Pandemia atingiu meu país como um tsunami, diz funcionária da ONU na Índia
BR

29 abril 2021

Anshu Sharma trabalha na ONU News em Hindi em Nova Délhi; desde o aumento da contaminação com a Covid-19, ela passou a relatar suas experiências numa rede social ao viver o trauma de ter a família infectada e seus compatriotas sucumbirem à doença

Uma jornalista da Índia está vivendo de perto o drama do que ela chama de “tsunami” do novo coronavírus em seu país. Anshu Sharma trabalha na ONU News em Hindi, em Nova Délhi, capital da Índia. Em suas redes sociais, ela relata o “pânico” que sentiu ao ter sua família infectada e ao ver tantas pessoas morrerem da doença.

Anshu Sharma, da ONU News Hindi, em visita à sede da ONU em Nova York, antes da pandemia
ONU News
Anshu Sharma, da ONU News Hindi, em visita à sede da ONU em Nova York, antes da pandemia

Lista global

Segundo agências de notícias, mais de 200 mil pessoas perderam a vida para a Covid-19 numa nação que lidera a lista global em número de novos casos de contaminação por dia.

Anshu contou que quando o vírus chegou à Índia, em março de 2020, poucos meses após ser detectado na cidade de Wuhan, na China, muitos não entendiam a gravidade da doença.

A repórter indiana lembra que começou a observar o impacto da pandemia pelo Sul da Ásia como profissional, mas tudo mudou quando um membro da família morreu por causa de um atraso no tratamento gerado pelo sistema de saúde fortemente atingido. 

Anshu relatou o desespero vivido pela família, que tentava consolar outros, em pleno isolamento social.

A repórter descreve esse período como um momento de testes. Em setembro de 2020, ela decidiu visitar a mãe já idosa e um irmão numa outra cidade. E apesar de todas as precauções e cuidados, o pior ocorreu: todos foram diagnosticados com a pandemia e levaram duas semanas lutando contra o vírus.

Com medo, ela acordava durante a madrugada e checava as camas na casa. A jornalista descreve aqueles dias como uma luta diária e uma ansiedade sem fim. O único consolo foi a recuperação, na quarentena, e o fato de ninguém ter que ser internado no hospital e enfrentar um risco maior.

Mãe com seu filho em Gujarat, na Índia, durante pandemia de Covid-19
Unicef/Vinay Panjwani
Mãe com seu filho em Gujarat, na Índia, durante pandemia de Covid-19

Primo na Nigéria

Ao mesmo tempo em que aumentavam os casos de Covid-19 e a angústia em casa, um primo da jornalista estava na Nigéria sem poder retornar à Índia. Com a mobilização da família, em julho, ele conseguiu ser liberado, mas teve que ficar de quarentena num hotel por duas semanas.

Com febre, foi levado às pressas ao hospital. Mesmo antes de os médicos conseguirem emitir um diagnóstico, o primo dela morreu por falência múltipla dos órgãos.

Segundo o hospital, ele morreu de malária. Logo depois, um outro membro da família seria contaminado com o Covid.

Meninos na Índia se protegem contra Covid-19 usando máscaras faciais.
Unicef/Vinay Panjwani
Meninos na Índia se protegem contra Covid-19 usando máscaras faciais.

Um jogo da mente

A jornalista afirma que a pandemia deixou a mente dela num estado terrível por causa das incertezas típicas da doença. Segundo ela, a Covid leva a um jogo malvado da mente que afeta a saúde física e psicológica.

Anshu fala que durante este tempo ela pôde refletir no real valor da vida e o que realmente conta: viver a vida inteiramente e passar tempo com os entes queridos.

A jornalista indiana lembra que no ano passado, os casos começaram a cair dando a entender que o país tinha vencido a pandemia. 

Alunos esperam na fila para lavar as mãos em uma escola em Meghalaya, na Índia.
© Unicef/Vinay Panjwani
Alunos esperam na fila para lavar as mãos em uma escola em Meghalaya, na Índia.

Vacinação

E enquanto chegavam os elogios do mundo sobre a forma como a Índia respondia à emergência, a nação com mais de 1,3 bilhão de habitantes, começava a se preparar para a maior campanha de vacinação do mundo.

Mas antes que tudo isso se concretizasse, apareceu uma segunda onda da Covid-19 tomando os indianos de surpresa.

O número de novas infecções começou a subir de 1000 por dia para mais de 300 mil. Era como se um tsunami tivesse arrastando o país. Quando três outros parentes foram contaminados, o coração de Anshu Sharma disparou.

Ela conta que viveu uma série de emoções. Primeiro: raiva consigo própria por ter descuidado das medidas de proteção, baixando a guarda nas semanas anteriores. Ao mesmo tempo, ela esperava que os anticorpos da primeira vez em que se contaminou pudessem protegê-la.

Na Índia, funcionários de saúde foram os primeiros a receber a vacina, como recomenda OMS
Unicef/Kuldeep Rohilla
Na Índia, funcionários de saúde foram os primeiros a receber a vacina, como recomenda OMS

Condolências

Atualmente, com a situação atual, muitos estados e cidades da Índia estão sob toque de recolher para tentar conter o vírus.

Ela diz que as redes sociais estão dominadas por histórias trágicas da pandemia e que tem as mãos cansadas de escrever tantas mensagens de condolência.

O sistema de saúde indiano está sobrecarregado e pedidos desesperados por camas de UTI, cilindros de oxigênio e injeções inundaram a internet.

A jornalista afirma que a pandemia colocou seu país natal de joelhos.

E ao olhar para tantos indianos, ela começa a ver que sua história pessoal não é nada na frente do sofrimento de seus compatriotas.

Luz no fim do túnel

No início, os pacientes de Covid-19 estavam sendo tratados como “intocáveis” e rejeitados pela sociedade. Mas agora, as pessoas começaram a se ajudar. 

Os vizinhos se apoiam, donos de mercados estão entregando comida a quem precisa, e lugares de culto se transformaram em centros de isolamento para compensar a falta de leitos nos hospitais.

Várias comunidades estão coletando doações para comprar oxigênio. Existe, segundo a jornalista da ONU News, um senso de solidariedade e de compaixão.

Se a primeira onda da pandemia separou a família, talvez a segunda tenha aproximado as pessoas. Nenhum lar na Índia escapou dos efeitos da Covid-19.

Segundo ela, a Índia e os indianos esperam agora uma luz no fim do túnel.
 

 

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