4 dezembro 2020

Mirko Manzoni realça dimensão regional da atuação de insurgentes; ex-embaixador suíço defende solução sustentável contra terrorismo após ataques que já deslocaram meio milhão no extremo norte; em entrevista à ONU News, de Maputo, representante enfatiza aposta na diplomacia preventiva para conter situação. 

Dezenas de milhares de moçambicanos continuam deixando suas casas após ataques de terroristas islâmicos na província moçambicana de Cabo Delgado. Homens, crianças e mulheres estão fugindo em busca de abrigo em outras áreas mais seguras, no norte do país.  

Cabo Delgado foi citado, esta semana, na apresentação do panorama sobre projeção de assistência humanitária da ONU para 2021 como um dos “novos picos de conflito em lugares antes mais pacíficos, que agora precisam de auxílio” internacional. 

Terrorismo 

Em entrevista à ONU News, de Maputo, o enviado pessoal do secretário-geral para Moçambique, Mirko Manzoni, explicou por que razão defende maior atenção internacional para a situação em Cabo Delgado.  

Acnur/Eduardo Burmeister
Em Moçambique, a IIlha de Matemo, em Cabo Delgado, abriga deslocados que fugiram da violência.

 

“O problema que temos no norte é um problema de terrorismo. O problema é que em Moçambique, e também na região, este problema não estava presente. Agora é igualmente difícil lançar o tema à agenda (internacional) de uma maneira construtiva. Demonstrar que o problema existe. Por que há anos atrás, no passado, o problema do terrorismo foi no Sahel. Aqui nesta região não havia nada. Acho que a comunidade internacional hoje não está a ver de uma maneira correta a urgência do problema. O problema é sério.” 

Nesta sexta-feira, durante um discurso ao Conselho de Segurança, o secretário-geral realçou a cooperação do Escritório de Contraterrorismo com o mecanismo da União Africana prevendo criar opções como parte de iniciativas para ajudar Moçambique envolvendo várias agências. 

Plataforma de díalogo 

Na entrevista, antes da reunião, o enviado defendeu uma ação mais forte no atual estágio da crise. Manzoni vê um papel internacional de nações mais próximas de Moçambique em favor de uma “plataforma de diálogo” com mais parceiros. 

“Tenho muitas informações, porque eu falo diretamente com o governo e a situação é difícil. Temos 500 mil pessoas deslocadas. Moçambique precisa de apoio humanitário, médico para deslocados e para também para os soldados diretamente.  Os insurgentes, os terroristas têm uma capacidade importante do ponto de vista de armas e tecnologia. É uma situação muito difícil. Mais ou menos a mesma que foi num país como o Mali no início. A vantagem hoje é que estamos a observar o início de uma crise. E podemos fazer, na minha opinião, se vamos contar com apoio os parceiros do Moçambique e da região, que uma crise mais grave possa ser evitada. Podemos resolver o problema antes que se torne um problema que depois levará vários anos e anos.” 

Foto ONU/Eskinder Debebe
Distribuição de comida na vila de Nacate, perto de Macomia, em Cabo Delgado

Cplp 

Marzoni assegura que o secretário-geral tem todo o interesse de lidar com o problema que agora é regional. Ele também apontou a relevância de nações com vínculos históricos como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp. 

“É importante a aproximação no sentido de que, quando falamos a mesma língua é mais fácil o diálogo. Os países que que que têm uma proximidade com Moçambique podem apoiar ainda no lado diplomático. Particularmente para com que Moçambique possa explicar em nível internacional, de uma maneira muito clara, o que o país precisa. Acho que nesse assunto, as Nações Unidas, em Nova Iorque, podem ajudar de uma maneira que Moçambique possa ser ouvido e possa explicar exatamente o que está aqui a ocorrer e qual é o problema. A minha opinião é que as Nações Unidas precisam de ajudar com uma diplomacia preventiva. Eu falo de uma maneira em que se possa oferecer a Moçambique uma plataforma para discutir.” 

Extremismo violento 

No mais recente pronunciamento sobre a crise no extremo norte, o secretário-geral reagiu a relatos de massacres realizados em novembro por grupos armados não estatais em aldeias de Cabo Delgado, que mataram dezenas de pessoas. 

António Guterres reiterou o compromisso das Nações Unidas em continuar a apoiar o povo e o Governo de Moçambique em necessidades humanitárias imediatas e esforços para defender os direitos humanos, promover o desenvolvimento e prevenir a propagação do extremismo violento. 

Vídeo do arquivo: 

 

 

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