Mundo está longe de cumprir metas dos ODSs relacionadas a alimentos e agricultura
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18 julho 2019

Novo relatório revela que número de pessoas com fome tem aumentado por três anos seguidos; total voltou aos níveis de 2010-2011; FAO registra progresso na obtenção de prosperidade e sustentabilidade a longo prazo.

O mundo não está no caminho para cumprir a maioria das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODSs, ligados à fome, segurança alimentar e nutrição.

É o que aponta um novo relatório publicado nesta quinta-feira pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO.

Relatório

De acordo com o diretor estatístico da FAO, Pietro Gennari, "o relatório retrata um quadro sombrio”. Ele disse que quatro anos após o início da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, “a regressão é a norma quando se trata de acabar com a fome e tornar a agricultura e a gestão dos recursos naturais, seja em terra ou nos oceanos, sustentável".

Para a vice-diretora-geral da FAO para Clima e Recursos Naturais, Maria Helena Semedo, "estar fora do rumo quando se trata de alcançar os pilares centrais dos ODSs coloca inquestionavelmente em risco o alcance de toda a Agenda 2030.”

A representante acrescenta que isso “faz com que nosso objetivo global de garantir um futuro economicamente, socialmente e ambientalmente sustentável para o nosso planeta e para as gerações presentes e futuras menos atingível."

No primeiro relatório do gênero, a FAO analisou, de forma visual, as principais tendências e dados globais de até 234 países e territórios sob 18 indicadores de quatro ODSs, os de números 2, 6, 14 e 15.

Principais conclusões

O estudo indica que mais de 820 milhões de pessoas ainda passam fome hoje. O número de pessoas com fome no mundo tem aumentado por três anos seguidos, e está de volta aos níveis de 2010-2011.

Em paralelo, a porcentagem de pessoas com fome em relação à população total aumentou ligeiramente, de 10,6% em 2015 para 10,8% em 2018.

Em entrevista à ONU News em Nova Iorque o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, explicou que fatores econômicos têm forte influência neste cenário.

“E é inacreditável que desde que nós decidimos mirar no Fome Zero, a fome tem aumentado. E nós temos insistido que tem aumentado por causa dos conflitos, por causa do impacto das mudanças climáticas, e agora esse ano o nosso relatório apresentou que ainda o tema da recessão econômica, da falta de crescimento nos países em desenvolvimento é a grande causa. 85% dos países em desenvolvimento tiveram aumento no número de famintos porque têm uma situação econômica difícil internamente nesses países. Então, não há dúvida que é a economia que está nos levando para trás.”

De acordo com o relatório, na maioria dos países, as rendas dos produtores de alimentos em pequena escala são menos da metade das dos maiores produtores de alimentos. , by Foto: Unicef/Kamuran Feyizoglu

Produtores

Os produtores de alimentos em pequena escala, que representam a maior parte dos agricultores em muitos países em desenvolvimento, enfrentam desafios desproporcionais no acesso a insumos e serviços. Como resultado, seus rendimentos e produtividade são sistematicamente mais baixos, comparados aos maiores produtores de alimentos.

De acordo com o relatório, na maioria dos países, as rendas dos produtores de alimentos em pequena escala são menos da metade das dos maiores produtores de alimentos. Diferenças na produtividade de pequenos produtores de alimentos em comparação com os maiores produtores também são perceptíveis, embora menos acentuadas do que os ganhos.

Preços dos Alimentos

Durante 2016-2017, as anomalias dos preços dos alimentos afetaram mais de um terço dos países em desenvolvimento sem litoral, um em cada quatro países da África e da Ásia Ocidental, e um em cada cinco países da Ásia Central e do Sul. Aumentos moderados nos preços gerais dos alimentos, por outro lado, afetaram todas as regiões.

Ainda de acordo com o estudo, em média, 60% das raças locais de animais da pecuária estão em risco de extinção nos 70 países que tinham informações sobre o status dos riscos. Especificamente, em todo o mundo, das 7.155 raças locais, ou seja, espécies que ocorrem em apenas um país, 1.940 são consideradas como estando em risco de extinção.

Exemplos incluem o gado Fogera da Etiópia ou o cabrito Gembrong de Bali.

No entanto, segundo a FAO, isso pode ser ainda maior, já que para dois terços das raças locais do setor pecuário, especialmente no Oriente Médio e Próximo, África e Ásia, não há dados sobre o status de risco dos animais.

O relatório também alerta para a falta total de "progresso na conservação de recursos genéticos animais e observa que os esforços contínuos para preservar esses recursos parecem inadequados".

Por exemplo, menos de 1% por das raças locais de animais da pecuária em todo o mundo têm material genético armazenado o suficiente para permitir que a espécie seja reconstituída em caso de extinção.

Pesca

Dados também apontam que um terço dos estoques de peixes marinhos do mundo é sobre explorado atualmente, comparado a apenas 10% em 1974.

O relatório observa que, apesar de algumas melhorias recentes no manejo das pescas e no status dos estoques em nos países desenvolvidos, a proporção de unidades populacionais pescadas com níveis biologicamente sustentáveis ​​diminuiu significativamente nestas nações.

Além disso, cerca de 30% dos países ainda têm um registro baixo ou médio de implementação dos principais instrumentos internacionais que combatem a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada.

FAO: o estresse hídrico afeta países em todos os continentes, by Foto: AcnurCaroline Gluck

Água e Florestas

O estudo destaca ainda que o estresse hídrico afeta países em todos os continentes. A maioria das nações que registraram alto estresse hídrico desde 2000, no entanto, essa situação concentrada no norte da África, Ásia Ocidental e Ásia Central e do Sul.

Entre 2000 e 2015, o mundo também perdeu uma área de floresta do tamanho de Madagáscar, devido principalmente à conversão de florestas para uso agrícola. A maior parte dessa perda é registrada nos trópicos da América Latina, África Subsaariana e Sudeste Asiático.

No entanto, a taxa de perda de floresta diminuiu globalmente no período de 2010-15 e essa situação foi parcialmente compensada pelo aumento da área florestal na Ásia, América do Norte e Europa.

Recomendações

O relatório apresenta uma série de recomendações destinadas a reverter essas tendências de agravamento.

Primeiro, muitos dos problemas mencionados acima seriam provavelmente menos agudos se houvesse investimento suficiente no setor agrícola, incluindo a pesca e a exploração florestal. No entanto, o estudo conclui que a despesa pública na agricultura vem diminuindo no que diz respeito à sua contribuição para o Produto Interno Bruto, PIB.

Em particular, as regiões da África Subsaariana e da Oceania, excluindo a Austrália e a Nova Zelândia, registraram os menores valores relativos de investimento público na agricultura.

A promoção do crescimento da produtividade e o fortalecimento da resiliência e capacidade de adaptação dos pequenos produtores de alimentos também é fundamental para reverter a tendência de aumento da fome e reduzir o número de pessoas vivendo em extrema pobreza, ressalta o relatório.

 

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