Comissão de Inquérito diz que “há indícios de novos crimes de guerra na Síria”
BR

7 julho 2020

Grupo, formado por Conselho de Direitos Humanos, é presidido pelo professor brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro; ele disse à ONU News que é lamentável a falha da comunidade internacional em encontrar uma solução para o conflito, que começou em 2011.

A Comissão Internacional de Inquérito sobre a Síria afirmou que existem indícios de que “novos crimes de guerra estão sendo cometidos por todos os lados do conflito no país”. 

Em seu mais novo relatório sobre a violência na nação árabe, o grupo citou a ofensiva militar, lançada no ano passado, em Idlib, por forças a favor do governo do presidente Bashar al-Assad. O objetivo é recuperar áreas sob controle de grupos armados. 

Um hospital de 400 leitos em ruínas por causa do conflito na Síria.
Um hospital de 400 leitos em ruínas por causa do conflito na Síria. Foto: OMS Síria

Negociação

O presidente da Comissão Internacional, o professor Paulo Sérgio Pinheiro, falou à ONU News sobre a escalada da violência em Idlib. 

“O relatório, solicitado pelo Conselho de Direitos Humanos, trata do conflito na área de Idlib, na Síria. O embate entre forças do governo e pró-governo em direção à organização terrorista HTS e outros grupos armados pela conquista do território. Ataques aéreos foram desfechados contra escolas, hospitais e residências e provocara um êxodo de 1 milhão de pessoas.  

Hoje, se calcula que tenhamos 1,5 milhão na fronteira com a Turquia. E a situação é tão terrível que apesar da ameaça de ataques, a população gostaria de voltar para suas casas. No nono ano desse conflito, é lamentável que a comunidade internacional não tenha conseguido fazer a paz, uma negociação que ponha fim a todo esse terrível sofrimento para toda a população da Síria.”

Lei de guerra

A Comissão Internacional contou que o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) tem espalhado terror nas áreas controladas pelo governo. Num dos relatos de sobreviventes à Comissão, um grupo de crianças foi atacado na escola enquanto estudava e famílias inteiras foram bombardeadas enquanto fugiam da violência.

Pacientes morreram em ofensivas aéreas a hospitais e outras pessoas que faziam a feira perderam a vida nos bombardeios.
Para os integrantes da Comissão, está claro que os terroristas não respeitam nenhuma lei de guerra que proíbe ataques a civis.

Cidades e vilarejos

As forças sírias, apoiadas pelos militares aliados da Rússia, realizaram ataques por terra e por ar que dizimaram a infraestrutura do país e levaram ao esvaziamento de cidades e vilarejos. 

Centenas de mulheres, homens e crianças morreram nessas ações.  Várias áreas protegidas pela lei internacional no noroeste do país foram destruídas nos ataques, alguns deles realizados com bombas de fragmentação.

O relatório lista eventos ocorridos de novembro de 2019 a junho deste ano. Ao todo, foram documentadas 52 ofensivas de todas as partes incluindo 17 ataques a hospitais e outras instalações de saúde. Foram alvejados ainda nove feiras e mercados, 12 lares e 14 escolas.

O documento sugere que, se provados em tribunal, esses atos podem representar crimes de guerra. Os civis sírios não tiveram outra escolha a não ser fugir. De acordo com os especialistas da Comissão, as ofensivas podem ser consideradas ainda crimes contra a humanidade como atos desumanos, assassinatos e transferência forçada de pessoas.

Hospital para mulheres e crianças em Idlib, na Síria, seriamente danificado por ataques aéreos.
Foto: Unicef
Hospital para mulheres e crianças em Idlib, na Síria, seriamente danificado por ataques aéreos.

Jornalistas

Um dos crimes cometidos pelos terroristas do HTS foram detenção e tortura de opositores e pessoas com opiniões distintas à do grupo incluindo jornalistas.  Mulheres jornalistas foram impedidas de se movimentar livremente por causa da discriminação a mulheres e meninas.

A única mulher a integrar a Comissão, Karen AbuZayd disse que as violações dos direitos humanos são ultrajantes e que a população está desassistida. O outro membro da Comissão, Hanny Megally, contou que quase 1 milhão de pessoas obrigadas a fugirem de suas casas por causa da violência correm o risco agora de contrair a Covid-19.

Anos de conflito na Síria tiveram forte impacto humanitário
Unicef/Khydr Al-Issa
Anos de conflito na Síria tiveram forte impacto humanitário

Prestação de Contas

Ele pediu o fim de todos os ataques e um cessar-fogo imediato. Megally contou que mais do que nunca, os civis precisam de acesso à assistência humanitária que jamais pode ser objeto de políticas.

O especialista disse que os países-membros devem buscar a prestação de contas para os crimes listados no relatório. 

O documento deve ser levado ao Conselho de Segurança na próxima terça-feira no Conselho de Direitos Humanos.
 

 

 

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