Agências da ONU alertam que mundo pode não cumprir meta sobre Fome Zero 
BR

13 julho 2020

Número de pessoas que passam fome é de quase 690 milhões após aumento de 10 milhões somente no ano passado; pandemia pode lançar mais 132 milhões nessa situação; alguns países de línguas portuguesa reduziram insegurança alimentar, mas têm aumento de obesidade. 
 

No ano passado, quase 690 milhões de pessoas passaram fome, 10 milhões a mais que em 2018.

Por isso, o mundo corre o risco de não atingir mais o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, número 2, sobre Fome Zero.

Conclusões

Este é o resultado do relatório Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo de 2020, lançado nesta segunda-feira, em Roma.

O documento foi apresentado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, e mais quatro agências: o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, Ifad, o Fundo da ONU para a Infância, Unicef, o Programa Mundial de Alimentos, PMA, e a Organização Mundial da Saúde, OMS. 

Em entrevista à ONU News, a especialista da FAO Anne Kepple afirmou que as conclusões são uma grande preocupação.

“A gente está longe de alcançar o objetivo 2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A mesma coisa com a má nutrição. Alguns indicadores de má nutrição estão melhorando, estão pelo menos indo na direção certa. Por exemplo, em crianças com menos de cinco anos, a baixa estatura para a idade está melhorando, porém não com a velocidade necessária para alcançar os objetivos.”

Regiões e pandemia

A pesquisa mostra que o maior número de pessoas com fome vive na Ásia, mas a situação também aumenta rapidamente na África, e começa ser agravada pela pandemia de Covid-19. Estima-se que a doença possa lançar de 83 milhões a 132 milhões de pessoas numa situação de fome crônica até o fim deste ano.

Anne Kepple, que faz parte da equipe de Alimentação e Nutrição da Divisão de Estatística da FAO, é uma das coordenadoras da pesquisa. Ela destaca várias ações que os governos podem tomar para resolver estes problemas.

“São muitas frentes que precisamos trabalhar. É urgente. E precisamos trabalhar de uma forma mais coordenada e mais incisiva. Uma política óbvia é a promoção de apoio à agricultura familiar, que também vai ajudar na pobreza rural. É muito importante que os governos invistam em programas de proteção social, política pró-pobre, que visam diminuir a desigualdade. Essa é outra frente. A desigualdade está aumentando e com isso a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição também.”

Criança recebendo comida em Ukhiya, Cox’s Bazar, Bangladesh, PMA/Saikat Mojumder

Transformação

Em mensagem de vídeo, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que a conclusão do relatório era clara. Segundo ele, “se a tendência anual não for revertida, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2, Fome Zero, não será alcançado até 2030.” 

Para o chefe da ONU, “a transformação tem de começar agora” e, por isso, ele está convocando um Encontro de Cúpula sobre Sistemas Alimentares para 2021. 

Língua portuguesa

O relatório da ONU ressalta a evolução dos países lusófonos em várias áreas, como desnutrição e obesidade, entre os períodos de 2004-2006 a 2017-2019. 

Angola consegui reduzir a porcentagem da população com desnutrição de 52,2% para 18,6%. Já a obesidade entre os adultos passou de 6,8% para 8,2%. 

No Brasil, 4,1% da população eram desnutridos em 2004-2006, uma taxa que baixou para menos de 2,5%. Já a obesidade, por outro lado, passou de 20,1% para 22,1%. A pesquisa estima que os custos de saúde relacionados com a obesidade no país devem passar de US$ 5,8 bilhão em 2010 para US$ 10,1 bilhão em 2050. 

Em Moçambique, a insegurança alimentar teve uma ligeira descida de 33,4% para 32,6%, Ouri Pota

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Em Cabo Verde, a insegurança alimentara aumentou de 11,1% para 18,5%, no mesmo período, e a obesidade cresceu de 10,3% para 11,8%. Não existem dados sobre desnutrição na Guiné-Bissau, mas a obesidade subiu de 7,9% para 9,5%. 

Em Moçambique, a insegurança alimentar teve uma ligeira descida de 33,4% para 32,6%. A obesidade é de 7,2%. Em Portugal, menos de 2,5% da população sofrem de insegurança alimentar, mas a obesidade cresceu de 19% para 20,8%. 

O país de língua portuguesa no sudeste da Ásia, Timor-Leste, conseguiu reduzir a insegurança alimentar de 32,3% para 30,9%, mas a obesidade teve leve alta de 2,9% para 3,8%. Em São Tomé e Príncipe, a fome aumentou 9,2% para 12%, e o mesmo aconteceu com a obesidade, que afeta agora 12,4% dos adultos contra 10,7%, no passado.

Importância

Depois de diminuir constantemente por décadas, a fome crônica começou a aumentar lentamente em 2014. A Ásia continua acolhendo o maior número de desnutridos, 381 milhões, seguida pela África, 250 milhões, e América Latina e Caribe, 48 milhões. 

Em termos relativos, existem grandes disparidades regionais. A África é a área mais atingida e o fosso está aumentando, com 19,1% de sua população desnutrida. O valor representa mais que o dobro da taxa na Ásia, 8,3%, e América Latina e no Caribe, 7,4%. Se a tendência continuar, em 2030 o continente africano terá mais da metade de todos os casos de fome crônica do mundo. 

Dieta saudável

Em relação à qualidade da alimentação, o alto custo e baixa acessibilidade de alimentos nutritivos é um obstáculo para um grande número de famílias. 

Fome aumentou 10 milhões de pessoas no ano passado, Foto: ©Unicef/Andrea Campeanu

Uma dieta saudável custa muito mais que US$ 1,90 por dia, considerado o limiar de pobreza. Laticínios ricos em nutrientes, frutas, vegetais e alimentos ricos em proteínas são os grupos de alimentos mais caros do mundo. Segundo a pesquisa, uma dieta saudável custa cinco vezes mais do que alimentação com farinhas.  

A pesquisa afirma que pelo menos três bilhões de pessoas não podem pagar por uma dieta saudável. Na África Subsaariana e no Sul da Ásia, mais da metade da população vive nessa situação, que afeta também habitantes da América do Norte e Europa. 

Crianças

Como resultado, quase um terço das crianças com menos de cinco anos, 191 milhões, tiveram dificuldades no crescimento em 2019. Outros 38 milhões estavam acima do peso. 
 
Segundo o relatório, uma mudança global para dietas saudáveis ajudaria a combater o problema da fome e custaria menos dinheiro.  

Em 2030, os custos de saúde associados a dietas não saudáveis devem chegar a US$ 1,3 trilhão por ano. Já o valor social relacionado às emissões de gases de efeito estufa, estimado em US $ 1,7 trilhão, pode ser reduzido em quase 75%. 

 

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