Entrevista: Portugal ressalta urgência de se corrigir perdas da pandemia a meninas e mulheres 
BR

18 março 2021

A ministra de Estado e da Presidência de Portugal, Mariana Vieira da Silva, falou à ONU News após discursar e nome de seu país e da União Europeia na 65ª. Comissão sobre o Estatuto da Mulher, que ocorre em Nova Iorque; para ela, países precisam incentivar mais meninas na ciência e tecnologia, e mais mulheres na política. Acompanhe a conversa da ministra, de Lisboa, com Monica Villela Grayley, da ONU News. 

ONU News: Ministra, o que Portugal está fazendo para melhorar os avanços dos direitos das mulheres no mundo, mas também em cooperação com os homens que são uma parte fundamental desta equação. 

Mariana Vieira da Silva: Bom. Nós, neste ano, procuramos centrar-nos em duas dimensões fundamentais. Uma, que nos acompanha há muito tempo, como colocar as mulheres ou dar-lhes o poder e capacidade de participação nos processos de decisão política. E uma outra, à qual não podíamos fugir, uma vez que vivemos um tempo muito particular, que é procurar saber quais são os impactos desta pandemia nas desigualdades entre homens e mulheres. Nenhuma crise é igual para os homens e para as mulheres porque as crises afetam sempre mais àqueles que já estão mais desprotegidos. Mas essa crise, tem uma dimensão muito maior do que todas as outras, está a ter impacto em todos os países do mundo ao mesmo tempo. Tem impacto em profissões, onde as mulheres estão muitos presentes. E, por isso, nós dedicamos esses dois pontos: por um lado, como é que nós podemos trabalhar para garantir que as mulheres ocupem os seus lugares nos postos de decisão, e por outro: que impacto é esta pandemia pode trazer? Não apenas a pandemia, mas a crise económica e social que se vai seguir na vida das mulheres com a preocupação de não recuarmos, não andarmos para trás no caminho que vinha a ser feito. Esses são os dois temas que escolhermos para tratar esse ano na CSW.

ON: Ministra, apesar da pandemia ou mesmo antes da pandemia, já havia este grande déficit de representação feminina, de mulheres em cargos públicos. Por exemplo, no ano passado, houve um pequeno acréscimo em eleições para cargos parlamentares de representação feminina. Hoje, temos mais ou menos 25%. Mas ainda lembramos que 75% dos assentos em Parlamentos de todo o mundo são ocupados por homens. O que fazer, concretamente, para aumentar esta participação. E um dos argumentos usados contra essa participação feminina é que “as mulheres não se interessam tanto por política”. É verdade? 

MVS: Não. Nós sabemos como é que são construídas essas ideias de que as mulheres gostam mais de umas coisas e menos d’outras. E têm mais jeito para umas coisas e menos para outras. São coisas que são construídas desde cedo na vida das crianças, na sua família, na sua escola e em todo o seu percurso escolar. E é preciso trabalhar para desconstruir estes estereótipos.  

Por muitas razões. Primeiro, porque nós temos que garantir que as meninas, as raparigas podem escolher o seu caminho e ser aquilo que querem. E para isso, precisam de ter nos cargos políticos, mas também nos cargos de poder econômico, não nos podemos esquecer, que talvez até é onde mais difícil que as mulheres possam ocupar os seus lugares de chefia, ter exemplos. Nós quando temos um exemplo, as crianças pensam: “eu quero ser como ela”. E é preciso trabalhar nesses exemplos, é preciso trabalhar nas escolas, nessa desconstrução dos estereótipos que são muito importantes agora.  

Principalmente quando nós falamos muito que vamos viver uma transição digital, que a sociedade vai ser cada vez mais digital.  Ora, se nós sabemos que as mulheres estão menos presentes nessas áreas, têm menos qualificações, não estão tão presentes nos cursos de Engenharia, de Informática, então nós estamos a construir para o futuro, e não apenas agora, essa desigualdade, porque depois não vamos ter suficientes mulheres para poderem participar desta revolução digital. E por isso, tanto por causa dos direitos das mulheres, como também para que toda a sociedade possa fazer essa evolução, temos que trabalhar nessa dimensão dos estereótipos e dar oportunidades às mulheres. 

Governo de Portugal
Ministra de Estado e da Presidência de Portugal, Mariana Vieira da Silva

Nós nunca podemos dizer que o mundo vai fazer uma transição digital ou uma transição climática... Não vai se não contar com metade da população (mundial). E por isso, é preciso construir logo na escola, logo nas idades mais jovens essas oportunidades. E dar oportunidades às raparigas para desenvolver esses gostos, para gostar de falar em público, para gostar de tomar decisões, tudo isso se aprende desde criança e é preciso trabalhar.  E depois, muitas vezes, também são precisos instrumentos mais específicos como o das cotas para procurar corrigir.  

O que nós sabemos hoje, o que há alguns anos não sabíamos, é que os países que implementaram essas medidas foram bem-sucedidos. Têm hoje mais mulheres nos Parlamentos, têm mais mulheres nos governos, têm mais mulheres nos Conselhos de Administração. E por isso, já sabemos o que resulta e agora temos que fazer este trabalho. 

ON: Ministra, a sra. falou em construção de pontes. E Portugal é conhecido por construir pontes, por acolher migrantes. É um país que é classificado como um dos mais pacíficos do mundo. Agora, violência de gênero, violência sexual está em todos os países. Como Portugal tem trabalhado principalmente com os homens para combater esse problema? 

MVS: Bom. Nós tivemos há poucos anos, um número de casos muito elevado, mais elevado que o habitual e procuramos fazer um trabalho de ir a processos anteriores, e fazer um levantamento do que é que tinha corrido mal. E estamos a procurar corrigir esses fatores e sabemos o que é muito importante e o que também estamos a trabalhar no âmbito da União Europeia. 

É muito importante que as mulheres saibam o que fazer, a quem se queixar. E se sintam protegidas nessas primeiras horas depois da queixa que são horas, particularmente, importantes. E estamos na União Europeia, desde a Presidência Alemã, a trabalhar na ideia de uma linha única em toda a Europa. Em que todas as cidadãs, todas as mulheres europeias saibam qual é a linha à qual se possam queixar. E é preciso trabalhar em todas as esferas porque o mais importante é garantir que uma mulher, quando apresenta uma queixa, é apoiada e se sente segura. E este é o trabalho, que em todos os países, tem sido feito. No último semestre, conversamos muito, em particular, porque em tempo de pandemia, temos muitas mulheres que estão fechadas em casa com seus agressores. E se nós sabemos que o confinamento traz muitos desafios à vida de todos, no âmbito da saúde mental, só podemos imaginar o que será partilhar essa habitação com alguém que nos agride. E o que é preciso é estarmos sempre presentes no momento das queixas. 

Em Portugal, por exemplo, desenvolvemos além da linha telefônica um SMS porque fechada em casa, em confinamento com o agressor, pode não ser possível fazer um telefonema, mas é sempre possível mandar uma mensagem escrita e procurar ter apoio. Diversificar as formas que as mulheres podem ter para pedir ajuda é uma questão crítica, e que estamos a trabalhar não só no nosso país como a nível da União Europeia com uma resposta comum. 

ON: A sra. falou que as meninas e as mulheres têm que ter exemplos. E a senhora é um exemplo. Foi difícil para a sra. começar na política? Houve preconceito, houve barreiras por causa do gênero, como foi a sua experiência pessoal? 

MVS: Nós temos sempre a tentação quando chegamos a um determinado lugar de dizer que não tivemos problemas. Não tivemos por que os conseguimos ultrapassar. Agora essa ideia de que há uma minoria de mulheres nos lugares de decisão política é claro que é uma decisão que afeta. 

Eu nasci em 1978 e, portanto, já vivi num mundo de grande igualdade entre mulheres e homens no nosso país. Agora, ainda se sente todos os dias, em muitas esferas de decisão, essa diferença. Se eu posso dizer que senti discriminação? Não senti pessoalmente esse efeito, mas sei que é um caminho mais difícil. É um caminho de afirmação mais difícil, que em Portugal está muito avançado. O Governo hoje tem 40% de ministras, e, portanto, estamos numa situação muito mais confortável. Na verdade, o que nós vemos sempre, por exemplo, agora na pandemia, nós sabemos que as mulheres são a maioria dos que estão na linha de frente. Nós sabemos que as mulheres até são em Portugal, neste momento, a maioria das cientistas na área da saúde. Mas mesmo assim, quando olhamos para as televisões, para quem tem mais intervenção pública na resposta à pandemia, são muitas vezes homens. Este é um caminho que se faz, um caminho que só acaba quando cada menina souber que não há nenhum trabalho que lhe esteja impedido, de que não há nada que ela possa não ser. 

ON: Nós gostaríamos de falar agora da língua portuguesa. Essa língua que vai das Américas à Ásia, que está nos quatro continentes. De que forma essa língua ajuda a senhora no seu trabalho e nos demais países de língua portuguesa. 

MVS: Bom. Ajuda muito. E até naquela dimensão, que há pouco referia, de Portugal ser um país aberto ao mundo e que tem procurado ser um exemplo de um país que constrói pontes com outros países e não muros. E que procura defender essa ideia de que nós vivemos num país, onde as migrações trazem coisas boas aos países, e não coisas más. Estamos a apostar nisso. Portugal tem uma relação muito próxima com os países que também falam português, uma relação que tem muitas dimensões de cooperação. Também nesta área de igualdade, também na resposta à pandemia. E é algo muito importante para nós, que nós todos gostamos de continuar e perseguir. 

Agora, só podemos fazê-lo através de ecrãs, mas espera-se que em muito breve possamos fazê-lo presencialmente. 

ON: Algo mais que a sra. gostaria de adicionar a essa entrevista? 

MVS:  Não. Eu acho que é preciso só termos em conta que esta pandemia pode trazer muito atraso na igualdade entre homens e mulheres. As mulheres, muitas vezes, tiveram que voltar às suas casas, acumular ainda mais trabalho entre cuidar de família e o trabalho em teletrabalho. Perderam muito emprego, perderam muitas horas trabalhadas, e nós temos sempre que ter presente, que temos que corrigir o que aconteceu aqui porque se não estaremos a falar de desigualdades futuras. Nos salários, na ocupação dos lugares de decisão, nas pensões, e portanto, precisamos responder a esta pandemia, tendo em conta que só recuperaremos as nossas economias, a nossa vida em sociedade se também recuperamos desta forma como a pandemia teve impacto mais negativo mais para mulheres do que para os homens.  

Como tem dito o secretário-geral das Nações Unidas, esta crise tem um rosto feminino, e é preciso respondermos tendo em conta essa desigualdade. 

FIM 

 

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