Covid-19: FAO desaconselha corrida aos supermercados, dizendo que não há ruptura de estoques 
BR

26 março 2020

Em entrevista à ONU News, diretora do escritório em Nova Iorque afirma que existem cereais e produtos básicos suficientes para garantir mercado; apesar disso,  existem medidas que os governos precisam tomar para evitar uma crise causada pelo novo coronavírus nos próximos meses.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, FAO, está aconselhando contra a corrida aos supermercados durante a pandemia de covid-19.

Em entrevista à ONU News, a diretora do escritório da FAO em Nova Iorque, Carla Mucavi, falou sobre os impactos que o novo coronavírus pode ter na cadeia alimentar em todo o mundo. 

Diretora do escritório da FAO, em Nova Iorque, Carla Mucavi, Foto FAO

Abastecimento

Segundo a especialista, pesquisas da ONU mostram que ainda não existem rupturas nos bens essenciais. A situação deve manter-se nas próximas semanas. 

“Neste momento, estudos da FAO indicam que não há, de facto, nenhuma indicação de ruptura de estoques. Olhando para o mercado global, há cereais e produtos básicos suficientes para garantir o mercado. Mas sabemos que esta pandemia não termina hoje, está acelerando e tudo indica que irá afetar outros países, continentes. Diria que, abril, talvez maio, poderemos começar a ressentirmo-nos no abastecimento, mas neste momento tudo indica que a situação está controlada.” 

Falando de Nova Iorque, Carla Mucavi lembrou as cenas de supermercados vazios que se repetiram por todo o mundo nas últimas semanas, dizendo que devem ser evitadas. Para a especialista, não existe necessidade de uma corrida aos mercados.

 “Não há necessidade de açambarcamento de alimentos, mesmo por ética pessoal. Sabemos que açambarcando alimentos impedimos que outros possam ter acesso a esses mesmos alimentos. É claro que, com as restrições, a pessoa não está segura em sair, ir ao mercado todos os dias, e prefere ter algum abastecimento doméstico que impeça de ter de sair e se expor. Mas temos de agir com responsabilidade. Há medidas que estão sendo tomadas a nível global para permitir que, de facto, o estabelecimento de alimentos seja estável.”

Impactos 

Apesar do cenário de estabilidade, Carla Mucavi afirma que nos próximos meses a pandemia “terá certamente efeitos na cadeia de abastecimento de alimentos a nível mundial.”

Segundo a diretora, a cadeia de abastecimento de alimentos é uma rede complexa, que envolve vários atores e processos, desde a produção, ao processamento, armazenamento e transporte, que serão atingidos pelas medidas de combate ao covid-19.

“Quando a gente fala da restrição e não movimentação de pessoas e bens, restrição de transporte, encerramento de fronteiras, falamos do encerramento de várias atividades comerciais, pessoas que estão a perder o emprego, ficam com menos renda, têm menos acesso a alimentos, porque já não os podem comprar.  É um conjunto de fatores que vai determinar esta interferência no mercado.”

A representante da FAO explicou como essas restrições podem ter efeitos no dia a dia. O fim do movimento de trabalhadores sazonais que viajam de uma região para outra, por exemplo, pode levar à queda da produção. Em mercados que foram fechados, pequenos agricultores não poderão colocar produtos no mercado. 

Ações

Para evitar uma crise nos próximos meses, Mucavi destacou o que deve ser feito por Estados-membros e populações. Em relação aos governos, ela enumerou um conjunto de medidas. 

“É preciso que os governos garantam acesso aos alimentos, sobretudo, para as populações vulneráveis. Temos populações que estão em situação de crise humanitária. Mas também é preciso, por exemplo, que se limite a restrição nas taxas de importação de alimentos. Estamos a falar da restrição dos transportes, da circulação, os governos começaram a impor taxas elevadas de importação, isso vai contribuir para o escasseamento de alimentos nos mercados. Tem de haver um avanço nas negociações do mercado e comércio. Penso que é importantíssimo.  Medidas econômicas que poderão referir uma certa estabilidade.”

A especialista terminou afirmando que o mundo precisa “se precaver para que, de facto, essa crise não irrompa.” Segundo ela, “as condições não são muito apropriadas, devido a todas as restrições que o mundo está a enfrentar.”      
 

 

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