ONU conclui “maior operação de ajuda humanitária de sempre” realizada na Síria

Foram necessários mais de dois meses de negociações com todas as partes para garantir acesso seguro.
Foto Unicef/ UN0279377
Foram necessários mais de dois meses de negociações com todas as partes para garantir acesso seguro.

ONU conclui “maior operação de ajuda humanitária de sempre” realizada na Síria

Ajuda humanitária

Iniciativa complexa de nove dias quer apoiar 40 mil pessoas; várias agências das Nações Unidas estiveram envolvidas com mais de 300 funcionários e voluntários; enviado especial acredita em “solução negociada” para resolver o conflito.

As Nações Unidas e o Crescente Vermelho Árabe Sírio concluíram, esta quinta-feira, a entrega de assistência humanitária a mais de 40 mil deslocados no remoto assentamento de Rukban, no sudeste da Síria, junto à fronteira com a Jordânia.

A complexa operação de ajuda é a maior já realizada pela ONU naquele país. A missão de nove dias envolveu 133 camiões, com mais de 300 funcionários e voluntários.

Assistência Humanitária

A ONU chega assim, pela segunda vez, a este local remoto, onde os meses frios estão agravam a situação.
A ONU chega assim, pela segunda vez, a este local remoto, onde os meses frios estão agravam a situação.Foto Unicef/ UN0279376

Foram necessários mais de dois meses de negociações com todas as partes para garantir acesso seguro. A ONU chega assim, pela segunda vez, a este local remoto, onde os meses frios agravam a situação.

O coordenador residente e Humanitário da ONU na Síria, Sajjad Malik, afirmou que esta operação que envolve várias agências da ONU “proporcionou assistência às pessoas em Rukban, muitas das quais são mulheres e crianças que ficaram retidas no deserto em condições extremamente severas durante anos.”

O responsável informou ainda que as pessoas têm dito às equipas humanitárias o quão “desesperada é sua situação” e como têm frio, fome e “carecem de acesso aos serviços mais básicos, sendo a água escassa.”

A Agência de Refugiados da ONU, Acnur, foi duma das agências que participou nesta operação que fez chegar alimentos, medicamentos e equipamentos médicos, roupas de inverno, abrigos e kits de higiene aos residentes do campo.

Segundo o Acnur, também foram distribuídos materiais de educação e kits infantis.

Em comunicado, a agência destaca que as condições em Rukban são “desesperantes”, onde “praticamente não há serviços e o acesso à água limpa é muito limitado.”

Os mais vulneráveis ​​são mulheres, crianças e pessoas com deficiência, que não têm apoio e são deixados à sua própria sorte. Os preços dos produtos que chegam ao campo são muito caros e estão além das possibilidades da maioria das famílias.

Avaliação

Segundo o PMA, os adultos comem uma refeição por dia, economizando o que têm para os seus filhos.
Segundo o PMA, os adultos comem uma refeição por dia, economizando o que têm para os seus filhos.​​​​​​​Foto PMA

Como parte do esforço de prestar uma ajuda mais ampla, os funcionários do Acnur passaram mais de uma semana em Rukban e conversaram com famílias, especialmente mulheres, de várias idades, para entender as dificuldades que enfrentam diariamente.

A maioria da população civil em Rukban são mulheres e crianças, vivendo em abrigos improvisados ​​e dispersos, sem privacidade nem proteção contra as duras condições climáticas.

O Acnur destaca também que a situação de desespero gera casamentos precoces, com algumas mulheres submetidas a casamentos em série. Há relatos de meninas que adotaram a prática do sexo para sobreviver.

O Acnur informa ainda que muitas mulheres ficam com medo de deixar suas casas de barro ou tendas para ficar do lado de fora, pois há sérios riscos de abuso e assédio sexual.

A agência apela a todas as partes do conflito para que facilitem a entrega de ajuda. O acesso seguro é essencial para fornecer recursos que salvam vidas e realizar avaliações de necessidades, conforme exigido pelo Direito Internacional Humanitário.

Alimentação

O porta-voz do Programa Alimentar Mundial, PAM, Hervé Verhoosel, fez um balanço da insegurança alimentar que se vive naquela região. Segundo o representante, “há uma pobreza significativa dentro do assentamento, com muitas famílias sem condições de pagar uma refeição além do pão e do arroz seco. A maioria das famílias disse que não pode comprar legumes ou carne porque são extremamente caros no mercado.”

Segundo a agência, os adultos comem uma refeição por dia, economizando o que têm para os seus filhos. A maioria das famílias não tem lenha para preparar alimentos e utiliza lixo e plástico para fazer fogo para cozinhar e se aquecer.

A situação agrava-se com os elevados preços de mercado de produtos alimentares e não alimentares devido ao contrabando de mercadorias para o mercado.

Crianças

O Fundo das Nações Unidas para a População, Unicef, informou que vacinou milhares de crianças durante a missão de nove dias.
O Fundo das Nações Unidas para a População, Unicef, informou que vacinou milhares de crianças durante a missão de nove dias.PMA

Por outro lado, o Fundo das Nações Unidas para a População, Unicef, vacinou milhares de crianças durante a missão de nove dias.

A diretora executiva da agência, Henrietta Fore, que visitou a Síria em dezembro do ano passado, lembra que “as crianças em Rukban e outras áreas difíceis da Síria ainda lutam pela sua sobrevivência e precisam de assistência humanitária urgente antes que seja tarde demais." A representante acrescentou que “este último comboio humanitário permitiu entregar apoio desesperadamente necessário a algumas das crianças e famílias mais vulneráveis.” 

O Unicef alerta para a dificuldade no acesso aos serviços de saúde, a ausência de médicos e o reduzido número de clínicas mal equipadas. Desde dezembro do ano passado, pelo menos oito crianças, a maioria delas recém-nascidas, morreram no campo por causa das baixas temperaturas e da falta de assistência médica.

Quase 3 mil crianças em idade escolar em Rukban estão fora da escola por causa de salas de aula superlotadas, falta de professores qualificados e condições financeiras difíceis.

Negociações

Em conversa com os jornalistas, em Genebra, o enviado especial da ONU para a Síria, Geir O. Pedersen, explicou o trabalho que tem sido feito junto das autoridades do país para resolver o conflito.

Pederson disse estar empenhado na concretização de uma Síria baseada na resolução 2254 do Conselho de Segurança que prevê o respeito pela unidade, a integridade territorial e a soberania da Síria.

O representante informou que tem abordado “todas as questões relacionadas com a governação, o processo constitucional e a necessidade de eleições supervisionadas pela ONU.” As questões de ajuda humanitária e dos refugiados também têm sido discutidas.

Para o representante uma “solução negociada” é possível mas para tal “as duas partes têm de se sentar e iniciar negociações reais.”

Pederson disse também que tem esperança de que haja um comitê constitucional em breve, que marcará o início “de algumas discussões sérias que poderiam abrir um processo político que levará a um resultado negociado para o conflito.”