Banco Mundial e parceiros defendem acesso equitativo a água e ao saneamento na Covid-19
Em nova nota técnica com foco no Brasil, órgão junta-se ao Unicef e a Instituto Internacional de Águas de Estocolmo em análise que mostra que a pandemia exacerbou a desigualdade no acesso aos serviços e evidenciou necessidade de políticas públicas para o setor.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, o Banco Mundial e o Instituto Internacional de Águas de Estocolmo, Siwi, lançaram, na quarta-feira, a nota técnica “O papel fundamental do saneamento e da promoção da higiene na resposta à Covid-19 no Brasil”.
O documento traz uma análise sobre as ações implementadas no país e recomendações para a promoção de uma resposta mais eficaz e equitativa do setor à crise da Covid-19.
Hábitos
Segundo o estudo, a pandemia evidenciou as desigualdades no acesso ao saneamento, especialmente nas favelas, zonas rurais e comunidades indígenas. O documento mostra também a necessidade de políticas públicas que garantam a cobertura universal. Sem esses serviços, é difícil manter os hábitos de higiene recomendados para diminuir a propagação da Covid-19.
Christian Borja-Vega, economista sênior da área de Água do Banco Mundial, fala de algumas medidas tomadas pelo setor em resposta à crise e enfatiza que ainda é preciso fazer mais.
“O Banco Mundial vem monitorando as medidas adotadas no Brasil para garantir a prestação de serviços de água e esgoto durante a pandemia. Vemos que os estados, as companhias de saneamento, as agências reguladoras e prefeituras têm prestado auxílio aos usuários mais pobres. Por exemplo, adiando o vencimento das contas de água e esgoto. Além de garantir o fornecimento seguro de água para todos, é importante assegurar que os fornecedores de água e esgoto tenham acesso a pacotes de assistência financeira para atravessarem a crise”.
Contaminação externa
Dados do Programa Conjunto de Monitoramento da OMS/Unicef para Saneamento e Higiene, JMP, indicam que 15 milhões de brasileiros moradores de áreas urbanas não têm acesso à água potável segura, livre de contaminação externa e disponível em casa. Em áreas rurais, 25 milhões gozam apenas de acesso básico à água de fontes seguras, mas longe de seus lares.
Quando se trata de coleta e tratamento de esgoto, os números são igualmente alarmantes. Mais de 100 milhões de pessoas não têm acesso a uma rede segura. Desse total, 2,3 milhões ainda defecam a céu aberto.
Escolas
Nas escolas brasileiras, o cenário também chama a atenção. Segundo as estimativas do JMP, 39% não têm serviços básicos para lavagem das mãos. No norte do país, as desigualdades na cobertura de água e saneamento são ainda maiores. No estado do Amazonas, por exemplo, apenas 19% das escolas públicas têm acesso ao abastecimento de água.
Para a chefe do Território de Amazônia do Unicef, Anyoli Sanabria, melhorar o acesso à água e ao esgoto é uma das medidas fundamentais para que a volta às aulas seja segura.
“Neste momento em que os estados e municípios discutem a reabertura das escolas, eles precisam analisar qual é a situação da Covid-19 em sua área e também o nível de preparação das escolas. Um dos passos mais importantes para que as escolas se preparem propriamente será que elas possam assegurar o acesso a água e produtos de higiene, como sabão, e a disponibilidade de banheiros com tratamento adequado de esgoto.”
Assistência financeira
O estudo recomenda uma maior cooperação entre os setores de saneamento, saúde e educação do governo para oferecer mais atenção às populações vulneráveis.
O documento também aborda a criação de pacotes de assistência financeira para que os fornecedores de água e esgoto implementem planos de contingência e recuperação. Esses planos precisam se basear em metas claras de desempenho.
Finalmente, aconselha identificar e sanar as lacunas de acesso a serviços de água, esgoto e higiene em estabelecimentos de saúde, de forma a evitar a propagação da Covid-19 e outras doenças nesses locais.
Por Mariana Ceratti, do Banco Mundial Brasil.