Angola foi o país mais dependente de commodities entre 2013 e 2017

16 maio 2019

Relatório da Unctad mostra que dois terços dos países em desenvolvimento são dependentes; Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste entre os 50 mais dependentes; volatilidade contribui para desaceleração económica em 64 países.

O número de países que depende de commodities, ou matérias-primas em português, atingiu seu nível mais alto em 20 anos.

A conclusão é do mais recente relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad, que define um país como dependente de commodities quando estas representam mais de 60% das suas exportações totais de mercadorias. 

Dependência

De acordo com o relatório, a dependência afeta quase exclusivamente os países em desenvolvimento.Irin/ Andreas Hackl

Analisando o período entre 2013 e 2017, o relatório mostra que Angola foi o país que mais dependeu de commodities, com uma taxa de dependência de 96%.

Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste são os outros países lusófonos que constam da lista dos 50 países mais dependentes.

O relatório, publicado esta quarta-feira, mostra que os países dependentes aumentaram de 92, entre 1998 e 2002, para 102 entre 2013 e 2017.

Mais de metade dos países do mundo, 102 em 189, e dois terços dos países em desenvolvimento são dependentes.

O secretário-geral da Unctad, Mukhisa Kituyi, explica que “dado que esta dependência afeta muitas vezes negativamente o desenvolvimento económico de um país, é importante e urgente reduzi-la para progredir mais rapidamente em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável."

Países em Desenvolvimento

De acordo com o relatório, a dependência afeta quase exclusivamente os países em desenvolvimento.

Olhando com pormenor, 85% dos países menos desenvolvidos encontram-se nesta situação tal como 81% dos países em desenvolvimento sem saída para o mar e 57% dos pequenos estados insulares em desenvolvimento.

A região mais atingida é a África subsaariana, com 89% dos países a dependerem de outros em termos de produtos, seguida pelo Médio Oriente e o Norte da África com 65% dos países dependem de commodities.

A publicação evidencia ainda que metade dos países da América Latina e do Caribe, e metade dos países da Ásia Oriental e do Pacífico também dependem de commodities.

Problema

Esta situação é, segundo a Unctad, “um problema persistente.”

Os grupos dominantes de produtos exportados mudaram em apenas 25% dos países entre 2013 e 2017, em parte devido a mudanças nos preços das commodities.

Por um lado, o número de países dependentes da exportação de produtos agrícolas diminuiu de 50 para 37 entre os períodos de 1998-2002 e 2013-2017, por outro, o número de países dependentes de minerais aumentou de 14 para 33, enquanto o número de países dependentes de energia aumentou de 28 para 32.

Flutuações relativas de preços entre os diferentes grupos de commodities contribuíram para as mudanças nos grupos de produtos dominantes exportados, já que os preços de energia e minerais aumentaram muito mais do que os de produtos agrícolas e manufaturados.

Vulnerabilidade

Os grupos dominantes de produtos exportados mudaram em apenas 25% dos países entre 2013 e 2017, em parte devido a mudanças nos preços das commodities.​​​​​​​Banco Mundial/ Dana Smillie

A Unctad destaca também que os países em desenvolvimento dependentes de commodities são vulneráveis ​​a choques negativos e volatilidade de preços.

Os níveis médios de preços de commodities entre 2013 e 2017 ficaram substancialmente abaixo do pico entre 2008 e 2012, revela o relatório.

Isso contribuiu para uma desaceleração económica em 64 países, com vários deles a entrar em recessão.

À medida que o crescimento desacelerou, a situação fiscal em muitos desses países deteriorou-se, resultando na acumulação de dívida pública, muitas vezes como um aumento da dívida externa.

A dívida externa de 17 países em desenvolvimento dependentes de commodities aumentou em mais de 25% do PIB entre 2008 e 2017, de acordo com o relatório.

Diversificação

O relatório observa ainda que que alguns países conseguiram diversificar sua produção e exportações nas últimas duas décadas.

Por exemplo, alguns países dependentes de exportações de energia, como Omã, Arábia Saudita e Trinidad e Tobago, aumentaram a participação de suas exportações de produtos não-commodities agregando valor em seus setores a jusante.

Outros países dependentes de energia ou dependentes de exportações minerais, como o Ruanda e os Camarões, conseguiram expandir suas exportações agrícolas.

O relatório de 2019, a quarta edição da série lançada em 2012, contém 189 perfis estatísticos de países desenvolvidos e economias em transição.

 

 

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