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Líderes com deficiência ajudam a transformar para o bem, diz 1º juiz cego do Brasil BR

Uma menina em cadeira de rodas brinca em uma gangorra com outras duas crianças em um parque infantil inclusivo em uma escola em um campo de refugiados.
Unicef/Christopher Herwig Menina de nove anos brinca em escola no campo de refugiados de Za’atari, na Jordânia

Líderes com deficiência ajudam a transformar para o bem, diz 1º juiz cego do Brasil

Direitos humanos

Ricardo Tadeu Fonseca, que hoje é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho, elogiou papel da ONU em aprovar Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, em 2006; Dia Internacional ressalta papel dessas pessoas em cargos de liderança no mundo.

A participação e liderança de pessoas com deficiência é o tema deste Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

Cerca de 15% da população, ou 1 bilhão de pessoas, vivem com algum tipo deficiência. Segundo a Organização Mundial de Saúde, OMS, este grupo é a “maior minoria do mundo”.

Compromisso

Em mensagem, o secretário-geral, António Guterres, disse que as Nações Unidas estão determinadas a dar o exemplo.

O chefe da ONU destacou a Estratégia de Inclusão das Pessoas com Deficiência das Nações Unidas, lançada em junho, e a primeira resolução dedicada à proteção destas pessoas em conflitos armados, aprovada pelo Conselho de Segurança.

Exemplo  

Em entrevista à ONU News, o desembargador do Tribunal Regional do Trabalho do estado do Paraná, Ricardo Tadeu Fonseca, mencionou a importância do tema desse ano. Ele foi o primeiro juiz e primeiro desembargador com deficiência visual do Brasil.

“No início da minha carreira, eu lidava com questões extremamente complexas e de forma extremamente solitária. Na verdade, precisava abrir o meu caminho de forma isolada. Hoje, já ocupando uma posição de destaque na sociedade, tenho possibilitado a abertura de caminho para outras pessoas. Estamos percebendo que a liderança das pessoas com deficiência tem uma capacidade de transformação muito grande em prol de outras pessoas com deficiência que estão galgando o seu caminho hoje.”

Segundo o Banco Mundial, em alguns países, o desemprego entre as pessoas com deficiência é de até 80%.  Apenas 45 países têm leis contra a discriminação especifica.

O desembargador destacou o exemplo da senadora do estado de São Paulo Mara Gabrilli, que sofreu um acidente de automóvel, em 1994, que a deixou tetraplégica.

A senadora e política brasileira Mara Gabrielli sorri enquanto é fotografada por uma mulher com um smartphone em uma sala de conferências.
Senadora estadual de São Paulo, Mara Gabrilli, na eleição para Comissão da ONU sobre Direitos das Pessoas com Deficiência, ONU News

Ela foi a relatora da lei brasileira de inclusão, que está regulamentando a implementação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Para Tadeu Fonseca, a senadora é um exemplo “de uma liderança de transformação social para o destino de mulheres e de todas as pessoas com deficiência no Brasil.”

Convenção

O desembargador foi um dos representantes brasileiros presentes na adoção da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, em 2006. Para ele, o documento marca uma revolução nesta área.

“A ONU desenvolveu uma grande revolução institucional, porque adotamos a partir da Convenção, a ideia de que a deficiência é a somatória dos impedimentos físicos, intelectuais, sensoriais ou mentais com as barreiras que a sociedade pode impor às pessoas com essas características. Então, a deficiência passou a ser um conceito político e não mais meramente clínico.”

Nos últimos 13 anos, a Convenção teve impacto na legislação dos países que adotaram. O Brasil, por exemplo, aprovou o documento com status constitucional, o que significa que foi consagrado na Constituição brasileira. Segundo o desembargador, a lei trouxe várias inovações, em áreas como educação, saúde, emprego e outras.

Nesse momento, quase todos os Estados-membros das Nações Unidas fazem parte da Convenção. Neste dia internacional, o secretário-geral também está apelando aos países, que ainda não o fizeram, para que a ratifiquem sem demora.

Ricardo Tadeu Fonseca, um juiz brasileiro, fala ao microfone enquanto está sentado em um tribunal.
Ricardo Tadeu Fonseca é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho do estado do Paraná, Ricardo Tadeu. Foto: Arquivo pessoal

Mudança

Para o desembargador Ricardo Tadeu, a convenção deu a estas pessoas “a oportunidade de protagonizar o destino delas mesmas e de outras com deficiência.”

“Antes, a visão que se tinha da pessoa com deficiência era meramente assistencial. E agora se tem uma visão politica mais aperfeiçoada, no sentido de que passaram a ter um poder de transformação social muito maior, de poder exigir que a sociedade derrube as barreiras que existem, que podem ser urbanísticas, arquitetônicas, tecnologias e a principal, a barreira atitudinal, que tende a manter as pessoas fora das posições de decisão e de liderança.”

Segundo a OMS, o número de pessoas com deficiência deve continuar aumentando, devido ao crescimento da população e ao aumento da expectativa média de vida.

A agência diz que, nos países onde a expectativa media de vida é superior a 70 anos, as pessoas vivem cerca de oito anos com algum tipo de deficiência.

Em sua mensagem, o chefe da ONU, António Guterres, reafirmou o compromisso da organização “de trabalhar com pessoas com deficiência para construir um futuro sustentável, inclusivo e transformador, no qual todos, incluindo mulheres, homens, meninas e meninos com deficiência, possam sentir-se realizados.”