Testemunho de António Monteiro: “Timor-Leste é um grande exemplo” 

30 agosto 2019

Embaixador António Monteiro foi representante permanente de Portugal junto das Nações Unidas durante o processo de restauração da independência do país lusófono; nesta entrevista com a ONU News, de Díli, o diplomata recorda o período do referendo e avalia o percurso feito nos últimos 20 anos.  

Há exatamente 20 anos, a 30 de agosto de 1999, o povo de Timor-Leste decidiu em um referendo organizado pelas Nações Unidas tornar-se independente da Indonésia. 

Na altura, António Monteiro era representante permanente de Portugal junto das Nações Unidas. Nesta entrevista com a ONU News, da capital timorense  Díli, o diplomata lembra a votação e a tensão que se seguiu. 

Monteiro, que também foi presidente do Conselho de Segurança em 1997 e 1998, destaca as grandes lições para a comunidade internacional de todo este processo e avalia o percurso feito pelos timorenses nestas duas décadas.  

Quais são as memórias que tem deste dia e dos meses que se seguiram há 20 anos? 

São tantas memórias que apenas tento resumir aquilo que senti naquele dia. 

O que me vem imediatamente à cabeça, imediatamente, é uma ideia de ansiedade. Ansiedade por ser um evento tão difícil e, digamos, inesperado, porque aconteceu numa altura em que não se esperava que pudesse haver essa abertura ao futuro de Timor-Leste. Portanto, essa ansiedade vinha exatamente do que é que iria acontecer nesse dia, qual seria a escolha do povo timorense e, também, ansiedade em relação à reação dos indonésios, da potência ocupante.  

O secretário-geral Kofi Annan visitou Liquica, no Timor-Leste, uma cidade que foi chamada de "campo de extermínio", após uma onda de assassinatos, estupros e destruição pelas milícias. No lado direito, está o líder da independência Xanana Gusmão e atrás o, by ONU/Eskinder Debebe

Era, portanto, um misto, de algo que estava a acontecer, que era quase senso comum, dar aos timorenses a possibilidade de escolher o seu destino, algo que lhes tinha sido recusado durante anos e anos, mas, ao mesmo tempo, perceber se tudo correria bem, se seria um voto livre e justo, e depois qual seria a reação Indonésia face ao resultado, face a um resultado negativo para eles, portanto, uma escolha dos timorenses no sentido da independência.  

Lembro-me também que, quando tivemos praticamente a certeza de que o resultado seria favorável à independência de Timor-Leste, lembro-me perfeitamente que a ansiedade transformou-se em alegria, em satisfação, por vermos finalmente feita justiça em relação a um povo martirizado, que se estava a bater durante anos de forma tão firme e tão constante pela sua autodeterminação e esse misto de ansiedade e de alegria, digamos, é aquilo que mais me vem a memória dessa altura.  

Claro que, no dia seguinte, já estávamos bastante mais apreensivos, com o que poderia ser o futuro imediato, uma vez que os sinais de que se poderia voltar a uma situação de violência estavam a chegar a cada minuto. Por isso, rapidamente, aquele sentimento de alegria e até de orgulho de um povo que tinha sabido tão bem fazer a sua escolha, começou imediatamente a ser ofuscado e a passar para segundo plano, perante aquilo que se antevia que podia ser uma tragédia e que, como se viu, veio de facto a acontecer. 

Quais são as grandes lições que a comunidade internacional deve tirar de todo este processo? 

Carregamento de arroz fornecido pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA, no Timor Leste, para ajudar no retorno das pessoas deslocadas internamente. Novembro de 1999, by ONU/M Kobayashi

Eu penso que a primeira grande lição é que não pode haver desistências em relação a situações de clara injustiça, porque há sempre uma possibilidade que prevaleçam os valores e os princípios, sobretudo os valores e os princípios que estão na base da atuação das Nações Unidas. Essa é a grande lição. 

Timor-Leste foi, durante muito tempo, considerada uma causa perdida, foi fazendo o seu caminho, devendo muito à solidariedade internacional, mas fundamentalmente à vontade, firmeza e coragem do povo timorense, que foi constante ao longo dos anos. 

O facto de se ter conseguido uma mudança, até na própria Indonésia, primeiro uma mudança determinada pelas circunstâncias, que foi pela queda do regime Suharto e a ascensão ao poder de um regime que se apresentava como democrático, do presidente Wahid. Mas também a consciência que, quando isso acontece, é possível realizar-se aquilo que os valores da organização, os princípios e o direito impõem. E essa é para mim a grande lição de Timor-Leste. E é também um dos grandes sucessos das Nações Unidas.  

Como é que olha para o percurso que o país fez estes 20 anos? 

De uma forma extremamente positiva. Timor-Leste é um exemplo, sobretudo depois da tragédia que se verificou, a destruição de ultima hora conduzida, não digo pelo poder indonésio, pela sua vontade, mas pela sua incapacidade de dominar as forças militares e a polícia e as forças integracionistas que se tinham mobilizado para a violência. Depois dessa devastação, dessa destruição maciça, do próprio território, sobretudo da própria capital, de Dili, é extraordinário como nestes 20 anos os timorenses souberam organizar-se, responder, progredir e ter hoje um país com poucas marcas daquilo que aconteceu no passado e que olha com grande confiança para o futuro.  

Retornados chegam a pé na área de Maliana, no Timor Leste, entre outubro e novembro de 1999., by ONU/M Kobayashi

Um país que tem também conseguido, internamente, uma firme evolução democrática, em que se impõe a tolerância, o diálogo, apesar das divergências de opinião, que são legitimas, nomeadamente divergências políticas, que acontecem, como agora, em que há um impasse político. Mas há sobretudo a consciência de que Timor-Leste é, de facto, um país livre, onde também está garantida a liberdade, a liberdade dos seus habitantes. 

É também um país que tem sabido responder à solidariedade de que foi alvo, sendo ele mesmo um promotor da ajuda a países em dificuldades. É também um exemplo de como países com poucos recursos podem, mesmo assim, por forma de reconhecimento e gratidão, aplicá-los ajudando outros países em dificuldades. E Timor tem-no feito com grande consciência. Vê-se também que é um país jovem, com dificuldades enormes, que tem para ultrapassar deficiências estruturais, mas que está preparado para isso e que o quer fazer.  

Temos aqui, simultaneamente, um enorme esforço do povo timorense, que merece e tem de ser reconhecido internacionalmente e, ao mesmo tempo, uma atuação feliz da comunidade internacional

É também um grande exemplo das Nações Unidas. Porque as Nações Unidas, aqui, em Timor, souberam fazer aquilo que muitas vezes se defendia dentro das Nações Unidas, que não bastava ajudar a resolver uma situação, era preciso depois fazer um follow up (seguimento) , fazer aquilo que se chamava nationbuilding, ajudar territórios que tinham sido privados durante longo tempo da capacidade de auto-governo, como era o caso claro de Timor, que as Nações Unidas deviam estar do seu lado para os encaminhar e para os conduzir e até para os proteger. 

Temos aqui, simultaneamente, um enorme esforço do povo timorense, que merece e tem de ser reconhecido internacionalmente e, ao mesmo tempo, uma atuação feliz da comunidade internacional, que permitiu não só ultrapassar as sequelas da violência imposta depois do referendo por alguns setores indonésios, e ao mesmo tempo olhar para o progresso efetivo do país, nomeadamente nesta tentativa que hoje é muito firme de vencer os focos de pobreza e encaminhar o país para uma situação de bem-estar geral, onde as pessoas possam dizer que valeu a pena a luta que fizeram pela liberdade. 

 

 

 

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