Destaque ONU News Especial - Aliança ACT

9 abril 2019

Neste Destaque Especial, a ONU News entrevista o secretário-geral da Aliança ACT, uma coligação mundial de 152 igrejas e entidades religiosas. Rudelmar Bueno de Faria participou na 52ª Sessão da Comissão sobre População e Desenvolvimento, que aconteceu na sede da ONU em Nova Iorque. 

Nesta entrevista à ONU News, em Nova Iorque, conheça uma entidade  que associa  organizações  baseadas na fé que tem parceria  com o sistema das Nações Unidas. O trabalho de ajuda humanitária  da Aliança ACT é  realizado em todo o mundo e a assistência chega a situações como da de Moçambique depois do ciclone Idai.

ONU News (ON): A Aliança ACT é uma organização que reúne mais de 150 igrejas e associações religiosas. Atua em mais de 125 países e participou da conferência. Vamos conversar agora com o secretário-geral da Aliança ACT, Rudelmar Bueno de Faria. Muito obrigada pela sua presença nos nossos estúdios. Para começar, qual é a mensagem que a aliança trouxe para esta conferência? Como avalia essa participação? 

Rudelmar Bueno de Faria (RBF): A Aliança ACT está participando aqui com uma avaliação bastante extensa representando vários países e várias organizações membros da aliança, e que estão nesse momento trazendo um pouco da experiência que as igrejas e as organizações relacionadas às igrejas estão jogando ou realizando em cada um desses países com relação ao programa de ação da Conferência Internacional sobre Desenvolvimento e Populações.  Nós somos uma aliança e estamos apoiando esse processo. A nossa mensagem está basicamente vinculada à questão dos Direitos Humanos de como dentro desse contexto  de trabalhar a questão da desigualdade de género e de promover uma agenda que seja positiva em termos de população e desenvolvimento. Nós queremos trazer a vinculação de todo o trabalho com o marco dos direitos humanos. Esse marco implica  também apoiar claramente a questão dos direitos sexuais e reprodutivos. Dentro não da própria aliança, mas também dentro do setor religioso, existe alguma divergência em termos de como nós deveríamos abordar esses temas. Nós queremos trazer uma mensagem que é progressista, baseada em direitos, mas também uma mensagem de que organizações baseadas na fé jogam um papel importante em definir normas sociais e culturais que tragam as pessoas para entender que temas de direitos sexuais e reprodutivos são importantíssimos para o desenvolvimento sustentável do nosso planeta e livre em linga, por exemplo, com a Agenda 2030, e as metas de desenvolvimento sustentável. 

ON: E quanto às divergências, quais seriam as principais e as maiores dificuldades em se lidar com essa questão? 

RBF: Dentro do setor religioso, e isso não é somente no setor cristão, mas de todas as religiões do mundo, existe uma questão que está relacionada ao fundamentalismo religioso, político e também econômico. Isso tem uma intersecção dentro da sociedade, que está muito vinculado também de como nós interpretamos, desde uma perspectiva de cultura, temas que estão relacionados com os dogmas das diferentes igrejas ou religiões. 

As necessidades são exatamente na área de saúde e também de recuperação e a questão da água, por exemplo, contaminação das águas pelas inundações que ocorreram pela contaminação dos rios.

A questão de como, por exemplo, a mulher decidir sobre sua sexualidade, ou das pessoas decidirem sobre a sua sexualidade, ou de seu corpo, de como vai tratar dessas questões, que estão relacionadas com a sexualidade também, é um dos temas que, dentro das igrejas, geralmente nós temos posições opostas. Algumas pessoas tomam isso, basicamente, tudo o que é questão de direitos sexuais reprodutivos, como uma questão simplista de aborto. E não é isso que a gente trabalha. A gente está trabalhando numa questão de direitos. Mesmo teologicamente, existem organizações que defendem uma postura que... dentro da bíblia mesmo existem indicações de que essa é uma prática que já era também defendida culturalmente na época de Jesus. E hoje nós temos, digamos, algumas interpretações teológicas que são completamente descabidas a um contexto aonde, digamos, a religião está envolvida. Talvez essa questão de aborto e a questão da homossexualidade, da diversidade sexual, seja um dos pontos, digamos, controversiais. 

ON: Tendo em vista o trabalho que vocês desenvolvem nas sociedades, qual a importância que o senhor vê numa conferência como esta, por exemplo, para se trabalhar em termos da gravidez na adolescência e nas comunidades?  

RBF: Isso é muito importante e, atualmente, nós temos um convênio global com várias agências das Nações Unidas, especialmente o Fundo de População das Nações Unidas, Unfpa, justamente onde nós temos um trabalho integrado com essa questão de prevenção e mudando também algumas normas sociais e culturais que implicam e que abrem essa possibilidade.  

Recentemente, estou regressando da América Central, onde nós assinamos um convênio local, em El Salvador, com o Unfpa, trabalhando especificamente esse caso. Mas dentro da nossa aliança na África, na Ásia ou mesmo na Europa, esse é um tema que digamos que se trabalha constantemente. É parte da nossa estratégia como Aliança ACT, mas também muito alinhado com a parceria que nós temos com o sistema das Nações Unidas, mas também com governos nacionais. Esse é um ponto fundamental e isso também está vinculado com a questão da equidade de gênero. Essa é uma das áreas principais em que nós trabalhamos como Aliança ACT.  

ON: Indo para outro tema em termos da atuação da Aliança ACT no mundo. A Aliança ACT agora está prestando ajuda para os afetados do ciclone Idai. O senhor poderia falar um pouco sobre o trabalho que está sendo feito e a ajuda que está sendo fornecida? 

RBF: A Aliança ACT é a maior aliança protestante e ortodoxa que trabalha na área humanitária, de desenvolvimento e de incidência política globalmente. Nós temos membros nacionais, regionais e internacionais, que estão localizados nos países e estão organizados em fóruns nacionais. Isso significa que todos os membros da Aliança ACT, quando estão num país, devem trabalhar conjuntamente e implementar conjuntamente. Isso permite que, como nós temos igrejas que estão localizadas nas partes mais remotas dos diferentes países, eles são os primeiros que respondem a situações de emergência. E isso aconteceu agora em Moçambique, Zimbábue e Maláui, com o ciclone que passou lá e nós respondemos imediatamente de uma forma organizada e baseada também em princípios de rendição de contas, de accountability, e também de efetividade. 

A nossa resposta inclui, desde atenção imediata para vítimas, incluindo socorro, juntamente com outras organizações, como a Cruz Vermelha Internacional e os próprios organismos do Estado que proveem a ajuda emergencial. Mas também nós trabalhamos com uma questão que está vinculada, digamos, a prover habitação temporária, qualquer tipo de alimentação, água, medicamentos, trabalhamos também toda a questão psicossocial. Dentro dessa situação de emergência, as pessoas são afetadas emocionalmente. Então, a gente trabalha com a questão do trauma, mas também a questão da recuperação, resiliência dessas comunidades, para situações similares.  

ON: Agora, nesse momento, que as águas estão baixando, em Moçambique, por exemplo, tendo em vista essa experiência que a Aliança ACT tem em campo. Quais as principais necessidades, onde as pessoas precisam de auxílio? 

RBF: As necessidades são exatamente na área de saúde e também de recuperação e na questão da água, por exemplo, contaminação das águas pelas inundações que ocorreram pela contaminação dos rios. Mas também, digamos, a contaminação que existe e como isso afeta principalmente crianças na sua relação. Essas são as principais áreas que estão sendo desenvolvidas nesse momento. É a questão de recuperação de águas e de poços locais e também prover medicamentos para que as pessoas possam estar em condições físicas, aptas para passarem para uma fase de recuperação.  

Então, a gente trabalha com a questão do trauma, mas também a questão da recuperação, resiliência dessas comunidades, para situações similares.  

ON: Poderia falar um pouco sobre o trabalho desenvolvido pela Aliança ACT nos outros países lusófonos? 

RBF: Como você mesmo mencionou, nós temos uma presença em quase 150 países através dos nossos membros. A nossa atuação global tem cinco áreas principais de atenção. Uma é a ajuda humanitária e toda a questão de redução de desastres, que é um processo que implica toda uma preparação e a prevenção de desastres. Nós temos também a equidade de gênero, justiça de gênero, como nós chamamos. Temos a questão de migração e deslocamento humano, que é uma área principal também que trabalhamos. E a questão de paz e segurança humana. E em todo o mundo nós trabalhamos com essas perspectivas. Desde uma perspectiva do papel dos líderes religiosos, em termos de, por exemplo, mediar conflitos, participar de processos de paz, educar as pessoas em relação à importância de sociedades pacificas e inclusivas. Temos toda a questão, que também é uma ação global, da mudança climática. Nós trabalhamos a nível de incidência política em grandes espaços, como a COP, a Conferência de Partes das Nações Unidas. Mas também trabalhamos a nível local com projetos de resiliência das comunidades, mas também de adaptação às mudanças que existem em razão do câmbio climático. Participamos também em questões como por exemplo a questão do Oriente Médio, que é bastante complicada em termos de conflitos. É bastante diverso o trabalho da Aliança.  

ON: Algum outro ponto que gostaria de adicionar antes de encerrar nossa entrevista? 

RBF:  Não somente enfatizar a importância do multilateralismo no contexto global hoje. Nós sabemos que existem processos que estão retrocedendo temas de direitos que estão muito vinculados à própria Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948. E existem dentro da Comissão de Status da Mulher ou da Comissão de População em Desenvolvimento vozes, que não são maioria, que tratam de regredir os avanços que nós tivemos como humanidade nessa área de equidade de gênero, de inclusão. E esse é um dos pontos que gostaríamos de chamar a atenção de todas as organizações, governos, sociedade civil, organizações baseadas na fé, para digamos assumir essa agenda que inclui valores de inclusão, não de exclusão. Essa é a mensagem que eu gostaria de passar.  

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