Guiné-Bissau: ONU cita “clima politicamente carregado” que eleva desconfiança
BR

10 agosto 2020

Enviada especial descreve cenário de acusações e atos de intimidação contra pessoas que se opõem à situação política; discursando no Conselho de Segurança, chefe da missão política pediu envolvimento das partes na promoção da estabilidade.

A representante especial do secretário-geral da ONU na Guiné-Bissau disse esta segunda-feira que eventos recentes provocaram “um clima politicamente carregado, com crescente desconfiança entre as partes envolvidas” no país.

Na apresentação do mais recente relatório ao Conselho de Segurança, por vieoconferência, Rosine Sori-Coulibaly disse haver acusações mútuas e relatos de atos de intimidação contra pessoas que se opõem à situação política.

Consenso

Cooperação da ONU com a Guiné-Bissau incluiu apoio ao ciclo eleitoral de 2019., by Alexandre Soares

O cenário traduz-se em “um ambiente hostil, que torna difícil que se chegue a um acordo em prol da estabilidade política e construção de consenso em torno das prioridades nacionais de consolidação da paz.”

A enviada disse ainda que enquanto as novas autoridades se concentram em consolidar o poder, o partido Paigc, que venceu as eleições legislativas do ano passado, “contesta a votação parlamentar de 29 de junho”. A sessão parlamentar aprovou o programa do governo de Nuno Nabiam, designado primeiro-ministro pelo proclamado presidente Umaro Sissoco Embaló.

Coulibaly disse que o Paigc continua a questionar a legalidade dessa sessão, alegando erros de procedimento e “denunciando ameaças e atos de intimidação contra membros do Parlamento” ocorridos antes da reunião. Mas realçou que esta força política ainda reitera o seu apelo de uma solução política para a crise.

Diante do desejo de formação de um governo de base ampla, tendo Nuno Nabiam como primeiro-ministro, a representante disse que as perspectivas de obter um avanço são baixas. Ela destacou a forte oposição do Paigc à adesão ao atual governo.

Estabilidade

Rosine Sori-Coulibaly defende uma solução sustentável que promova a estabilidade, na qual “todos os lados se comprometam” na Guiné-Bissau. Mas disse que, por agora, as partes fincam pé em suas posições.

Mulher nos arredores de Bissau vota nas eleições legislativas. , by Alexandre Soares

A mensagem destaca preocupações com a insegurança e as violações dos direitos humanos com ocorrências que aumentaram as tensões políticas.

Um dos eventos foi a operação de 26 de julho à Rádio Capital FM, considerada aliada da oposição, onde houve detenções arbitrárias e intimidação. Ela apontou denúncias de pessoas e políticos considerados opositores da atual administração.

Um outro fator com potencial de acirrar disputas é o desejo do presidente de “mudar o sistema de governança - de semipresidencial para presidencial - sob a nova Constituição.

Para a representante, esse cenário pode ocorrer na nova aliança parlamentar Madem-G15, seus apoiadores e o novo primeiro-ministro se a situação “não for cuidadosamente administrada e amplamente discutida, compondo assim ainda mais uma já frágil situação.”

Crise

Em 31 de dezembro, a ONU prevê encerrar o Escritório Integrado das Nações Unidas para a Consolidação da Paz na Guiné-Bissau, Uniogbis. A missão política apoia os esforços em busca de uma solução da atual crise, os desafios da Covid-19 e a atua na coordenação com a equipe da ONU no país.

Com o Fundo de Construção da Paz foram apoiados vários parceiros, incluindo agências das Nações Unidas e organizações da sociedade civil para que continuem sendo implementadas prioridades de consolidação da paz.

Rosine Sori-Coulibaly pediu que continuem os esforços internacionais em apoio ao país. Ela alertou que será essencial ter fundos para evitar um abismo financeiro, ao apelar ao auxílio dos países no Quadro de Cooperação com a Guiné-Bissau.

ONU News
Eleições na Guiné-Bissau em 2014

 

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