Destaque ONU News Especial - Cidades, Mudança Climática e Alimentação
BR

20 fevereiro 2019

Neste Destaque ONU News Especial, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, José Graziano da Silva, explica como as cidades têm um importante papel no fornecimento de alimentos de qualidade e saudáveis para a população e  o impacto da mudança climática na produção de alimentos no mundo.  

“O papel das cidades na agenda global, incluindo cidades para o desenvolvimento sustentável, segurança alimentar, nutrição e mudança climática” é o tema de um evento das Nações Unidas que teve a participação do diretor-geral da FAO.

A reunião foi organizada pela presidente da Assembleia Geral, Maria Fernanda Espinosa, em parceria  com a agência da ONU e o Programa da ONU para Assentamentos Humanos.

Em declarações à ONU News, em Nova Iorque, às margens do evento, o representante da FAO abordou a iniciativa multidisciplinar da FAO sobre alimentos para as cidades.

ONU News (ON): Qual a importância deste tipo de evento para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, principalmente o da #FomeZero?

José Graziano da Silva (JGS): O evento de hoje é procura mostrar que as cidades têm um importante papel a cumprir na provisão de alimentos de qualidade e saudáveis para a sua população. Nós queremos mostrar o que se está fazendo em distintas cidades ao redor do mundo, para que isso possa estimular outras cidades também a se juntarem a essa agenda urbana da FAO. Nós promovemos, sobretudo, a oportunidade de mercados locais para os consumidores como, por exemplo, o mercado dos produtores, feiras livres, banco de alimentos, restaurantes populares de baixo preço e boa qualidade. Nós também tentamos dar impulso a uma ideia de que as cidades tentam também assumir um papel importante na qualidade de alimentos. Tanto do ponto de vista da sanidade, assegurar que estes sejam vendidos e consumidos em lugares limpos com higiene. Mas também que sejam produtos saudáveis, produtos que não levem à obesidade. Produtos que possam ser consumidos pela população para ter uma vida mais sadia. Esse é o objetivo: mostrar que há muito que as cidades podem fazer em torno do tema da alimentação.

A mudança climática está afetando a produção de alimentos ao redor do mundo todo

ON: A mudança climática também está entre os temas discutidos. Como é que esse processo pode interferir na segurança alimentar dos grandes centros urbanos, onde se está aumentando a população cada vez mais, principalmente em lugares como São Paulo e Rio de Janeiro?

JGS: A mudança climática está afetando a produção de alimentos ao redor do mundo todo. Nós temos tido regiões sofrendo secas sucessivas, o El Niño tem se repetido, ano atrás de ano, e os impactos que a gente vê de inundações e os temporais. Rio de Janeiro e São Paulo, são um bom exemplo, nos últimos meses, do verão brasileiro, tem sido afetado por chuvas torrenciais. Chove no dia. A chuva que normalmente deveria ser distribuída ao longo do mês. Isso dificulta muito os circuitos de distribuição. A população não pode ter acesso aos seus locais de compra. Muitas vezes os locais de armazenamento são inundados. O produto é destruído, o produto perecível principalmente. Mas além desses impactos ocasionais, a mudança climática e basicamente o aumento da temperatura tem afetado a qualidade dos produtos. Hoje a gente sabe, por exemplo, que os cereais, e o trigo é um bom exemplo disso, quando submetido a altas temperaturas, a planta produz menos proteínas. Produz mais calorias. Então, cada vez mais os cereais que nós comemos, estou falando do trigo e do arroz, têm mais carboidrato e menos proteína, menos vitaminas e menos sais minerais. Essa é uma tendência que preocupa. Porque leva a acentuar a tendência à obesidade. A população hoje já tem uma tendência à obesidade por ter uma vida mais sedentária e fazer menos exercício. Se começa a comer mais produtos intensivos em carboidratos, vamos ter essa epidemia de obesidade que nós estamos verificando hoje no mundo todo.

ON: O que se pode fazer mais em termos da nutrição nas cidades, onde se tem essa vida mais sedentária, quais os projetos que a FAO está desenvolvendo nesse sentido?

JGS: Nós podemos fazer muito porque, na verdade, estamos fazendo muito pouco. Até hoje o tema da nutrição foi um tema, digamos, abandonado, porque há a crença que as pessoas sabem o que elas estão comendo. E que elas são as únicas responsáveis por aquilo que estão comendo. Isso não é verdade. Num mundo que tem propaganda tão intensa como a gente tem, desvirtuando às vezes as informações básicas do conteúdo de um produto ou, muitas vezes, quando não há mesmo nenhuma informação sobre o que aquele produto contém sobre a quantidade do sal ou do açúcar. Isso leva que as cidades tenham que ter uma responsabilidade e prover essa informação ao consumidor. O direito do consumidor: saber o que está consumindo é um direito importante e é parte do direito à alimentação. E se pode fazer muito nesse sentido.

ON: Algum outro ponto a adicionar para  terminar esta conversa?

JGS: Nós temos cidades que veem aqui apresentar programas que são modelos. Mas além dos projetos que são apresentados hoje, há uma rede de cidades a que nós chamamos Pacto de Milão. Reúne mais de 150 cidades de grande e médio portes ao redor de todo o mundo comprometidas com uma lista de políticas que estão sendo implementadas. Aqueles que estão me ouvindo, pediria que escrevam para o prefeito e para os vereadores da sua localidade perguntando se a cidade já faz parte dessa rede do Pacto de Milão. Se não faz, é muito simples, pode fazer a inscrição pela internet e comprometer-se em aplicar esse listado de programas.

 

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