Pnuma: dez impactos dos incêndios florestais australianos
BR

26 janeiro 2020

Estimativa é de que um bilhão de animais, e muitos outros morcegos e insetos, provavelmente morram nas próximas semanas e meses como resultado da perda de habitat e fontes de alimento; segundo agências de notícias, mais de 18 milhões de hectares foram queimados.

De acordo com a Organização Mundial de Meteorologia, OMM, o ano de 2019 foi o segundo ano mais quente já registrado após 2016. A década passada ​foi marcada por uma diminuição das quantidades de gelo, níveis recordes da subida do mar, aumento do calor, acidificação dos oceanos e condições climáticas extremas.

A OMM também observa que o ano de 2020 já começou da mesma forma que 2019 terminou, e destacou a situação da Austrália, que teve o ano mais quente e seco já registrado, o que teria contribuído para os “enormes incêndios florestais que foram arrasadores para pessoas, propriedades, vida selvagem, ecossistemas e meio ambiente.”

Para destacar os efeitos dessas mudanças e dos incêndios florestais que atingiram a Austrália no último mês, o Programa da ONU para o Meio Ambiente, Pnuma, preparou uma lista com dez impactos para o país.

Queensland Fire and Emergency Services
Pelo menos 24 pessoas morreram desde o início dos incêndios, milhares ficaram desabrigadas com o espalhar do fogo que devastou uma área equivalente a mais que todo o território da Bélgica.

 

1. Impactos físicos

Segundo agências de notícias, mais de 18 milhões de hectares foram queimados na temporada australiana de incêndios florestais 2019-2020 em meados de janeiro. Foram destruídos mais de 5,9 mil edifícios, incluindo mais de 2,8 mil casas. Além das mortes humanas, milhões de animais foram mortos.

 

2. Impactos ecológicos e na biodiversidade

Após a devastação inicial dos incêndios, os impactos ainda estão sendo observados. A estimativa é de que um bilhão de animais, e muitos outros morcegos e insetos, provavelmente morram nas próximas semanas e meses como resultado da perda de habitat e fontes de alimento.

Essa perda faz parte de um cenário muito maior de um mundo em que a biodiversidade está em declínio acentuado. O Pnuma destaca que o mundo está perdendo a vida selvagem em uma escala cada vez maior, com impactos em ecossistemas vitais para a produção global de alimentos.

A agência da ONU lembra que a biodiversidade terrestre do mundo está concentrada nas florestas. Elas abrigam mais de 80% de todas as espécies terrestres de animais, plantas e insetos.

Por isso, quando as florestas queimam, a biodiversidade da qual os seres humanos dependem para sua sobrevivência a longo prazo também desaparece. Com mais de um milhão de espécies atualmente em extinção, se nada for feito, eventos climáticos extremos como "mega-incêndios" se tornaram uma preocupação crescente para a sobrevivência das espécies.

 

3. Saúde pública

Como resultado da intensa fumaça e poluição do ar decorrentes dos incêndios, os relatórios de janeiro de 2020 indicaram que Canberra, capital da Austrália, teve o pior índice de qualidade do ar entre todas as grandes cidades do mundo.

O Pnuma explica que incêndios florestais produzem fumaça prejudicial que pode causar fatalidades. Eles geram partículas finas de poluição do ar, o que ameaça diretamente a saúde humana, mesmo durante exposições relativamente curtas.

Perto do fogo, a fumaça é um risco à saúde, pois contém uma mistura de gases e partículas perigosa que pode irritar os olhos e o sistema respiratório. Os efeitos da exposição e inalação de fumaça variam de irritação ocular e do trato respiratório a distúrbios mais graves, incluindo função pulmonar reduzida, bronquite, asma exacerbada e morte prematura.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, idosos, pessoas com doenças cardiorrespiratórias ou doenças crônicas, crianças e pessoas que trabalham ao ar livre são particularmente vulneráveis.

Queensland Fire and Emergency Services
Dois bombeiros em Queensland, na Austrália, onde os piores incêndios florestais vistos em décadas estão devastando grandes áreas do país.

 

4. Os impactos que cruzam fronteiras

A fumaça dos incêndios florestais pode percorrer grandes distâncias. Ela é frequentemente empurrada para a estratosfera pelo calor dos incêndios.

Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, OMM, a fumaça dos incêndios florestais na Austrália viajou pelo Pacífico e pode ter chegado à Antártica. Ela levou a uma perigosa qualidade do ar nas principais cidades do país e afetou a Nova Zelândia e cidades da América do Sul depois que a fumaça atingiu a Argentina e o Chile.

 

5-Custos para a saúde mental

Incêndios não causam apenas danos físicos. O Pnuma destaca que muitas pessoas sofrem traumas mentais devido à evacuação de emergência e à perda de lares, animais de estimação, pertences, gado ou outras fontes de subsistência.

Na Austrália algumas comunidades se viram incapazes de evacuar rapidamente. A perda de eletricidade fez com que os postos de combustível parassem de funcionar e até mesmo, chegou a bloquear estradas, mantendo as pessoas presas em áreas de alto risco.

Algumas delas foram forçadas a buscar segurança nas praias e nos barcos, enquanto assistiam tempestades de fogo sem precedentes. Tais experiências podem ter impactos duradouros na saúde mental nas comunidades afetadas.

 

6. Custos econômicos

Os custos dos incêndios para a economia australiana ainda estão sendo analisado, mas o Pnuma aponta que está claro que a infraestrutura foi danificada e que os impactos se estendem a setores como agricultura e turismo. Algumas empresas e instituições foram forçadas a fechar suas portas durante períodos de níveis excessivos de poluição do ar.

Queensland Fire and Emergency Services
Os bombeiros de Queensland, na Austrália, enfrentam o incêndio que ameaça as comunidades locais.

 

7. Mudança Climática

Os incêndios florestais não só foram mais prováveis ​​e intensos devido às mudanças climáticas, como também aumentaram o problema. O Pnuma explica que até a temporada de incêndios de 2019-2020 na Austrália, pensava-se que as florestas do país reabsorvessem todo o carbono liberado nos incêndios em todo o país.

Isso significaria que as florestas alcançaram zero emissões líquidas. No entanto, o aquecimento global está fazendo com que os incêndios queimem áreas verdes com mais intensidade e frequência e de acordo com o programa de monitoramento Copernicus, os incêndios florestais de 2019-2020 já emitiram 400 megatoneladas de dióxido de carbono na atmosfera.

Este índice equivale às emissões médias anuais de dióxido de carbono da Austrália nos últimos três meses. Isso aumentará as emissões anuais de gases de efeito estufa da Austrália, contribuindo para o aquecimento global e aumentará a probabilidade de mega-incêndioss recorrentes que liberarão ainda mais emissões.

 

8. Poluição

As cinzas dos incêndios chegaram às áreas de recreação das escolas, nos quintais e estão sendo levadas pelas praias da Austrália, pelas fontes de água doce e bacias hidrográficas. O Pnuma diz que os locais de captações de água potável ficam tipicamente em áreas de floresta e, portanto, são vulneráveis ​​à poluição por incêndios florestais.

A cinza do fogo contém nutrientes, como nitrogênio e fósforo, e o aumento das concentrações de nutrientes podem estimular o crescimento de cianobactérias, comumente conhecidas como algas verde-azuladas.

As cianobactérias produzem produtos químicos que podem causar uma série de problemas de qualidade da água, incluindo mau sabor e odor e, às vezes, produtos químicos tóxicos. Durante um incêndio, nuvens de fumaça, cinzas e outros detritos são levados pelo vento e se espalham.

Às vezes eles chegam ao oceano, onde acrescentam nutrientes. Quando os solos queimados atingem córregos e rios, eles fertilizam as plantas aquáticas e as algas.

Segundo o Pnuma, com moderação, os nutrientes extras podem ter benefícios. Mas, eles também podem fertilizar demais e causar excesso de crescimento de algas.

As algas absorvem oxigênio na água para crescer e esgotam o oxigênio dissolvido quando morrem e se decompõem, o que pode asfixiar peixes e outras formas de vida marinha, com impactos localizados na biodiversidade. O mesmo pode ser verdade em ambientes oceânicos, onde a fumaça demonstrou ter um impacto negativo nos ecossistemas marinhos em vários incidentes anteriores.

Como exemplo, o Pnuma cita a neblina dos incêndios florestais registrados na Indonési, que matou os recifes de coral no final dos anos 90, de acordo com um estudo na Science.

Foto: Serviços de Emergência e Incêndio em Queensland
Na Austrália algumas comunidades se viram incapazes de evacuar rapidamente.

 

9. Impactos agrícolas

Os incêndios florestais queimaram pastagens, matou o gado e destruiu os vinhedos. O crescimento e recuperação dessas áreas pode aumentar o uso recursos hídricos, que já são prejudicados pela seca.

O Pnuma diz que relatórios indicam que o suprimento de laticínios do país provavelmente será o mais atingido. As regiões de Victoria e Nova Gales do Sul, os principais estados produtores de leite da Austrália, sofreram a maior perda de terras agrícolas e danos à infraestrutura.

A produção de carne, lã e mel também pode ser afetada. Cerca de 13% do rebanho nacional de ovinos está em regiões que foram significativamente impactadas e outros 17% em regiões parcialmente impactadas, segundo a Meat & Livestock Australia.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, Ipcc, em seu relatório de 2019 sobre Mudanças Climáticas e Terras, destacou que as mudanças climáticas já afetaram a segurança alimentar e o setor agrícola devido ao aquecimento, mudança nos padrões de precipitação e maior frequência de alguns eventos extremos. Em algumas áreas áridas, o aumento da temperatura do ar na superfície da terra, a evapotranspiração e a diminuição da quantidade de precipitação, em interação com a variabilidade climática e as atividades humanas, contribuíram para a desertificação. Essas áreas incluem a Austrália.

 

10. Mudanças nas atitudes do público

O Pnuma diz que embora os australianos estejam sujeitos a campanhas de desinformação e tentativas direcionadas para minar a ligação entre as mudanças climáticas e os incêndios florestais mais intensos, esta temporada de incêndios florestais deu aos australianos e ao mundo que observava o que estava acontecendo no país uma visão das catástrofes humanitárias, ecológicas e econômicas de um clima mais quente e em mudança. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e outras agências das Nações Unidas continuarão usando suas plataformas digitais para compartilhar informações e fatos precisos sobre a ciência das mudanças climáticas e como a probabilidade e a intensidade de situações extremas e trágicas de eventos climáticos como este está aumentando.

 

 

 

 

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