19 fevereiro 2021

Grupo de especialistas ressalta um país “cada vez mais polarizado”; milhares de combatentes participaram na violência em estados como Equatória Central, Warrap, Jonglei e Grande Pibor; segunda-feira marca primeiro ano do governo de transição criado após novo acordo de paz.

A violência continua assolando vastas áreas do Sudão do Sul, um ano depois da assinatura do Acordo de Paz Revitalizado para acabar com a guerra civil iniciada em 2013.  

Antes do aniversário do novo governo de transição, que é celebrado na segunda-feira, a Comissão de Direitos Humanos sobre o país alertou para “uma escalada maciça da violência perpetrada em um nível local.”  

Justiça de transição  

A publicação, apresentada esta sexta-feira em Joanesburgo, é a quinta desde que o grupo de especialistas foi criado pelo Conselho dos Direitos Humanos para investigar e relatar a situação sul-sudanesa. Os integrantes coletam e conservam provas para serem usadas por um mecanismo de justiça de transição.   

 

Foto: ONU/Isaac Billy
Encontro do presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, no centro, e o líder da oposição, Riek Machar, em 11 de setembro de 2019 em Juba.

A comissão destaca que ataques de grupos armados a civis provocaram centenas de mortes e centenas de milhares deslocados em 2020. As ações ocorreram nos estados de Equatória Central, Warrap, Jonglei e Grande Pibor.  

O Sudão do Sul declarou independência do Sudão em 2011, após décadas de guerra civil. O conflito teve início em finais de 2013 depois de divergências entre o presidente Salva Kiir e o vice-presidente Riek Machar.  

O relatório realça que as vítimas dos atos recentes são visadas de acordo com a origem étnica. As incursões teriam o apoio tanto do governo como das forças de oposição.  

Dimensão  

Para a presidente da Comissão de Direitos Humanos da ONU sobre o Sudão do Sul, Yasmin Sooka, a dimensão da violência ultrapassa a que foi registrada entre 2013 e 2019 no mais novo país do mundo.   

A representante destacou que mulheres e meninas foram “raptadas, estupradas por gangues e escravizadas sexualmente e, em alguns casos, são casadas à força”. 

 

Unmiss/Isaac Billy
Presidente da Comissão de Direitos Humanos do Sudão do Sul, Yasmin Sooka.

O membro da comissão, Andrew Clapham, disse que a escala da violência e o uso de armas mais recentes por grupos locais sugere o envolvimento de forças de segurança nacional, NSS, ou de atores externos.  

Entre junho de agosto de 2020, o estado de Jonglei registrou os “atos mais brutais” de violência, incluindo assassinatos e mutilações de civis, incêndios sistemáticos e deliberados de casas ou roubos de até 175 mil cabeças de gado.

Abusos  

Complexos de ONGs foram pilhados nessas incursões. Uma mulher da região contou à comissão que foi abusada por 10 dias consecutivos. Ela e seu grupo não cozinharam nem lavaram, mas foram “usadas como esposas para fazer sexo.” 

 

Unmiss/Isaac Billy
Documento destaca que mulheres e meninas foram “raptadas, estupradas por gangues e escravizadas sexualmente"

A comissão considera chocante o número de combatentes envolvidos nesses conflitos localizados. Somente no estado de Jonglei, cerca de 50 mil participaram num ataque à área de Padoy. Outros pelo menos 15 mil atuaram numa incursão a uma aldeia de Likuangole.  

Relatos de civis destacam ainda o uso de armas “mais recentes”, nunca vistas em ataques anteriores. Um deles disse que na cidade de Pibor viu armamento “usado pelo NSS, sendo vendido por poucas centenas de dólares” e que “todas as crianças têm armas”.

Identidade   

No documento, os especialistas  descrevem um Sudão do Sul “cada vez mais polarizado, onde se dá grande valor à identidade étnica acima da noção do que significa ser um sul-sudanês”.  

A recomendação feita às partes do conflito é que se envolvam de forma coletiva em ações para construir confiança, restaurar a dignidade, consolidar a unidade nacional e reconstruir a confiança na liderança nacional e nas instituições. 

 

PMA/Gabriela Vivacqua
Mulheres carregam ajuda humanitária do PMA em Thaker, no Sudão do Sul

 

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