Continuidade da aprendizagem em meio à crise do COVID-19 em Moçambique
BR

17 maio 2020

A coordenadora residente das Nações Unidas em Moçambique, Myrta Kaulard, e o director nacional do Banco Mundial para Seicheles, Maurício, Madagascar, Moçambique e Comores, Mark Lundell,  explicam como as crianças moçambicanas podem continuar aprendendo durante pandemia; leia artigo na íntegra*. 

Para a Rafina, de 13 anos, da Beira, o sentimento parece familiar. Apenas se passou um ano desde que o ciclone Idai atingiu a sua cidade e a sua escola foi novamente fechada. Desta vez, no entanto, não há prédios em colapso, ruas inundadas e pessoas desesperadas. O novo vírus Corona infiltrou-se em Moçambique em silêncio e, no entanto, pode ter um impacto muito mais devastador na vida da Rafina e na vida das crianças Moçambicanas do que qualquer desastre anterior.

Tal como noutros 191 países do mundo, onde 1,57 mil milhões de alunos estão afectados, em Moçambique foram fechadas desde 23 de Março 14.970 escolas e universidades, afectando mais de 8,5 milhões de estudantes. Esta foi uma decisão necessária que provavelmente salvará milhares de vidas, mas que tem um preço alto.

Em Moçambique foram fechadas desde 23 de Março 14.970 escolas e universidades, afectando mais de 8,5 milhões de estudantes

Com base nas lições recentemente aprendidas com o encerramento das escolas em resposta ao Ébola, sabemos que quanto mais tempo as crianças fiquem fora da escola, menor é a probabilidade de elas lá voltarem, aumentando o risco de caírem no analfabetismo. Em Moçambique, onde já mais de um terço dos estudantes abandonam a escola antes da terceira classe e menos de metade deles concluem o ensino primário, o impacto da pandemia nos resultados da aprendizagem poderá ser catastrófico.

Isto é particularmente verdade para meninas como a Rafina, cujas famílias vivem na pobreza. Em todo o mundo, a pressão sobre as famílias durante emergências é muitas vezes tão alta que muitas delas se veem obrigadas a mandarem os seus filhos trabalhar, ou a casarem prematuramente as suas filhas, como estratégia de sobrevivência. Como  resultado disso, a infância é interrompida, a escolarização é abandonada e os direitos da criança ficam comprometidos. Quando as crianças estão fora da escola, tornam-se mais vulneráveis e correm um risco maior de abuso e exploração.

Ciente deste contexto crítico, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH), com apoio da comunidade humanitária, conseguiu, após os ciclones, assegurar com sucesso que as aulas continuassem em "espaços provisórios de aprendizagem", montando tendas nas escolas. Desta vez, a natureza da emergência é diferente de tudo o que já vimos anteriormente, e as crianças não podem nem sequer reunir-se no mesmo lugar. Por consequência, a resposta também deve ser muito diferente – os “espaços provisórios de aprendizagem” têm de ser virtuais.

O MINEDH, com o apoio do Ministério da Saúde, está a trabalhar em conjunto com as Nações Unidas, o Banco Mundial, as principais agências bilaterais e outros parceiros de cooperação, na exploração de formas alternativas e inovadoras para garantir que a aprendizagem possa continuar à distância. Uma tarefa crítica de qualquer sistema de aprendizagem à distância é apoiar a capacidade dos professores de permanecerem próximos dos alunos, apesar de estarem fisicamente afastados deles. Para a maioria das crianças, as rádios comunitárias serão o meio mais acessível, mas uma variedade de outras oportunidades complementares de ensino à distância, como a TV, plataformas digitais ou programas de recuperação e aceleração, também podem ser implementadas. Para serem funcionais, todas essas iniciativas exigirão uma coordenação sólida e sistemas eficazes de monitoramento e apoio, que ajudarão a mitigar a exacerbação das desigualdades no sistema educacional.

Para a maioria das crianças, as rádios comunitárias serão o meio mais acessível

O MINEDH, juntamente com os parceiros da educação, está a liderar o processo para garantir que as necessidades dos mais vulneráveis, como crianças com deficiência ou crianças deslocadas como resultado dos ciclones dos últimos anos, sejam tidas em conta. Os programas de aprendizagem à distância estão a ser adaptados para que nenhuma criança seja deixada para trás. Para muitas crianças como a Rafina, que em tempos normais faziam a principal refeição na escola, novas formas de organizar a alimentação escolar poderiam aliviar parte da pressão económica das suas famílias e servir de incentivo para que as crianças continuassem a sua educação à distância.

Embora ninguém possa prever com certeza por quanto tempo esta situação prevalecerá, a União Africana recomenda que se planeie com antecedência o eventual retorno às salas de aula, de forma a garantir que as escolas reactivadas proporcionem um ambiente seguro, limpo e higiénico para que as crianças possam regressar a elas.

A Rafina, na sua tenra idade, já passou por mais emergências do que muitos de nós vivemos nas nossas vidas. A melhor coisa que pode ser feita para a tornar a ela e à sua família mais resilientes a futuros desastres é ajudá-la a obter uma educação sólida. Para esse fim, as Nações Unidas e o Banco Mundial continuarão a apoiar o MINEDH, os professores, as comunidades e o país.
 

*Parceria com o escritório da coordenadora residente das Nações Unidas em Moçambique.

 

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