“A arte é para todos. Eu uso minha música porque não quero ficar sozinho”, diz Ivan Lins em entrevista à ONU News  
BR

30 abril 2021

Neste Dia Internacional do Jazz, um concerto nas Nações Unidas reúne grandes nomes da música como Ivan Lins, Romero Lubambo, Angelique Kidjo e Herbie Hancock entre outros; considerado um construtor de pontes entre culturas, o gênero é celebrado na promoção da paz e do entendimento. Acompanhe a íntegra da entrevista de Monica Grayley com o compositor e cantor brasileiro Ivan Lins.  

ONU NEWS: A ONU News em Português entrevista agora Ivan Lins. E tem a grande alegria de falar com ele que vai participar do Dia Internacional do Jazz. E no aniversário da décima edição desse Dia com nomes como Herbie Hancock. Também estará ali Angelique Kidjo, Marcus Miller, Dee Dee Bridgewater, e claro Ivan Lins. E toda essa festa começa às 5 horas da tarde, aqui em Nova Iorque, hora de Nova Iorque, e vai ser apresentada por Michael Douglas.  

Ivan, que prazer ter você aqui na ONU News em Português, muito bem-vindo! 

IVAN LINS: Obrigado. Eu que agradeço. 

ON: Ivan, você já está se tornando uma participação tradicional nesta festa. Não tem Dia Internacional do Jazz na ONU sem Ivan Lins... O que você vai cantar este ano? 

IL: Este ano, eu vou cantar Dinorah, Dinorah. A primeira gravação internacional foi do George Benson em 1981. E depois mandei duas para eles escolherem uma. Eu não sei qual foi. São duas que têm a participação do meu filho Cláudio. Eu mandei Desesperar Jamais e mandei Lembra de Mim. Eu acredito que deverá ser Lembra de Mim, que é uma música mais calma e mais ligada à bossa-nova, que tem muito a ver com o Brasil. A penetração da música brasileira na música internacional foi através da bossa-nova. Foi a grande entrada e talvez eles tenham escolhido essa. 

Então é isso: Dinorá, Dinorá, Desesperar Jamais, que é um samba bem carioca ou Lembra de Mim que também é uma bossa-nova também muito carioca.

ON: E todas três lindas. Inclusive Lembra de Mim foi tema de abertura de novela. E aliás, você é campeão em fazer música para novela...Incrível o seu sucesso. 

Ivan: Foi. (Risos)... Tem muitas... 

ON: Ivan, o que é o jazz pra você? 

IL: Olha, o jazz pra mim, antes de mais nada, é uma atitude.  É uma atitude diante da música. Representa liberdade total. O jazz, realmente, quando ele é exercido na sua plenitude, ele não tem barreira nenhuma. O músico de jazz, quem se adentra à letra do jazz, ele tem uma liberdade de usar todo o seu talento, suas ferramentas musicais e colocar tudo ali dentro. Então, é inventividade, é criatividade.  Então é liberdade com criatividade, com inventividade. Pra mim, o jazz representa isso. Utilizando a música, claro, né? Existem as mesmas definições em outras formas de arte. Mas na música, pra mim, o jazz representa isso. Você usa a sua criatividade e a sua inventividade com plena liberdade. 

Pra isso, em segundo lugar, vem a sua técnica, a sua capacidade de pensar uma coisa e fazer ela ali na hora. Entendeu? Então o jazz pra mim é isso. É uma atitude plena de você se exercer com toda a sua plenitude musical. Sem nenhuma barreira, sem ficar alguém dizendo. Isso não pode, isso não deve. 

Assembleia Geral adotou 21 de maio como o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento em 2002
ONU
Assembleia Geral adotou 21 de maio como o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento em 2002

ON: Essa questão da quebra de barreiras é bem interessante porque a Unesco definiu o jazz, o gênero, como um fio condutor como uma ferramenta para um diálogo intercultural. E num momento como esse, de polarização em várias partes do mundo. Como o jazz ajuda a quebrar essas barreiras e iniciar o diálogo intercultural? 

IL: Eu acho que é isso porque o jazz cria a curiosidade. Ele cria... A pessoa fica... 

Meu Deus do céu, tem uma palavra que não está vindo... É assim: uma coisa que você nunca fez na vida, mas que você está ouvindo e quer fazer. Ele é provocativo para o exercício de liberdade e criatividade. Inventividade. Eu vou usar esta palavra que eu gosto mais. 

E o jazz te propõe para ser inventivo, ele te propõe nenhuma barreira. Seja inventivo e se exerça, seja todo você.  

ON: Ele quebra classes sociais. Ele está em todas as partes. Ele é democrático. 

IL: Ele é democrático. Ele é profundamente democrático. 

ON: Ivan, como está sendo este ano, o ano passado e este ano, para um artista como você e os demais artistas que precisam do seu público. Milton (Nascimento) diz que o artista tem que ir aonde o povo está. E não deu para ir aonde o povo está este ano. Como está sendo esta transformação. Vieram para ficar essas lives e o contato via internet? 

IL: Olha, o contato via internet veio para ficar, mas não é mainstream. Não é o principal. Vai ser mais uma ferramenta. Mais. O contato humano é imbatível. Esta troca. É energia. É troca de energia. É olho no olho. Tem aquela fluência, a resposta imediata porque a arte precisa disso. Pro artista inclusive continuar exercendo. À medida que você sai trocando com o público, você vai se dando mais e mais e mais para o público e o público vai se dando mais e mais com você.  Não existe arte sem público. Não existe arte sem troca. Pelo menos, a minha concepção de arte é esta. É troca humana, é troca humana com inventividade, criatividade, com as ferramentas que a arte te dá pra fazer uma pintura, pra falar um texto, tocar uma música, dançar. É sempre troca. Você não dança pra você. Eu não danço pra mim, eu não canto pra mim, canto até quando estou compondo. Lógico, eu canto pra mim. Mas eu não quero cantar só pra mim. Eu não quero ficar trancando dentro dum quarto, entendeu? 

A arte é pra todos. 

Tem uma frase que fala que você faz a música, e na medida que ela sai do seu quarto, ela já não te pertence mais. Talvez comparando com os filhos. Quando você tem aquele filho que cresce, e chega aos 16 anos, 17 anos, 18 anos, ele vai para a Universidade e pronto vai para a vida. A arte tem essa coisa porque a música tá no ar, você joga ela no ar, e ela vai e fica aí solta por aí... 

Celebrações envolvem governos, sociedade civil, instituições educacionais e privadas
Kristy Sparow
Celebrações envolvem governos, sociedade civil, instituições educacionais e privadas

ON: Ivan, você se sente nostálgico em termos de música e criação?  Você viveu nos anos de ouro da música, com a bossa-nova, e de repente parece que tudo isso ficou pra trás. É um tempo que não volta mais?  Você se sente nostálgico? Você escuta tudo? Como você acompanha a música como consumidor? 

IL: Eu escuto tudo. Eu não só escuto tudo como me influencio por este tudo. Eu sou uma janela aberta, eu sou uma porta aberta pra tudo que a música pode oferecer, ou já ofereceu, ou oferece e ainda vai oferecer porque eu sou um criador, eu preciso criar, eu preciso ter material para criar minhas coisas.  

Evidentemente que eu tenho aqui um filtro. Eu recebo aquela informação e eu filtro e conecto o que passa pelo filtro da minha personalidade. As coisas que eu imagino e penso, onde minha cabeça. Sabe, eu sou muito compromissado com a beleza.  

ON: O Versace da música... 

IL: Pois é.  (risos)... a beleza é fundamental, dizia o ... Não gosto muito da frase do Vinícius, que diz ‘me desculpem as feias, mas a beleza é fundamental’, o poetinha...Ele errou um pouco nisso porque a frase dele ficou muito na estética quando a beleza interior é muito mais importante que a beleza exterior porque a beleza interior, ela é rica em sentimento, em espírito, entendeu? 

Então quando você produz uma coisa bonita, uma pessoa bonita, ela entende aquilo e recebe aquilo, ela consome aquilo, e ela pode te devolver no mesmo nível de beleza. Então essa troca de beleza entre as pessoas que são exatamente as suas qualidades humanas, de sua natureza humana, são as suas qualidades. Essa troca é linda 

Você toca alguma coisa e a pessoa olha pra você e fica com o olho marejado por exemplo. Isso é uma coisa fantástica. Ou seja, a minha beleza se conectou com a beleza da outra. Então, assim, a música, eu exerço o meu melhor como ser humano e coloco dentro da minha música, quando ela é bem recebida, eu acho. Às vezes, eu fantasio... 

O músico tem essa coisa de fantasiar, né? Acha que todo mundo tá entendendo o que você tá dizendo. Bom bateram palma então entendeu e tem menina que tá batendo palma porque você é lindo, ou pela sua voz, então a gente fantasia essa coisa, e o aplauso é muito importante para isso, por menor que seja, para que você seja recompensando, então me entenderam,  não sou uma pessoa solitária. 

A solidão é a pior coisa que existe no mundo. Eu uso a minha música porque eu não quero estar sozinho. 

ON: E você continua trabalhando a todo vapor, não, Ivan? Você, Paul McCartney, Mick Jagger… 

IL: (Risos). Opa, a gente continua… A música é o dom. É uma coisa que eu sei fazer melhor. Não sei se eu sei fazer melhor, mas é o que sei fazer com um imenso prazer.  

ON: Como a gente falou a Química perdeu um profissional, mas a música ganhou um enorme talento. 

IL: Sim senhora (risos)... 

ON: Eu queria falar da preocupação (dos músicos) porque as pessoas não estão vendendo mais disco hoje. Ficou mais complicado para quem é músico, para quem está começando, sem falar nessas questões de nicho, claro, mas como os músicos tradicionais e profissionais, os grandes nomes da música como você, estão fazendo hoje para driblar essa dificuldade? Pela queda das rádios, as pessoas não estão mais ligando a rádio para escutar música, elas escutam num USB. Então como vocês estão se adaptando a esta nova realidade que parece que não vai ter volta? 

IL: É não vai ter volta. Realmente, é como se diz: água morro abaixo, fogo morro acima e progresso não tem jeito, não pára. Então realmente, a tecnologia vai caminhar, cada vez mais, nessa direção. A grande dificuldade nisso é que as  plataformas musicais e as gravadoras, que são possuidoras dos grandes catálogos, elas tomaram conta da monetização, da execução e da vendagem, quando você pode vender por internet. E a execução nessas plataformas Spotify etc 

Então o que acontece? Nós perdemos: os músicos, os compositores nós perdemos muito nesta monetização. Nós perdemos demais. Tem dados assim assustadores. Pra você ganhar um salário mínimo por mês, a mesma quantidade de um salário mínimo por mês, você precisa ter milhões 80 milhões de execuções pra poder ganhar um salário mínimo por mês. Como é que você vai tocar 80 milhões de vezes? Isso é um absurdo.  É um absurdo. Nós fomos para o final da fila.  Então, as gravadoras e as plataformas ficam basicamente como 80% a 85% da monetização na internet. Sobram 20% a 15% que vai para as editoras, e depois as editoras tiram a parte delas e pagam os compositores. E aí você vai vendo como a coisa vai ficando.  

Recentemente, agora semana passada, eu acho, saiu uma carta dos compositores ingleses, capitaneada pelo Paul McCartney, que tem só músico, por volta de 500 nomes da música inglesa: músicos, compositores, produtores de música querendo mudar isso, entendeu? Porque o justo seria 50% da monetização na internet: 50% porque nós somos a matéria prima pra dar direito pra eles. Se não existisse, se a gente não tivesse música, eles não estariam ganhando dinheiro nenhum. 

O músico brasileiro Ivan Lins disse que as plataformas são um espaço de promoção, mas precisam devolver aos músicos os direitos adquiridos na era pré-internet
Carlos Ramos
O músico brasileiro Ivan Lins disse que as plataformas são um espaço de promoção, mas precisam devolver aos músicos os direitos adquiridos na era pré-internet

ON: Uma revolução musical que está se tentando fazer na indústria, e os ingleses estão capitaneando? 

IL: É para recuperar o dinheiro que nós perdemos durante todos esses anos de internet, entendeu, porque o direito autoral, a vendagem de disco desapareceu, ninguém mais vende CD, então esse dinheiro a gente já não ganha mais. O direito autoral que vinha muito da execução da mídia aberta, de rádio e televisão, desapareceu, ficou a internet. E a internet, nós fomos lá pro final da fila. 

Então a situação do criador, exatamente, o cara que cria a matéria prima pra esse pessoal todo ganhar dinheiro, foi para o final da fila. E isso é injusto. A gente quer de volta, a equiparação do mercado.  Como era lá, nós queremos que agora volte a ser assim, porque a internet já teve tempo suficiente para poder ganhar o dinheiro dela. As gravadoras também já tiveram tempo pra ganhar o dinheiro delas. Então agora a gente quer começar a ganhar o nosso dinheiro justamente. 

ON: E você vê este movimento chegando ao Brasil? 

IL: Este movimento começou a chegar no Brasil agora porque foi semana passada que essa carta saiu. E eu espero que o mundo todo... e aí, eu acho que até a ONU deveria entrar nisso porque está matando o artista. E ainda veio por cima a pandemia. Olha que isso já estava problemático antes da pandemia, mas com a pandemia piorou ainda mais a situação. 

ON: E como a ONU poderia ajudar com a Unesco? 

IL: Eu não sei. Eu acho que deveria procurar a comunidade musical mundial através do próprio... porque atinge inclusive os músicos. O próprio Jazz Day, a situação financeira dos músicos de jazz não é boa. A situação no mundo do jazz é caótica. E o jazz sempre viveu muito do ao vido então a pandemia fez um estrago...E os técnicos que são os técnicos de som, o cara que faz a luz, o cara que carrega, monta o palco, estes então estão numa situação caótica. Nós estamos fazendo campanhas de doação, estamos fazendo uma série de campanhas de arrecadação para ajudar.  

Por exemplo, aqui, na minha sociedade arrecadadora, nós estamos escolhendo uma música de grande sucesso nossa, eu escolhi Vitoriosa, e estou dando 40% dos direitos de Vitoriosa para que se consiga comprar cestas básicas e ajudar os técnicos de música. Assim como eu, vários compositores estão fazendo a mesma coisa, Roberto Menescal, por exemplo, pegou O Barquinho e está dando 50%, ninguém nem sabia...Pra poder ajudar. Principalmente por causa da pandemia porque parou o trabalho, o tal do contato com o público e o palco. O palco era a única forma de se ganhar dinheiro. Já não ganho na internet, não vendo mais disco, onde é que eu vou ganhar dinheiro? No palco. 

ON: E no ao vivo, na internet, vocês não têm como fazer essa arrecadação? 

IL: É. A gente faz as lives, mas agora quando a live não é patrocinada, não se consegue um patrocínio... Quando se consegue um patrocínio, o patrocinador injeta um dinheiro ali, e aí dá pra pagar mesmo que seja uma mariola e uma cocada, dá pra pagar todo mundo. Todo mundo recebe. Agora, quando não tem o patrocínio é gratuito. É só divulgação mesmo. Muita live na internet que tá rolando, tá tudo bem. A música tá lá tocando, está aparecendo um monte de gente, tá todo mundo fazendo, mas dinheiro pra pagar as contas não tá entrando... 

ON: E o músico é um trabalhador como qualquer outro trabalhador que merece viver do seu ofício...  

Ele vai cantar dia 30 de abril nas Nações Unidas. Ao lado de Herbie Hancock, Angelique Kidjo, Marcus Miller, Dee Dee Bridgewater, e claro: Ele Ivan Lins, que vai cantar pra gente agora. Olha que privilégio.... 

 

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