Covid-19 pode levar a uma década perdida para o desenvolvimento 
BR

25 março 2021

Novo relatório das Nações Unidas mostra que pandemia está gerando um mundo ainda mais desigual; mais de 60 agências internacionais pedem financiamento para enfrentar crescentes desigualdades e reconstruir melhor.  

O Relatório de Financiamento para o Desenvolvimento Sustentável de 2021 afirma que a economia global teve a pior recessão em 90 anos, com os segmentos mais vulneráveis ​​da sociedade afetados de forma desproporcional.  

Segundo a pesquisa da ONU, cerca de 114 milhões de empregos foram perdidos e 120 milhões de pessoas voltaram a uma situação de pobreza extrema. 

Importância 

Em comunicado, a vice-secretária-geral da ONU, Amina Mohammed, disse que a pandemia provou que “os desastres não respeitam as fronteiras nacionais.” 

A vice-secretária-geral da ONUAmina Mohammed fala com menina em Borno, na Nigéria, durante visita este ano.
ONU/Daniel Getachew
A vice-secretária-geral da ONUAmina Mohammed fala com menina em Borno, na Nigéria, durante visita este ano.

Segundo ela, “um mundo divergente é uma catástrofe para todos” e “é moralmente correto e do interesse econômico de todos ajudar os países em desenvolvimento a superar esta crise.” 

A pesquisa detalha como a resposta desigual à pandemia ampliou enormes disparidades e injustiças dentro e entre países. 

No total, cerca de US$ 16 trilhões foram investidos para combater os piores efeitos da crise, mas menos de 20% desse valor foi gasto em países em desenvolvimento. Em janeiro deste ano, apenas nove dos 38 países com campanhas de vacinação contra a Covid-19 eram países desenvolvidos. 

Alto risco 

Cerca de metade dos países menos desenvolvidos e de outros de baixa renda corriam alto risco de sobre-endividamento antes da crise. Agora, a queda das receitas fiscais fez os níveis da dívida dispararem. 

Segundo a pesquisa, a situação nos países mais pobres do mundo é profundamente preocupante. Nesses Estados-membros, a concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável pode demorar mais 10 anos do que o previsto. 

O relatório inclui recomendações concretas, pedindo a ação imediata dos governos.  

Doses da vacina AstraZeneca sendo entregues no Sri Lanka, como parte da iniciativa Covax
UNICEF
Doses da vacina AstraZeneca sendo entregues no Sri Lanka, como parte da iniciativa Covax

Uma das propostas é financiar totalmente o Acelerador de Ferramentas de Acesso à Covid-19, que ainda precisa de mais US$ 20 bilhões para 2021. Além disso, os países devem cumprir o compromisso de 0,7% de Assistência Oficial ao Desenvolvimento e criar novos financiamentos para os países em desenvolvimento.  Os Estados também podem apoiar alívio da dívida para esses mesmos países.  

Correção 

O subsecretário-geral do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Desa, Liu Zhenmin, afirmou que “o fosso crescente entre os países ricos e pobres é preocupantemente retrógrado e requer uma correção de curso imediata.” 

Zhenmin disse ainda que “para reconstruir melhor, os setores público e privado devem investir em capital humano, proteção social e infraestrutura e tecnologia sustentáveis.” 

Segundo a pesquisa, o investimento sustentável e inteligente, por exemplo em infraestrutura, pode reduzir os riscos e tornaria o mundo mais resistente a choques futuros. Além disso, criaria crescimento, uma vida melhor para milhões de pessoas e ajudaria a combater a mudança climática. 

Investir entre US$ 70 bilhões e 120 bilhões nos próximos dois anos, e entre US$ 20 bilhões e 40 bilhões anualmente depois, reduziria significativamente a probabilidade de outra pandemia, em contraste com trilhões de dólares em danos econômicos já causados pela Covid-19. 

O secretário-geral adjunto para os Assuntos Económicos e Sociais, Liu Zhenmin.
ONU/Eskinder Debebe
O secretário-geral adjunto para os Assuntos Económicos e Sociais, Liu Zhenmin.

Mudança 

A pesquisa afirma que a resposta a esta crise é uma oportunidade para redefinir os sistemas globais e prepará-los para o futuro.  

O relatório recomenda uma solução global para a tributação da economia digital como forma de combater a fuga fiscal, reduzir a concorrência prejudicial e combater os fluxos financeiros ilícitos. 

Também propõe uma estrutura global para responsabilizar as empresas por seu impacto social e ambiental e incorporar os riscos climáticos à regulamentação financeira. 

Além disso, as estruturas regulatórias devem ser revistas, para reduzir o poder de mercado das grandes plataformas digitais, e o mercado de trabalho e as políticas fiscais devem refletir a realidade de uma economia global em mudança.  

Terminando, Liu Zhenmin afirma que “para mudar a trajetória, é preciso mudar as regras do jogo.” Ele avisa que “depender das regras de antes da crise levará às mesmas armadilhas do passado.” 

 

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