Mulheres grávidas fogem da falta de cuidados de saúde na Venezuela
BR

25 julho 2019

Agência das Nações Unidas para Refugiados aponta que milhares de gestantes deixaram país para proteger suas vidas e de seus bebês; mortes maternas teriam crescido 65% em território venezuelano.

Nos últimos anos, os hospitais da Venezuela vêm enfrentando a escassez de suprimentos e pessoal, além de constantes cortes de eletricidade. De acordo com dados do governo, entre 2015 e 2016, as mortes maternas teriam crescido 65% no país.

Já a mortalidade infantil, após seis dias de nascimento, teria tido um aumento 53%.

Mulheres Grávidas

A Agência das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, aponta que milhares de venezuelanos continuam a deixar o país todos os dias. Entre eles, muitas mulheres grávidas que não podem receber atendimento pré-natal adequado e que não querem colocar em risco a vida de seus filhos.

Roxibel Pulido, de 29 anos, é uma delas. Ela estava grávida de três meses quando soube que o hospital mais próximo de seu bairro, na cidade de Maracaibo, na Venezuela, havia sido fechado.

Hospital

Roxibel conta que "o hospital estava sob investigação porque três bebês recém-nascidos haviam morrido devido à falta de um gerador." Ela acredita que "se houvesse alguma complicação”, o hospital não poderia ajudá-la e o seu “bebê morreria."

A venezuelana disse que "é um momento muito ruim para ser uma mulher grávida" no país e que muitas delas “estão fugindo por amor aos seus bebês em gestação."

Grávida de seu terceiro filho, Roxibel lembra que não conseguia parar de se preocupar com a falta de acesso aos cuidados de saúde” e que por isso decidiu deixar o seu país de origem.

Colômbia

Juntamente com seus dois outros filhos, ela chegou a Maicao, uma cidade colombiana perto da fronteira norte com a Venezuela. De acordo com o Acnur, a Colômbia é o país que hospeda o maior número de refugiados e migrantes venezuelanos, com mais de 1,3 milhão.

Depois de passar dois meses nas ruas, Roxibel e seus filhos encontraram segurança no novo centro de acolhimento da agência da ONU, que abriga temporariamente até 350 pessoas vulneráveis ​​da Venezuela, a maioria mulheres e crianças.

No centro, uma enfermeira conferiu a saúde de Roxibel e de seu bebê, algo que ela não pôde fazer na Venezuela durante a gravidez.

Atendimento

Segundo a coordenadora de Ginecologia e Obstetrícia do hospital público San Jose, Zela Cuello, mais de mil mulheres venezuelanas foram atendidas no local no primeiro trimestre de 2019. A representante disse que a equipe dá "atenção preferencial e integral a todas as mulheres grávidas, sem distinção de nacionalidade."

Uma das mulheres atendidas no hospital em Maicao foi Yorgelis Garcia, de 23 anos, que fugiu da Venezuela uma semana antes de dar à luz. Desesperada por comida e assistência médica, ela e o marido usaram travessias informais perigosas para chegar à Colômbia.

Yorgelis conta que "foi uma jornada difícil" e que o marido teve que carregar o filho de dois anos e garantir que ela “não caísse no chão." A venezuelana, que teve uma menina e que agora também está vivendo no centro do Acnur, disse que está "muito agradecida à Colômbia e à atenção médica" que recebeu no país.

Venezuelana com o filho na Colômbia, depois de escapar da crise humanitária em seu país, by Foto: Unicef/ Arcos

Documentação

Agora grávida de cinco meses, Roxibel está convencida de que também vai ter uma menina. Ela disse que ninguém ainda confirmou a informação, mas que sente isso em seu "coração e que ela é uma guerreira".

A preocupação atual de Roxibel é a de não conseguir registrar seu bebê na Colômbia para obter documentação de identidade adequada. A maioria dos venezuelanos não consegue registrar as crianças nascidas no país como cidadãos venezuelanos porque não têm a documentação necessária e os serviços consulares não estão disponíveis no momento.

Cidadania

Para obter a cidadania, a Constituição da Colômbia estipula que pelo menos um dos pais deve ser colombiano ou, se este não for o caso, pelo menos um deles deve possuir visto de trabalho ou temporário no país. Muitos venezuelanos lutam para consegui-la.

O registro nacional da Colômbia estima que cerca de 23 mil crianças nascidas de pais venezuelanos estejam esperando para receber a nacionalidade colombiana. O governo trabalha com parceiros para resolver a situação e prevenir futuros casos de crianças em risco de serem apátridas.

O Acnur destaca que hoje, milhões de pessoas em todo o mundo têm negada uma nacionalidade. A falta de documentação tem consequências muito sensíveis em suas vidas, como não ter permissão para ir à escola, consultar um médico, conseguir um emprego, abrir uma conta bancária, comprar uma casa ou até mesmo se casar.

Por meio de sua campanha #IBelong, #EuPertenço na tradução em português, a agência da ONU busca acabar com a apatridia em 10 anos.

Saiba mais sobre a campanha neste link.

 

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