Em discurso de aceitação do Nobel, PMA pede ao mundo que use riqueza para acabar com fome  BR

David Beasley recebendo Nobel da Paz em Roma
PMA/Rein Skullerud
David Beasley recebendo Nobel da Paz em Roma

Em discurso de aceitação do Nobel, PMA pede ao mundo que use riqueza para acabar com fome 

Assuntos da ONU

Diretor executivo David Beasley agradeceu reconhecimento em nome de 19 mil trabalhadores da agência e 100 milhões de pessoas passando fome no mundo; ele pediu ainda ajuda internacional para que não seja preciso “escolher quem vive e quem morre.” 

O diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, PMA, David Beasley, aceitou esta quinta-feira o Prêmio Nobel da Paz em nome da agência durante uma cerimônia virtual.  

Falando de Roma, o chefe do PMA disse que era seu “dever trágico” informar que “a fome está às portas da humanidade para milhões e milhões de pessoas na terra.” 

David Beasley lembrou que o mundo ainda enfrenta uma crise alimentar sem precedentes com
David Beasley, Chefe do PMA, em visita Sanaa, capital do Iémen, PMA/Marco Frattini

Crise 

Segundo ele, “o fracasso em evitar a fome destruirá tantas vidas e causará a queda de muitas coisas que amamos.” 

Beasley agradeceu o reconhecimento em nome do secretário-geral das Nações Unidas, diferentes agências, parceiros e doadores. 

Acima de tudo, ele disse que aceitava o prêmio em nome “dos 19 mil trabalhadores do PMA e todos aqueles que vieram antes deles, especialmente os que morreram no cumprimento do seu dever, e em nome dos 100 milhões de pessoas com fome” que a agência serve. 

O chefe do PMA afirmou que “a comida é o caminho para a paz” e que, hoje, o mundo tem “uma crise em mãos.” Para Beasley, o prêmio “é mais do que um agradecimento, é um apelo à ação.” 

Ele contou que devido a fatores como guerras, mudança climática, uso da fome como tática de guerra e pandemia existem 270 milhões de pessoas em risco de fome.  Desse número, 30 milhões dependem completamente de ajuda humanitária para sobreviver. 

Funcionário do PMA em asssentamento para deslocados na Nigéria
PMA/Oluwaseun Oluwamuyiwa
Funcionário do PMA em asssentamento para deslocados na Nigéria

Resposta 

Beasley afirmou que a humanidade precisa decidir como responder a essa situação realçando que o trabalho do PMA funciona.  

Primeiro, ele disse que “a comida é sagrada” e que “cada ser humano, seja de fé ou não, conhece o poder da comida não apenas para sustentar, mas para unir em volta de uma humanidade comum.” 

Beasley pediu que as pessoas imaginem que “cada mulher, homem, menina e menino que compartilha este planeta são iguais.” Ele apelou que se visualizasse o cenário desses efeitos em situações “da guerra, ao conflito, ao racismo, à divisão e à discriminação de todo tipo.” 

Ajuda do PMA chegando no Haiti
Ajuda do PMA chegando no Haiti, Foto ONU/Logan Abassi

Para o chefe da agência, o mundo pode estar “naquele que pode ser o momento mais irônico da história moderna.” 

Por um lado, depois de um século de avanços na eliminação da pobreza extrema, 270 milhões de pessoas estão à beira da fome. Por outro, existem US$ 400 trilhões em riqueza no mundo. 

Beasley contou que, “mesmo no auge da pandemia, em apenas 90 dias, US$ 2,7 trilhões de riqueza foram criados.” Segundo ele, o mundo só precisa de US$ 5 bilhões para salvar 30 milhões de vidas. 

Experiência 

O diretor executivo contou que muitos amigos lhe dizem que tem o melhor emprego do mundo, por salvar a vida de milhões de pessoas. Mas declarou que não vai “para a cama todas as noites pensando nas crianças que foram salvas, mas chorando pelas crianças que não se conseguiu salvar.” 

Beasley afirmou que, quando não existem fundos ou acesso suficiente, é preciso decidir quais as crianças que comem ou não e vivem ou não.  

O discurso de aceitação terminou com um pedido de ajuda da comunidade internacional, para que a agência não precise “escolher quem vive e quem morre.”