Perspectiva Global Reportagens Humanas
Um veículo de manutenção limpa uma grande calha parabólica em uma usina termossolar em uma região desértica.

África perde cerca de US$ 88,6 bilhões por ano em fluxos ilícitos de capitais BR

Banco Mundial/ Dana Smillie Fluxos financeiros ilícitos privam África e seu povo de suas perspetivas.

África perde cerca de US$ 88,6 bilhões por ano em fluxos ilícitos de capitais

Desenvolvimento econômico

O valor equivale a 3,7% do Produto Interno Bruto, PIB, do continente, segundo Relatório 2020 sobre Desenvolvimento Econômico em África; documento revela que conter a fuga de capitais e dos fluxos financeiros ilícitos no continente poderia gerar novos fundos para responder à crise da Covid-19.

De acordo com as Nações Unidas, os países africanos precisarão arrecadar pelo menos US$ 200 bilhões para fazer frente aos custos socioeconômicos da pandemia, além dos gastos emergenciais com saúde. O continente perde cerca de US$ 88,6 bilhões em fluxos financeiros ilícitos por ano, o correspondente a 3,7% do Produto Interno Bruto, PIB. 

No Relatório Desenvolvimento Econômico em África 2020, a Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad,  indica que reter esses fundos no continente pode impulsionar a resposta da Covid-19 e permitir criar resiliência das economias africanas no futuro. 

Fronteiras 

Fluxos financeiros ilícitos são movimentos de dinheiro e outros ativos pelas fronteiras cuja origem, transferência ou uso são ilegais. Essas saídas quase equivalem à soma das entradas da ajuda ao desenvolvimento, na ordem de US$ 48 bilhões, aos  US$ 54 bilhões de investimento estrangeiro direto por ano ocorridos entre 2013 e 2015.

Uma mulher de camisa vermelha e botas pretas está agachada ao ar livre, lavando minério de ouro em uma bacia de plástico vermelha.
Pnuma/ Duncan Moore Relatório realça impacto dos movimentos ilegais relacionados à exportação de commodities da indústria extrativa.

 

Para o secretário-geral da Unctad, Mukhisa Kituyi, os fluxos financeiros ilícitos privam África e seu povo de suas perspetivas, minando a transparência, a responsabilidade e a confiança nas instituições africanas. 

Atividades como fluxo de capital ilícito, impostos e práticas comerciais, como facturamento incorreto de remessas comerciais e práticas criminosas, como mercados ilegais, corrupção ou roubo impulsionam o problema. 

Fluxos 

Entre 2000 e 2015, o total de capital ilícito com origem em África foi de US $ 836 bilhões. Em comparação com a dívida externa total de US $ 770 bilhões em 2018, isso torna a região  um "credor líquido para o mundo". 

O relatório realça ainda que os movimentos ilegais relacionados à exportação de commodities da indústria extrativa, que foi de US $ 40 bilhões em 2015, são o maior componente da fuga ilícita de capital da África.  

Essas estimativas do fluxo ilícito ainda estariam abaixo da dimensão real do problema e seu impacto na “grande drenagem de capital e receitas na África”. Os efeitos disso são minar a capacidade produtiva e as perspetivas da África de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 

Custos 

O documento explica que em países africanos com alto fluxo de capital ilícito, os governos gastam 25% menos em saúde e 58% menos em educação comparados e com países onde esse movimento de dinheiro é mais baixo. 

Nesses casos, as mulheres e meninas geralmente têm menor acesso à saúde e educação, sendo as que mais sofrem mais com os efeitos fiscais negativos desses movimentos. 

Grandes outdoors laranja exibindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo um sobre Igualdade de Gênero, são mostrados na Times Square, na cidade de Nova York.
Foto ONU/Manuel Elias Estatísticas ajudam em esforços para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

O estudo realça que África não será capaz de preencher a grande lacuna de financiamento para alcançar os ODSS, estimada em US$ 200 bilhões por ano, usando somente receitas governamentais e assistência ao desenvolvimento. 

Lidar com esses movimentos seria uma “grande fonte potencial de capital para financiar os investimentos” de que o continente carece em áreas como infraestrutura, educação, saúde e capacidade produtiva. 

Um exemplo disse é a Serra Leoa, onde as taxas de mortalidade de menores de cinco anos 105 por mil nascidos vivos em 2018. O índice está entre os maiores no continente. Ao restringir a fuga de capitais e investir uma parcela constante das receitas em saúde pública, o país poderia economizar e poupar a vida de 258 mil crianças nascidas por ano. 

Oportunidade 

O relatório mostra que a redução da fuga ilícita de capital poderia gerar fundos suficientes até 2030 para financiar quase metade dos US$ 2,4 trilhões necessários para adaptação e mitigação das mudanças climáticas dos países da África Subsaariana. 

Estes movimentos não são característicos de países específicos, mas sim de certas commodities de alto valor e baixo peso. De cerca de US$ 40 bilhões de commodities da indústria extrativa em 2015, 77% estavam concentrados na cadeia de abastecimento de ouro. A seguir estão diamantes com 12% e platina com 6%. 

O relatório destaca que esta descoberta oferece conhecimentos adicionais para pesquisadores e políticos que identificam as causas do problema e aos países exportadores de ouro. 

Uma pilha de notas de cem dólares dos Estados Unidos, com o retrato de Benjamin Franklin.
ONU África tem lacuna de financiamento para alcançar os ODSs estimada em US$ 200 bilhões por ano.