Sobrevivente brasileira relembra 15 anos de tsunami que afetou 14 países na Ásia
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26 dezembro 2019

Em entrevista à ONU News, médica Karina Dubeux fala sobre desastre do qual se salvou enquanto mergulhava; tragédia matou pelo menos 227 mil pessoas; Indonésia, Sri Lanka, Índia e Tailândia foram os mais atingidos. 

Há exatos 15 anos, em 26 de dezembro de 2004, o mundo recebeu, em choque, as primeiras imagens de um tsunami no Oceano Índico, que provocou grande destruição, um dia após as celebrações do Natal.

Pescadores de Tamil Nadu, na Índia, vasculham os destroços de sua vila após o tsunami de 2004 no Oceano Índico. Foto: Ami Vitale

Ondas gigantes, geradas por um terremoto de 9.2 na escala Richter, levaram à morte de pelo menos 227 mil pessoas em 14 países, segundo Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres. Os mais atingidos foram Indonésia, Sri Lanka, Índia e Tailândia.

Danos

O tsunami deixou 125 mil feridos e mais de 1,7 milhão de pessoas perderam suas casas. A conta dos danos foi de quase US$ 10 bilhões, de acordo com o Banco Mundial.

Cerca de 9 mil turistas estrangeiros, que estavam de férias nos países afetados perderam a vida. Poucos tiveram a sorte da médica brasileira Karina Dubeux, que sobreviveu ao tsunami. Antes do aniversário de 15 anos da tragédia, ela conversou com a ONU News, e lembrou que só se salvou porque decidiu mergulhar, na Tailândia, no momento em que as ondas gigantes chegaram ao litoral.

Turbilhão

“A gente estava mergulhando na hora em que ocorreu o tsunami, completamente inocentes. Era o começo de umas férias. A gente saiu para mergulhar num dia absolutamente tranquilo, com o mar parecendo uma lagoa, bem sossegado. Eu e o meu ex-marido, saímos com mais três mergulhadores que estavam fazendo a sua primeira experiência com mergulho e mais os guias. E a gente foi tomado por essa onda de surpresa mesmo, embaixo da água. E tudo o que a gente sentiu foi uma corrente em forte de turbilhão. Parecia uma batedeira em baixa d’água. Mas daí a pensar em uma possiblidade de tsunami era uma coisa bem remota.”

Superfície

A médica conta que só quando voltaram para a superfície, eles começaram a descobrir o que tinha acontecido. Pescadores que se aproximaram disseram que uma onda muito grande tinha passado e lançado um barco com sete turistas contra as pedras na praia de Maya Bay, na ilha tailandesa de Phuket, que serviu de cenário para o filme “A Praia”, estrelado por Leonardo DiCaprio.

A brasileira Karina Dubeux foi uma das sobreviventes do tsunami que ocorreu no Oceano Índico em dezembro de 2004. Foto: Arquivo pessoal

Quando conseguiram retornar ao hotel, após quase duas horas, perceberam a escala da destruição. Karina e o marido, também médico, começaram a socorrer  alguns feridos no hotel onde estavam.

“Faz 15 anos essa história e é uma história muito marcante. Eu acho que todo o sobrevivente começa a ter um olhar muito mais humano, de valorização da vida, do indivíduo. Eu sou médica, então eu acho que eu me tornei um ser humano mais disponível e eu tenho consciência de que realmente eu ganhei uma outra vida, eu ganhei uma outra chance. Eu tenho certeza que a minha missão não tinha acabado.”

Resiliência

A ONU destaca que a tragédia no Oceano Índico mostrou como o mundo é vulnerável aos riscos naturais.

Uma medida importante para salvar vidas que emergiu do desastre foi o Sistema de Alerta de Tsunami no Oceano Índico, que fornece alertas através de três centros de observação regionais: Índia, Indonésia e Austrália, e uma rede de 26 centros nacionais de informações sobre tsunami. É um sistema eficiente que disseminou alertas precoces em oito minutos após o terremoto de Banda Aceh em 2012.

Outras etapas incluíram a construção de edifícios mais aptos a suportar um risco.

De acordo com a ONU, até 2030, cerca de 50% da população mundial viverão em áreas costeiras expostas a inundações, tempestades e tsunamis. Por isso, o investimento em infraestrutura resiliente, sistemas de alerta precoce e educação é fundamental para salvar pessoas e proteger seus ativos contra o risco de tsunamis no futuro.

Guterres

Em mensagem para marcar o Dia Mundial da Conscientização sobre Tsunamis, em 5 de novembro, o secretário-geral da ONU lembrou os 15 anos do aniversário do tsunami no Oceano Índico. António Guterres disse que desde então, o mundo registrou “grandes melhorias nos sistemas de alerta precoce, não apenas no Oceano Pacífico, mas também no Oceano Índico, no Caribe, no Atlântico Nordeste, no Mediterrâneo e outros.”

O chefe das Nações Unidas destacou que como resultado desses avanços, muitas vidas foram salvas”, mas que é “evidente pelas crescentes perdas econômicas nos últimos 20 anos” que o mundo ainda não “aprendeu completamente a importância da infraestrutura crítica à prova de desastres.”

Para Guterres, “isso é essencial para evitar a interrupção de importantes serviços públicos que podem ocorrer durante tsunamis, terremotos e eventos climáticos extremos.” Ele lembrou que cerca de “680 milhões de pessoas vivem em zonas costeiras baixas e que em 2050, esse número poderá ultrapassar 1 bilhão.”

Conscientização

Quatro anos após a tragédia que viveu, Karina Dubeux retornou à Tailândia. Como sobrevivente, ela diz que a conscientização das pessoas é essencial sobre este tipo de desastre.

“Na época, muita gente não sabia que era um tsunami. Inclusive lá, na Ásia, não tinha nenhum sistema de evacuação, de aviso da onda em tempo. Então, eu acho que quanto mais se chamar atenção para os tsunamis, porque eu acho que muitos ainda estão por vir, a natureza está meio em fúria com as agressões contra ela, eu acho que a população estando avisada é muito bom. Eu tive a oportunidade de voltar à Tailândia quatro anos depois do tsunami, e vi placas de evacuação, orientação para a população, para onde correr, fugir se houver um tsunami novamente, e eu acho que quanto mais orientada a população, eu acho que é de grande valia. Basta ver a menina que durante uma aula de geografia ela prestou atenção de que antes do tsunami haveria um recuo do mar e ela pode salvar algumas pessoas onde ela estava.”

Vista da destruição causada pelo tsunami no Oceano Índico de 26 de dezembro de 2004 em Point Pedro, uma pequena vila de pescadores no norte do Sri Lanka. Foto: ONU/Evan Schneider

Memoriais

Segundo a ONU, para marcar o desastre ocorrido há 15 anos, vários eventos foram agendados na província indonésia de Aceh, onde aldeias inteiras foram arrasadas e mais de 125 mil pessoas morreram. Na Tailândia, onde mais de 5,3 mil pessoas morreram, incluindo turistas que visitavam ilhas no mar de Andaman. As autoridades realizaram uma cerimônia e pediram mais conscientização e preparação para desastres.

Sobreviventes de Ban Nam Khem, a vila tailandesa mais atingida, realizarão uma vigília à noite. Pelo menos 1,4 mil pessoas perderam a vida quando as ondas atingiram a vila de pescadores.

Na Índia, onde mais de 10 mil pessoas morreram no tsunami, os sobreviventes também realizarão cerimônias em memória das vítimas. Mais de 35 mil pessoas morreram no Sri Lanka.

Tsunamis

Tsunamis são eventos raros, mas podem ser extremamente mortais. Nos últimos 100 anos, já provocaram a perda de mais de 260 mil vidas, ou uma média de 4,6 mil por desastre, superando qualquer outro risco natural.

O termo "tsunami" é uma combinação das palavras japonesas "tsu", que significa porto, e "nami", que significa onda. O fenômeno é uma série de ondas enormes criadas por um distúrbio subaquático, geralmente associado a terremotos que ocorrem abaixo ou perto do oceano.

Erupções vulcânicas, deslizamentos submarinos e quedas de rochas costeiras também podem gerar um tsunami, assim como um grande asteroide que afeta o oceano. Estes desastres se originam de um movimento vertical do fundo do mar com o consequente deslocamento da massa de água.

As ondas de tsunami costumam parecer paredes de água e podem atingir a costa e ser perigosas por várias horas, em séries de cinco a 60 minutos.

 

 

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