Da filantropia ao lucro: como a energia limpa impulsiona o desenvolvimento sustentável
BR

2 junho 2019

Moçambique é um dos exemplos de lugares onde energia renovável tem mudado a vida das pessoas; Quênia, Tanzânia e Maláui também implementam projetos de   fontes de energia renováveis na África Oriental.

Até há pouco tempo, o distrito de Namacurra, na província da Zambézia, tinha serviços básicos como escolas, centros de saúde ou mesmo energia com muitas limitações. A área de Moçambique está a cerca de 1.500 km da capital, Maputo.

Mas uma nova iniciativa de energia renovável apoiada pela ONU pretende mudar as perspectivas para Namacurra. Em meses, o projeto quer impulsionar o desenvolvimento sustentável para o benefício de 6 mil pessoas transferidas para a área após as chuvas que arrasaram a região em 2015.

O projeto OKAPI Green Energy da SAVIC Africa vai construir uma mini-rede de 20 kWp no Campo de Refugiados de Kakuma, Quênia., by DR

Escolas

Este ano, Namacurra também acolheu famílias deslocadas pelo ciclone tropical Idai que devastou extensas áreas do centro do país em março.

O Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos, ONU-Habitat, e a empresa portuguesa de eletricidade, EDP, constroem um sistema de energia solar para fornecer energia limpa e renovável em 12 salas de aula.

Falando à ONU News de Moçambique, o arquiteto da ONU-Habitat e responsável pelo projeto, Juan Hurtado-Matinez, explicou que as escolas foram projetadas através de uma parceria da agência com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef. Elas foram concebidas para resistir aos desastres naturais.

Desastres Naturais

“São salas de aula que aguentam ventos de até 180 quilómetros por hora, e são construídas por ONGs e pela comunidade. Elas permitem criar, nessas áreas onde não existem nenhum tipo de serviços básicos, edifícios que podem ser usados como abrigo durante  algumas emergências.”

A energia dos painéis solares beneficiará cerca de 1,3 mil estudantes que agora também poderão estudar à noite. Já as pessoas que moram na região poderão, por uma pequena taxa, carregar os telefones celulares e ter acesso à internet, tornando o projeto economicamente viável e gerando renda para ajudar a escola.

Sobrevivência

Martinez explicou ainda que a iniciativa também oferecerá maiores oportunidades às pessoas da comunidade de sobreviverem quando os próximos ciclones e inundações atingirem o país e a região.

“Um aspecto muito importante é criar as condições para o alerta precoce, na situação de risco. Em Moçambique, quando há uma situação de risco como cheias e ciclone, o alerta  precoce funciona via SMS do celular. O governo envia SMS a todos os comitês locais de risco que existem nas comunidades. O problema é que algumas comunidades não têm acesso a energia e não podem ter celular. Por isso, com esse projeto, também vai ser criar as condições para que nas salas administrativas exista um pequeno carregador, onde a comunidade, ou pelo menos os componentes do comitê de gestão de riscos, podem carregar os seus celulares. Ali vai se incorporar alguns megafones para que o alarme possa ser enviado ou possa ser lançada a comunidade que está perto da escola.”

ECOCampus da Girl MOVE Academy em Moçambique, by Girls Move Academy

Mulheres

Outro projeto que será beneficiado pela primeira fase do Fundo de Acesso à Energia da EDP fica na região norte de Moçambique. Painéis solares devem gerar energia para a nova sede do programa da Girl Move Academy, que visa a formação e  ao desenvolvimento de uma nova geração de mulheres líderes.

Em entrevista à ONU News, o coordenador do Girl Move Academy, Filipe Magalhães, falou sobre a diferença que a eletricidade fará na vida das estudantes.

“Para nós entregarmos uma boa formação, um bom treino aos nossos beneficiários, às nossas mulheres, é fundamental termos energia. É mesmo muito importante. E estes painéis vêm muito neste sentido de garantir uma qualidade contínua na geração de conhecimento e na transformação dessas mulheres que estão conosco na academia, permitindo um maior número de horas consecutivas sem falhas de energia.”

Sustentabilidade

Filipe também explicou que a nova sede do programa foi construída pela própria comunidade, sempre pensando na questão da sustentabilidade.

“É um espaço delas, é a nossa casa, o nosso escritório, e nós construímos um edifício muito inovador, aqui no norte de Nampula, com tijolos feitos pela comunidade, que é um ponto diferenciador. Essa construção que fizemos, foi feita toda com materiais da terra, materiais tradicionais, não apostamos em materiais fora de Moçambique. E é um edifício que está a causar admiração e interesse em todo o país. A inclusão da energia solar através de painéis solares vai também despertar a mente de muitas pessoas aqui na zona norte de Moçambique para essa questão de energia limpa.” 

Nova sede do programa, by Girls Move Academy

África Oriental

Embora o ímpeto para a iniciativa venha da área filantrópica da EDP, a empresa vê o projeto como um investimento sensato na África, em consonância com a proposta da ONU de que as empresas desempenhem seu papel na mudança para uma “economia verde”, que não depende combustíveis fósseis, como carvão e gás.

O diretor de Relações Internacionais do projeto da EDP, Guilherme Collares Pereira, disse à ONU News que hoje em dia está mais do que comprovado que “as energias renováveis ​​podem permitir, de forma mais barata, rápida e eficiente, o acesso universal à energia.” Ele destacou também o fato de que cerca de 600 milhões de pessoas não têm acesso à eletricidade na região africana.

“O continente africano é seguramente o continente com mais recursos naturais que permitem a utilização das energias renováveis. É o sol, é a água, é o vento, é a biomassa e outras e, portanto, seria uma pena não estarmos atentos a estas capacidades e não as utilizarmos.  Portanto, faz todo sentido intervir no mercado que tem recursos e que tem as necessidades.”

Projetos

Os projetos no distrito de Namacurra e do Girls Move Academy estão entre as seis iniciativas que receberão apoio da EDP no Quénia, na Tanzânia, em Moçambique e no Maláui. Pereira citou, como exemplo, um projeto no acampamento de refugiados de Kakuma, no Quênia. No local, uma mini-rede de energia renovável fornecerá eletricidade aos usuários que pagarão de acordo com as necessidades de consumo.

Para a EDP, a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável é uma oportunidade. , by DR

“É uma coisa muito interessante que pode vir a ser replicada no próprio campo de refugiados de Kakuma, que infelizmente cada vez se torna maior. Já são quase 180 mil pessoas que ali vivem, mas que também pode ser replicado em outros campos de refugiados não só no Corno da África mas enfim, por todo o mundo.”

Agenda 2030

Para a EDP, a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável é uma oportunidade. Pereira apontou que quando a empresa passou a investir no setor, há 10 anos, era mais por uma questão de política de responsabilidade corporativa do grupo. Hoje, a empresa está literalmente a caminhar para o pró-negócio.

“O mercado é gigantesco, cada vez mais a tecnologia de energia renovável está aumentando e o custo desce, e a sua eficiência, a sua resiliência está cada vez maior. Há também uma abundância de mecanismos e até financeiros dos países e da comunidade internacional para apoiar esses projetos. Tudo está alinhado para que possa ainda crescer mais essa intervenção e é imprencidível o setor privado entrar nesse trabalho".

Um dos objetivos da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, Objetivo 12, é garantir padrões sustentáveis de consumo e produção, incluindo a eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis que levam ao desperdício e à poluição. A meta também incentiva a gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos naturais.

 

 

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