Moçambique: 86 mil mulheres devem dar à luz em zonas afetadas por ciclones nos próximos meses  

14 maio 2019

Fundo das Nações Unidas para a População diz que 15% das gravidas desenvolvem complicações potencialmente mortais em situações de emergência; Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários destaca histórias de duas mulheres. 

O Fundo das Nações Unidas para a População, Unfpa, afirma que nos próximos meses cerca de 74 mil mulheres darão à luz nas áreas afetadas pelo ciclone Idai e 12 mil na região atingida pelo ciclone Kenneth. 

Segundo a agência, cerca de 15% de todas as mulheres grávidas podem desenvolver complicações potencialmente mortais durante emergências humanitárias.  

Maria Andarus, 25 anos, perdeu a casa durante o ciclone Idai e o marido perdeu o barco, by Ocha/Saviano Abreu

Assistência 

O Unfpa diz que “trabalha 24 horas por dia para garantir que a assistência obstétrica de emergência está disponível onde é mais necessária e evitar mortes maternas.” 

Segundo a agência, “essas mulheres não sabem como alimentar os filhos, não têm um teto sobre a cabeça e não sabem se o bebé vai nascer saudável.” A agência diz que “é uma luta inimaginável, emocional e física.” 

Depois de Moçambique ter sido atingido por dois ciclones em seis semanas, o Escritório da Nações Unidas para Assuntos Humanitários, Ocha, informa que a maioria dos deslocados são mulheres e crianças, vivem em abrigos temporários em circunstâncias difíceis e querem voltar a uma vida normal e digna. 

O Ocha destaca a história de duas mulheres, Beatriz Cassamo e Maria Andaruz, que “apesar de tudo o que passaram, da perda, medo e incerteza, estão gratas por estarem vivas para ajudar os seus filhos.” 

Maria Andarus 

Quando o Ocha encontrou Maria Andarus, de 25 anos, a moçambicana estava em frente a uns destroços no local onde costumava estar a sua casa. A jovem procurava documentos pessoais levados pela tempestade. 

O marido é pescador, mas perdeu o barco durante o ciclone. Neste momento, os dois não têm meios de sustentar a família e sobrevivem graças à ajuda humanitária. 

Maria disse que era “feliz apesar de todos os desafios” e que chorou muito no dia em que a casa foi destruída porque se sentia impotente. 

Naquele dia, tudo o que conseguiu fazer foi pegar os filhos e fugir. Ela diz que “continua forte” e sorri para que os filhos “não vivam com medo” e “saibam que tudo vai ficar bem.” 

Beatriz Cassamo 

O Ocha diz que Beatriz Carimu Cassamo, de 38 anos, “é um exemplo dos desafios que quase todas as mães enfrentam depois de o ciclone Idai ter mudado o rumo das suas vidas.” 

Moradores da ilha Matemo, em Moçambique. Região foi afetada pelo ciclone Kenneth. Moçambique 8 de maio de 2019. , by PMA/Deborah Nguyen

Beatriz é de Macurungo, no distrito de Búzi. O marido morreu há nove meses e ela ficou a educar os dois filhos sozinha. Meses depois, morreu o irmão e ela, sem hesitar, decidiu cuidar dos sobrinhos. 

No dia em que o Ciclone Idai atingiu a província de Sofala, a sua casa desmoronou. 

Ela juntou umas chapas de metal e improvisou um teto para a família, mas dois dias depois chegaram as águas da enchente e ela teve que fugir com as crianças.  

Beatriz e as crianças encontraram abrigo no segundo andar de uma escola, esperando dias para serem resgatados. A moçambicana disse ao Ocha que foram os dias mais difíceis da sua vida, sem comida e sem água. 

A família foi levada de barco para a cidade da Beira, onde pode finalmente comer, beber e receber cuidados médicos. As crianças estavam exaustas, desidratadas, com fome e com medo. Foram depois transferidos para um campo de deslocados.  

Beatriz partilhou que ficaram no campo durante um mês e ela só conseguia pensar em voltar para a sua comunidade, para “levar as crianças de volta para um sítio que pudessem chamar de casa.” Por enquanto, ainda vivem num campo, em Guara Guara.  

Beatriz diz que perdeu “tudo”, as colheitas, a casa, o marido e o irmão. Apesar das dificuldades, diz que não pode “deixar de agradecer por ainda ter os filhos.” 

Financiamento 

Os parceiros humanitários pediram US$ 281,7 milhões para fornecer água, comida, abrigo e medicamentos às populações afetadas pelos dois ciclones. Até ao momento, 66,3% do pedido continua sem financiamento 

 

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