Chefe da ONU vive “força” do povo moçambicano em área atingida por ciclone

12 julho 2019

António Guterres fecha visita a Moçambique após interagir com crianças em salas de aula sem teto, mulheres cultivando sem ferramentas e pessoas que não podem ver, ouvir ou falar; sobreviventes relataram episódios de destruição e esperança.

No início do dia, durante a visita do secretário-geral da ONU às áreas afetadas pelo ciclone Idai, António Guterres perguntou a um grupo de alunos: "Quantos tiveram as suas casas destruídas pelo ciclone?"

Na sala de aula lotada, debaixo de sol, porque o teto foi arrancado por ventos de 195 quilómetros por hora, quase todas as mãos se levantaram.

Secretário-geral António Guterres visita tendas temporárias usadas como salas de aula na escola 25 de junho na cidade da Beira, Moçambique. A escola foi destruída pela passagem do ciclone Idai. Foto: ONU Moçambique

Turmas

A Escola 25 de Junho fica na cidade da Beira, uma das áreas mais afetadas pela tempestade, onde 90% de toda a infraestrutura foi danificada. Todos os dias, o local acolhe cerca de 5 mil crianças, divididas em três turnos, em turmas de até 90 alunos.

Guterres visitou a escola, acompanhado pelo seu diretor, Frederico Francisco. De sala de aula para sala de aula, Frederico apresentava o secretário-geral, dizendo que era "a visita muito especial" de que haviam conversado e que "vinha de muito longe porque ouviu falar do que aconteceu aqui."

Quando o diretor levou o chefe da ONU para uma aula no meio de um pátio, devido à falta de espaço, Guterres prometeu: "A vossa escola vai ficar muito bonita".

Em outra sala, pediu às crianças que "continuem a estudar, aprendam bem as disciplinas, para poderem ser engenheiro e doutores.” Para outro grupo, explicou o que era a ONU.

Problemas

“É um lugar onde todos os países se reúnem para tentar resolver os problemas do mundo. Às vezes são capazes de fazer isso, às vezes não são.”

Dos cinco pavilhões da escola, apenas um não foi danificado pelo ciclone. Foi inaugurado em fevereiro, pouco antes do desastre após ter sido construído com o apoio do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, ONU-Habitat, para resistir a eventos climáticos extremos.

Guterres disse que "é um exemplo de uma construção resiliente, de como as coisas podem resistir quando são construídas da maneira certa." Em todo o país, a mesma iniciativa já apoiou a construção de 3 mil salas de aula.

Foi dentro de uma dessas aulas que o chefe da ONU se reuniu com um grupo de pessoas com deficiência e uma pessoa com albinismo, algumas das populações mais vulneráveis ​​durante um desastre natural.

ONU/Eskinder Debebe
Secretário-geral António Guterres no encontro sobre protecção de crianças com albininsmo em Maputo, Moçambique.

Recordar

Orlando Machambissa, 44 anos, disse a que “as pessoas com deficiência sofreram duas vezes mais” do que o resto da população. Machambissa tem albinismo e está perdendo a visão. Ele contou que na noite do ciclone, “uma noite que não dá para recordar”, algumas pessoas “tiveram a coragem, para poder recolher o seu material que estava indo com o vento, mas aquele com deficiência visual não podia ver para onde ia o material.”

Antónia Piripiri, 37 anos, também esteve no encontro. É coordenadora distrital do Fórum de Associações Moçambicanas de Deficientes, Famod, e tem deficiência auditiva. Por meio de um intérprete, explicou que, em um país onde a maioria das pessoas recebe suas notícias pelo rádio, pessoas como ela “tinham falta de informação” durante a emergência.

A moçambicana diz que “de repente isso aconteceu, sem nenhum aviso prévio, e foram ver que as casas todas caíram.”

Na reunião, Guterres disse que a obrigação da ONU “é fazer de tudo para ajudar, sobretudo as pessoas mais vulneráveis, que sofreram mais com esta tragédia.”

ONU/Eskinder Debebe
Secretário-geral António Guterres visita uma escola no campo de Mandruzi, reassentamento a 40 km da Beira, em Moçambique.

Uma nova vida

Da escola, Guterres partiu para o Campo de Mandruzi, a 30 minutos de carro da Beira, onde 480 famílias estão sendo reassentadas. As vítimas receberam parcelas de terra do governo, mas ainda vivem em tendas dadas pela Agência de Refugiados da ONU, Acnur, a Organização Internacional de Migração, OIM, e outros parceiros humanitários.

No acampamento, o chefe da ONU foi recebido em uma escola, que está sendo apoiada pela Unicef, com cânticos de “Titio Guterres”. Era uma aula de matemática da 1ª classe, e Guterres testou os meninos até ao número 4.

Caminhou depois pelo campo, conhecendo várias famílias. Perguntou a uma mulher que legumes estava cultivando, a outra como o bebé se tinha adaptado à vida em uma tenda, a um menino se ele estava indo à escola. Algumas vezes, perguntou se gostavam da sua nova casa. Sim, ouviu todas as vezes, porque as pessoas se sentem mais seguras.

Bairros

No final do dia, Guterres falou sobre os desafios do reassentamento. No país, todos os abrigos temporários foram encerrados, e as 46 mil pessoas que ainda vivem nos campos não irão voltar para seus antigos bairros e aldeias.

“Estou seguro que, progressivamente, se irá investindo, e nos apoiaremos esse investimento, em relação à educação, à saúde, mas também em relação às outras formas de bem-estar dessas populações”, disse ele a jornalistas. “Mas devo dizer que fiquei já impressionado com o que vi. E o que vi foi uma enorme coragem e uma determinação daquelas populações. Vi gente já a semear e a plantar. Ainda sem casa, já estão a semear, já estão a plantar. Já estão a querer construir o seu futuro.”

Em espaço seguro para crianças e mulheres, onde não é permitida a entrada de nenhum homem, foi feita uma exceção para receber o secretário-geral. Do lado de fora da tenda doada pelo Fundo das Nações Unidas para a População, Unfpa, Guterres decidiu colocar a cadeira na porta,  os pés dentro.

Construir

Dessas mulheres, Guterres ouviu que a escola para as crianças mais velhas é muito longe, que ainda precisam de materiais para começar a construir casas, que é muito difícil criar filhos sendo mães solteiras. Mas a frase mais repetida é que não querem depender de ajuda.

“Só precisamos das ferramentas para voltar a ganhar a vida”, disse uma mulher, acrescentando que algumas eram costureiras ou trabalhavam na terra. Outras querem aprender a ler e escrever, ou saber como fazer cestos e cerâmica que possam vender. "Queremos sentir como se estivéssemos ganhando a vida com nossas próprias mãos."

Depois do acampamento, Guterres encontrou os chefes das agências humanitárias e recebeu uma atualização sobre a emergência. Antes de deixar a cidade, foi ao depósito do Programa Mundial de Alimentação, PMA, para encontrar mais de 100 trabalhadores envolvidos na resposta. Ele destacou os trabalhadores moçambicanos, dizendo que sabia que alguns deles “também foram vítimas, mas continuaram trabalhando para ajudar os outros.”

Investimento

No início da tarde, o secretário-geral visitou uma infraestrutura de canais, barragens e bacias de retenção que foram construídas com o apoio de um grupo de parceiros, incluindo o Banco Mundial. O investimento evitou um dano maior durante o ciclone e continua sendo expandido. Depois, foi ao escritório do presidente da câmara municipal, onde subiu até ao telhado para ter uma visão de 360 ​​graus dos danos na cidade.

Depois de olhar para as casas, a maioria sem tetos, viu uma torre no canto do prédio e decidiu subir. Uma antiga escada de ferro, outra escada, e estava no topo do prédio, numa pequena plataforma redonda.

Guterres olhou para o norte, onde o ciclone Kenneth atingiu a outra província, Cabo Delgado, seis semanas depois do Idai, afetando 400 mil pessoas. Depois olhando para oeste, para as áreas de Búzi e Dondo, onde a maioria das 648 vítimas mortais não resistiu ao desastre.

 

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