Acnur: venezuelanos enfrentam caminhadas desafiadoras em busca de segurança
BR

7 setembro 2019

Enfraquecidos pela fome, centenas de refugiados e migrantes venezuelanos atravessam os Andes todos os dias em busca de segurança na Colômbia e além; agência da ONU descreve como eles andam sem parar, na esperança de encontrar ajuda.*

Um número incontável de refugiados e migrantes venezuelanos atravessa montanhas enquanto percorre centenas de quilômetros pela Colômbia, indo de regiões próximas ao nível do mar a altitudes de mais de 3 mil metros.

De acordo com a Agência de Refugiados da ONU, Acnur, mais de quatro milhões de venezuelanos fugiram do transtorno político e social em seu país de origem, que provocou inflação, escassez de alimentos e medicamentos básicos, apagões recorrentes e violência generalizada.

Jornada

Entre estes caminhantes estavam Victor e seu companheiro de viagem, Alexander Pérez. Os amigos partiram de suas casas no estado de Lara, no noroeste da Venezuela, cerca de quatro dias antes, atravessando a Colômbia sobre a ponte internacional Simón Bolívar, que se tornou um símbolo do êxodo venezuelano.

Como muitos outros refugiados e migrantes venezuelanos que buscam segurança, a jornada terrestre de Victor e Alexander os levou pelo chamado Nó de Santurbán, uma cordilheira desafiante nos extremos do leste dos Andes.

Fome

Victor diz que nunca passou "por algo tão difícil” e que a jornada foi “perigosa, fria e exaustiva”. Ao percorrer 135 quilômetros, ele ainda teve como desafio extra o resultado de uma cirurgia antiga malfeita após um acidente de moto que o deixou uma perna quatro centímetros mais curta que a outra.

O trabalhador rural de 33 anos que não teve escolha e que teve que ir embora por estava “morrendo de fome”.

Segundo o Acnur, não está claro quantos venezuelanos fizeram a viagem, mas dados de abrigos ao longo da rota sugerem que entre 100 e 250 pessoas partem todos os dias para destinos que incluem as cidades colombianas de Cali e Medellín, ambas a centenas de quilômetros de distância. Entre os destinos também estão os países vizinhos Equador, Peru e até mesmo o Chile.

Esperança

A agência da ONU descreve como eles andam sem parar, na esperança de encontrar amigos ou parentes já estabelecidos no exterior, de garantir empregos que lhes permitam enviar remessas para os que deixaram para trás, de encontrar segurança, estabilidade e liberdade.

Grupos de homens, mulheres e crianças caminham ao longo da estrada estreita e sinuosa que leva a passagem da montanha. Eles andam em fila única para evitar os caminhões e ônibus que circulam em curvas cegas.

Muitas vezes tentam conseguir carona com os caminhões que passam, mas, como a polícia colombiana multa aqueles que são pegos carregando venezuelanos, os motoristas tendem a hesitar em ajudar.

Alguns dos ‘caminantes’, como costumam ser chamados em espanhol, carregam mochilas de ombro. Outros arrastam malas pesadas ou embalam bebês exaustos.

Usam shorts e camisetas e tênis velhos ou chinelos, com as solas gastas e finas, muitas vezes cheias de buracos. Alguns não usam sapatos.

Frio

Ao longo do caminho, os migrantes e refugiados comem e dormem nas cozinhas e abrigos de sopa, administrados por instituições de caridade, organizações humanitárias e até indivíduos. Quando não há mais espaço nos abrigos, eles dormem ao longo da estrada.

Quanto mais eles sobem as montanhas, mais frio fica. Se protegem com o que têm, lençóis, toalhas, meias reaproveitadas como luvas, para afastar os ventos frios e as temperaturas que podem cair até congelar.

Alguns se tornam vítimas da jornada. O Acnur destaca que uma mulher de 19 anos foi morta recentemente quando um caminhão a atingiu do lado de fora de um abrigo.

Outros, com os sistemas imunológicos já comprometidos pela escassez de alimentos na Venezuela, adoecem ao longo do caminho.

Ajuda Humanitária

Uma pesquisa recente da agência da ONU mostra que mais da metade dos quase 8 mil venezuelanos entrevistados enfrentam riscos graves e específicos durante suas jornadas, com idade, sexo, saúde ou outras necessidades, os tornando particularmente vulneráveis ​​e com necessidade urgente de proteção e apoio.

Grexys González foi hospitalizada com disenteria amebiana no terceiro dia de sua jornada, nos arredores de uma cidade chamada Pamplona. A contadora de 29 anos não teve outra opção a não ser deixar seu emprego em uma empresa de serviços petrolíferos para realizar a jornada por terra depois que parou de receber o seu salário e não foi mais capaz de pagar as consultas médicas mensais para sua filha hipoglicêmica de três anos de idade.

A venezuelana conta que “sabia que era extremamente arriscado, mas sabia que, se não corresse o risco, tudo ficaria pior."  Grexys, que pesava 63 quilos antes da crise na Venezuela, ficou com apenas 47 quilos após a escassez de alimentos em casa e sua crise de disenteria.

Para ajudar refugiados e migrantes vulneráveis ​​da Venezuela, o Acnur intensificou sua resposta e está trabalhando em estreita colaboração com governos e parceiros anfitriões para apoiar uma abordagem coordenada e abrangente. Isso inclui apoiar os Estados a melhorar as condições de recepção nos pontos de fronteira onde os ‘caminantes’ chegam em condições muito precárias e coordenar o fornecimento de informações e assistência para atender às necessidades básicas imediatas dos venezuelanos, incluindo abrigo.

*Texto adaptado de reportagem produzida pelo Acnur

 

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