Não existe saída puramente militar para a RD Congo, diz general brasileiro
BR

31 março 2021

Comandante das Forças de Paz da ONU no país africano, Monusco, general Ricardo Augusto Ferreira Costa Neves, lidera 13 mil boinas-azuis de 50 países no terreno; no início de abril, ele retornará ao Brasil após cumprir seu mandato.

O comandante militar da Missão de Estabilização da ONU na República Democrática do Congo, RD Congo, o general brasileiro Ricardo Augusto Ferreira Costa Neves está de retorno à casa.

Nesta entrevista de despedida à ONU News, diretamente de Kinshasa, capital do país africano, o general Costa Neves afirmou que não existe solução “puramente militar” para o conflito congolês. Segundo o comandante da Monusco, a saída só se dará por meio de um esforço coletivo.

Proteção de crianças 

“As soluções para os problemas mais permanentes, mais contundentes, aqui na parte leste da República Democrática do Congo, todos nós temos plena consciência de que somente uma integração de esforços pode trazer soluções duráveis e permanentes para esses problemas. É por isso que a liderança da Missão sempre enfatiza a colaboração de todos os setores, de todos os componentes da nossa Missão. Então, é o engajamento político, a proteção de crianças, a proteção de mulheres, a observância de violações de direitos humanos. Então, todos nós, num esforço concentrado e conjunto para que possamos apresentar as respostas definitivas à demanda de proteção aos civis aqui. Então, não há uma solução puramente militar para os problemas. De forma alguma. É só esta grande integração.”

À frente da Monusco, o general Costa Neves liderou, por mais de um ano, boinas-azuis de 50 países. Ao todo são 13 mil integrantes numa das maiores missões de paz das Nações Unidas no mundo.

Monusco/Sophie Boudre
O comandante das forças da Monusco, general Augusto Ferreira Costa Neves, com o comandante da zona de defesa das Fardc, general Sikwabe Fall, em Beni, RD Congo

A força das mulheres

Esta é a segunda vez, que o militar brasileiro veste a boina-azul da ONU. Na década de 90, ele esteve em Angola, o país de língua portuguesa no sul da África.

Neste primeiro posto como comandante, Costa Neves tentou aumentar o número de mulheres na Monusco. Segundo ele, as militares fazem a diferença não só para as operações técnicas da missão de paz, mas também na hora de lidar diretamente com os congoleses afetados pelo conflito. E muitos são mulheres e meninas vítimas de violência sexual.

“Não se compara com a maneira como os nossos oficiais, os nossos sargentos conduzem o seu trabalho. Este laço de confiança é muito maior. E eu vi isso ao longo desse período todo em que estou aqui. Os nossos times de engajamento feminino, eles são fenomenais, são maravilhosos, de uma capacidade impressionante, trazendo confiança à população. E mais uma coisa, que eu sempre reforço com o nosso pessoal. Se nós queremos saber o que está acontecendo numa determinada vila, numa cidade pequena, procuremos as lideranças femininas. As mulheres realmente sabem o que se passa lá. Até mesmo porque muitas das vezes, eles são as maiores vítimas. Elas e as crianças.”

O novo mandato da Missão de Paz da ONU na RD Congo começou em julho de 2010, quando o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 1925 autorizando o novo formato após mudanças políticas no país. 

Monusco
Tropas de paz da Missão das Nações Unidas na RD Congo, Monusco, patrulham Ituri.

Guerra na selva

Com isso, passou a valer o uso de quaisquer meios necessários para o cumprimento do mandato incluindo a proteção de civis, de trabalhadores humanitários e dos defensores de direitos humanos sob ameaça.

Após chegar ao país, o general Costa Neves também passou a investir num intercâmbio com soldados brasileiros especializados em treinamento de selva. Uma vez que vários grupos armados na RD Congo utilizam a mata para se esconder e preparar seus ataques. 

Um desses grupos são as Forças Aliadas Democráticas, ADF. Nos últimos meses, os membros da ADF intensificaram os ataques nas províncias do leste do país africano.

“Nós brasileiros, estamos todos muito orgulhosos da equipe de guerra na selva, que nós temos aqui na República Democrática do Congo. Uma experiência fenomenal para o nosso pessoal e também para a Monusco como um todo. Nós temos 13 guerreiros de selva, mas com uma capacidade de treinamento muito boa. Então, nós treinamos as tropas da ONU. Especificamente, com maior ênfase, as tropas da Brigada de Intervenção e também as Forças Armadas locais. E nós temos tido uma experiência fenomenal. Nossa equipe de guerra na selva treinou, por exemplo, um Batalhão das Forças Armadas, que foi empregado na operação ofensiva contra a ADF, no famoso triângulo, que é um local onde eles se concentravam. E o sucesso da operação foi amplamente reconhecido pelo povo do Congo, pela Missão da ONU e também por Nova Iorque (sede da ONU). Não há uma reunião que eu tenha com a liderança das Forças Armadas locais em que eles não se lembrem deste episódio e inclusive pedindo mais treinamento. O nosso pessoal é extremamente capacitado, extremamente dedicado. Está sendo muito eficiente na preparação das nossas tropas e também no treinamento das Forças Armadas locais.”

OMS/Rob Holden
Tropas de paz da Monusco, Missão da ONU na República Democrática do Congo, patrulham cidade de Butembo, em janeiro de 2019.

Crimes contra a humanidade

Um dos maiores desafios da Monusco são os ataques do grupo armado ADF, que somente em 2020, matou pelo menos 849 civis nas províncias de Ituri e Kivu Norte. 

Dessas mortes, 381 ocorreram no primeiro semestre do ano passado e em meio a uma pandemia.  De julho a dezembro de 2020, 468 congoleses nesta região foram assassinados. Mais de 60 ficaram feridos.

A ADF é acusada ainda de violência sexual a meninas, mulheres e homens e de cometer crimes contra a humanidade. Eles são ativos no território de Beni, na província de Kivu Norte.

A nova chefe da Monusco, a representante especial do secretário-geral da ONU na RD Congo, Bintou Keita, afirmou que a Monusco está determinada a apoiar a estabilização em Ituri. 

Segundo ela, para sarar as feridas em cada morador de todas as comunidades de Ituri, será preciso a confiança de todos os atores envolvidos na luta contra os inimigos da paz.
 

 

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