Venezuela: Um terço das pessoas enfrenta insegurança alimentar, diz ONU
BR

25 fevereiro 2020

Programa Mundial de Alimentos realizou avaliação, a convite do governo de Nicolás Maduro, sobre a situação e carências nos lares do país; estudo recebeu 8.375 questionários; para sobreviver, 33% dos lares pesquisados aceitaram trabalho em troca de comida e 20% venderam pertences da família para comprar alimentos.

A crise na Venezuela lançou um em cada três cidadãos do país numa situação de insegurança alimentar ou de necessidade de assistência para obter comida.

Esta é a conclusão da Avaliação de Segurança Alimentar (FSA, na sigla em inglês), conduzida pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA.

Um garoto pede esmola nas ruas de Caracas, capital da Venezuela. Foto: Unicef/Velasquez

Autonomia

A agência da ONU esteve no país, a convite do governo da Venezuela, e coletou mais de 8,3 mil questionários de lares venezuelanos sobre a questão alimentar.

O PMA afirma que obteve independência e acesso sem impedimentos para realizar o trabalho, e também contou com autonomia na formulação do estudo.

A Venezuela segue o padrão da Avaliação de Segurança Alimentar de Emergência do PMA. Os resultados são baseados na análise dos dados dos lares entrevistados em nível comunitário.

Segundo PMA, mais de 2,3 milhões de venezuelanos ou 7,9% da população estão enfrentando insegurança alimentar severa. Outros 7 milhões ou 24,4% dos cidadãos do país vivem uma situação moderada.

Mesa

A agência da ONU concluiu que 32,3% da população, um em cada três venezuelanos, estão sofrendo com a insegurança alimentar ou em necessidade de assistência.

A crise política na Venezuela levou 60% dos cidadãos do país a gastar todas as suas economias na compra de alimentos. Para colocar comida sobre a mesa, 20% dos venezuelanos tiveram que vender os pertences da família.

Um terço dos lares entrevistados contou ter aceitado trabalho em troca de comida.

A prevalência da insegurança alimentar na Venezuela foi concluída com base em análise sobre padrões de consumo, alimentos e subsistência.

Muitas famílias disseram que ainda conseguiam comprar comida, mas pagando um preço alto de sacrificar seus bens e arriscar suas subsistências.

Os indicadores do PMA revelam que 17,8% dos lares pesquisados estão num nível inaceitável de consumo alimentar.

Unicef/ Santiago Arcos
Mais de 4,5 milhões de pessoas deixaram a Venezuela por causa da intensificação da crise política, iniciada em 2015.

Lentilhas

A falta de diversidade na dieta é uma grande preocupação. As famílias consomem cereais, raízes e tubérculos, diariamente, e complementam a ingestão de cereais com lentilhas e feijões três vezes por semana. Já os derivados de leite são consumidos quatro dias por semana.

Carnes, ovos, peixes, vegetais e frutas apenas chegam à mesa das famílias pesquisadas menos que três vezes por semana.

O PMA revelou que 74% das famílias entrevistadas tiveram que reduzir a qualidade e a variedade da comida consumida. Seis em cada 10 lares foram forçados a reduzir o tamanho da porção de suas refeições.

A agência da ONU afirma que a falta de nutrientes básicos não será resolvida a curto prazo. Uma situação que afeta os mais vulneráveis incluindo crianças, idosos, grávidas e mulheres amamentando.

Ocha/Gema Cortes
Mark Lowcock, subsecretário-geral das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários, visita um hospital que atende um milhão de pessoas em Caracas, na Venezuela.

Receita

Sete em cada 10 venezuelanos contaram que os alimentos estão disponíveis, mas o acesso a eles se torna difícil por causa dos altos preços se considerada a receita de cada lar.

A hiperinflação da Venezuela também está afetando a segurança alimentar. 59% dos lares entrevistados não tinham dinheiro suficiente para comprar os alimentos. Já 65% não podiam adquirir outros produtos como itens de higiene, roupas e calçados.

Metade dos questionados afirmou que a situação atual causou prejuízos como redução do salário ou demissão de um ou dois empregos. E 37% perderam o único trabalho ou o negócio.

Atualmente, 18% dos lares venezuelanos dependem da assistência do governo e da proteção de sistemas sociais para sobreviver.

Remessas

O fluxo constante de migrantes permanece no país. Muitos estão recebendo ajuda da família em forma de remessas. A crise venezuelana também está gerando uma perda no número de professores, médicos, cientistas e outros trabalhadores qualificados.

A avaliação do PMA coletou dados sobre o acesso a serviços básicos como água, saneamento, eletricidade para entender as condições de vida dos entrevistados.

As famílias estão fortemente preocupadas com a deterioração dos serviços. Quatro em cada 10 lares sofreram interrupção diária de fornecimento de energia e 72% recebem gás de cozinha de forma irregular. Cerca de 40% dos lares também tiveram a entrega de água interrompida, o que leva que muitas famílias tenham que comprar água engarrafada ou usem caminhão-pipa para ter acesso ao produto.

O estudo constatou que 25% dos lares entrevistados não tinham acesso à água potável.

 

 

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