhares de crianças foram colocadas pura e simplesmente fora do sistema educativo. E com consequências que ainda estamos por avaliar. 

Portanto, o vaccine divide é só mais uma nesta cadeia de divides. Eu acho que temos que parar e pensar: não focalizarmos só no vaccine divide, mas focalizarmos na cadeia de divisões porque todas têm a mesma raiz. Todas têm como fonte o mesmo fenómeno.  

Tem a ver com questões de políticas de crescimentos económicos que não têm gerado desenvolvimentos inclusivos. E quando eu digo crescimentos económicos que não tem gerado desenvolvimentos inclusivos, nós estamos a aproximar-nos para reconhecer que talvez as políticas económicas em África não colocaram o capital humano como epicentro. 

Por isso é que a Covid-19 apanha-nos sem sistemas estruturados, sem sistemas de proteção social estruturados e um sistema educativo longe das novas tecnologias. É porque alguma coisa não esteve, no passado, ao implementarmos as políticas públicas de desenvolvimento. Eu acho que é isto que tem que ser visto agora daqui para a frente: colocar o capital humano no centro das políticas públicas. 

Fim da 1ª. Parte.