ESPECIAL: Reverter danos causados pelos seres humanos na natureza é “para ontem”, diz ator Mateus Solano
BR

20 março 2019

Defensor da campanha Mares Limpos do Programa da ONU para o Meio Ambiente ilustra seriedade do tema; iniciativa do Pnuma é apoiada por 60 países; iniciativa é uma das mais bem-sucedidas da história da agência; em evento das Nações Unidas, 200 países prometeram reduzir uso de plásticos até 2030.

A cada minuto no mundo um milhão de garrafas plásticas são compradas. Em um ano, são utilizadas 500 milhões de sacolas plásticas e 8 milhões de toneladas do material chegam aos oceanos, ameaçando a vida marinha.

O ator Mateus Solano é Defensor da Mares Limpos, campanha de defesa dos oceanos da ONU Meio Ambiente.
O ator Mateus Solano é Defensor da Mares Limpos, campanha de defesa dos oceanos da ONU Meio Ambiente., by Divulgação

Reverter esse dano que o ser humano vem causando à natureza é para ontem, segundo o ator brasileiro Mateus Solano, que falou à ONU News do Rio de Janeiro.

Seriedade

Desde 2018, ele é um defensor da #MaresLimpos, uma campanha promovida pelo Programa da ONU para o Meio Ambiente, Pnuma. Acostumado a contar histórias, ele usa uma para ilustrar a seriedade do assunto.

 “Os netos, hoje, dos alemães, se viram e falam para o vovô: vovô como é que vocês deixaram isso acontecer, como é que vocês deixaram uma coisa como o nazismo e viram os judeus, e ciganos, enfim, sendo levados, como é que vocês não fizeram nada, e imagino que um avô deve olhar com vergonha e pensar, meu deus, como é que eu não fiz nada e como é que eu fui conivente com isso. Eu acho que os nossos netos terão a mesma pergunta para fazer para a gente se a gente continuar agindo do jeito que a gente age. Vovô, porque é que vocês deixaram isso acontecer, porque é que vocês usaram o canudo e jogaram fora, porque vocês não mudaram essa forma de agir, de ser e de estar nesse mundo, olha só como é que estamos agora.”

#MaresLimpos

A necessidade de proteger os oceanos e frágeis ecossistemas foi um dos principais focos da Assembleia Geral das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que aconteceu até sexta-feira em Nairóbi, no Quênia. Os cinco dias de discussões encerraram com uma declaração onde mais de 200 países se comprometeram a reduzir o uso de plásticos até 2030.

Durante a cúpula, os países Antígua e Barbuda, Paraguai e Trinidad e Tobago também se uniram à campanha #MaresLimpos. Agora, a iniciativa conta com o apoio de 60 países, envolvidos na maior aliança mundial de combate à poluição plástica no mar, incluindo 20 da América Latina e do Caribe.

A coordenadora da Mares Limpos no Brasil, Fernanda Daltro, explicou à ONU News, de Brasília, que a campanha, que já completou dois anos, é uma das mais bem-sucedidas da história da agência.

“O que é muito interessante, é que enquanto a Unea é um momento em que países, os países-membros da ONU se encontram para discutir em um nível muito mais amplo, um encontro de alto nível, etc. Aqui em baixo, na população, nas pessoas, no dia a dia, há uma receptividade muito grande por essa temática, e com a preocupação a respeito da saúde dos oceanos. Então, o dia a dia das pessoas é cada vez mais buscando uma redução da sua geração de lixo plástico. As pessoas estão interessadas em alternativas, estão interessadas em reduzir sua própria contribuição para o problema. Agora, isso precisa começar a se refletir na postura dos governos nos momentos das discussões.”

Para o Pnuma, as empresas também têm um papel a desempenhar, particularmente na liderança de movimentos rumo a uma economia circular, que recuse o modelo “extrair- transformar-descartar”. O crescente clamor público por práticas mais sustentáveis não pode mais ser ignorado e a lógica econômica para justificar a inação está sendo vista cada vez mais como falsa.

Coordenadora da campanha Mares Limpos no Brasil, Fernanda Daltro
Coordenadora da campanha Mares Limpos no Brasil, Fernanda Daltro, by ONU Meio Ambiente - Brasil

Brasil

De acordo com a agência, a Mares Limpos no Brasil atingiu mais de 200 mil pessoas através de atividades online e mobilizou cerca de 20 mil pessoas na #CleanSeasWeek, ou Semana de Oceanos Limpos, iniciativa que promoveu a limpeza de praias no país.

Ao todo, 13 cidades no Brasil assinaram compromissos com a campanha e irão elaborar Planos Municipais de Combate ao Lixo no Mar.

Para Daltro, um dos grandes benefícios da campanha foi o de “trazer à tona essa temática e de amplificar as vozes que já falavam sobre esse problema da poluição plástica dos oceanos”, trazendo uma maior visibilidade para os defensores dos oceanos, como o Mateus Solano.

“A Mares Limpos apareceu para mim, na verdade, porque de um tempo para cá, de uns dois, três anos para cá, eu escolhi, digamos assim, usar a minha formação de opinião, o carinho que as pessoas têm por mim, pelo meu trabalho, para divulgar essa luta ambiental. Desde muito pequeno eu sou ligado à natureza e tenho a noção de ser filho da natureza e não dono dela, e de que natureza é algo muito maior e que não precisa de forma alguma do ser humano, muito pelo contrário, nós é que precisamos dela. Por tanto, é com muita alegria que eu me tornei defensor da Mares Limpos.”

Segundo dados da ONU, 80% da poluição dos oceanos saem da superfície terrestre.
Saeed Rashid
Segundo dados da ONU, 80% da poluição dos oceanos saem da superfície terrestre.

Urgências

Solano destaca a urgência de se mudar os padrões de consumo e de produção e que é “urgente parar de agredir da forma tão avassaladora e rápida que o ser humano tem destruído, e os mares são o berço da vida, e muito mais do que isso, se não fosse pelos mares nós não estaríamos aqui.”

Ele conta que além de ajudar na divulgação da causa, também foca nas ações do dia a dia, e que a população em geral precisa “mudar suas atitudes neste sentido, usar menos água, desligar a luz e tantas outras pequenas coisas.” Para Solano, a crianças também são fundamentais nesse processo.

“Eu acho que as crianças são uma ferramenta poderosa. Não só porque o planeta vai ficar com eles, mas também porque eles nos lembram o tempo todo de como cada dia é um dia novo, e um dia novo para a gente mudar também. Eu acho que as crianças devem sempre ser incluídas, não só para sensibilizar as pessoas porque são elas que vão herdar o mundo que nós deixamos, mas também, para elas agirem também, lembrarem os pais.”

Neste vídeo preparado para marcar o Dia dos Namorados de 2018, O Programa da ONU para o Meio Ambiente pediu para que todos acabassem com uma relação de longa data prejudicial para o planeta - com o plástico descartável.

Relação com o Plástico

Daltro lembra que a produção do plástico vem crescendo e que é muito provável que duplique ou triplique nas próximas décadas. Por isso, é essencial que se construa uma nova relação entre o plástico e o ser humano.

“Nós somos a geração que tem essa incumbência. Hoje, a nossa geração atual, ela precisa rever a relação da sociedade humana como um todo com o plástico. Então, não é só exclusivamente uma atitude individual, ou uma pressão aos governos, uma pressão às indústrias como sociedade humana, a gente precisa rever a nossa relação. Em algum momento a permissividade de ter essa coisa moderna, essa coisa acessível que é o plástico, bonita, industrial, o plástico traz toda uma ideia de modernidade, uma ideia de limpeza, de higiene, em algum momento a gente perdeu a mãe e a gente permitiu que o plástico estivesse em todos os ambientes e em todos os momentos da nossa vida, sem considerar o impacto ambiental dessa escolha.”

Ao todo, 13 cidades no Brasil assinaram compromissos com a campanha e irão elaborar Planos Municipais de Combate ao Lixo no Mar.
Ao todo, 13 cidades no Brasil assinaram compromissos com a campanha e irão elaborar Planos Municipais de Combate ao Lixo no Mar. , by Divulgação

Sacolas Plásticas

Daltro explica que a próxima etapa da campanha Mares Limpos irá focar nas sacolas plásticas. Inicialmente, o objetivo central foi a conscientização em relação aos canudos, que foi bem recebida pelo público.

Mas, a especialista aponta que as sacolas plásticas têm danos ainda maiores do que os canudos e que é preciso solucionar o problema desta poluição junto com a sociedade brasileira.

Neste sentido, o Pnuma acredita que mudanças estabelecidas em termos de legislações podem obter um bom resultado. Daltro cita o caso de São Paulo, onde após o início da cobrança de R$ 0,06 por sacola, ou cerca dois centavos do dólar, houve uma queda entra 70% e 80% no uso das sacolas.

Rio de Janeiro

A campanha busca apoiar agora a cidade do Rio de Janeiro, que irá abraçar a causa.

“A gente quer deixar um recado para o pessoal do RJ, para apoiar e abraçar a legislação que está entrando em vigor agora em julho, e de que funciona. De que a gente não precisa de tanta sacola plástica no nosso dia a dia e muito menos o nosso meio ambiente.”

Pnuma destaca “ameaça existencial” da saúde dos mares
Foto: ONU Mundo Oceanos/Pasquale Vassallo
Pnuma destaca “ameaça existencial” da saúde dos mares

Estudo

Durante a Assembleia Geral das Nações Unidas para o Meio Ambiente, um relatório divulgado pelo Pnuma, alertou que a ação humana prejudica o planeta de forma tão grave, que somada à mudança climática, “colocará cada vez mais em risco a saúde das pessoas”.

O estudo que envolveu 250 cientistas e especialistas de mais de 70 países e é considerado o mais abrangente e rigoroso realizado pela organização nos últimos cinco anos.

A pesquisa com o título Panorama do Meio Ambiental Global adverte que a menos que sejam ampliadas as normas de proteção ambiental, podem ocorrer milhões de mortes prematuras até a metade deste século. Os poluentes nos sistemas de água doce podem passar a ser uma das principais causas de morte até 2050.

Neste vídeo preparado pelo o último Natal e Ano Novo, o Pnuma lembrou que não era hora de sentir saudade do ex.

 

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